Economia

MATO GROSSO DO SUL

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Produtor cultivará 40 mil hectares de algodão, soja e milho no Sudão

Produtor cultivará 40 mil hectares de algodão, soja e milho no Sudão

Neri Kaspary

25/12/2010 - 15h15
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Depois de um ano de testes e resultados “fantásticos”, quando foram plantados “somente” 400 hectares de algodão e 100 de soja, o produtor sul-mato-grossense Gilson Pinesso pretende “partir de corpo e alma” em 2011 para o longínquo país africano do Sudão, plantando 20 mil hectares de algodão, 10 mil de soja e 10 mil de milho. A previsão é que sejam investidos em torno de US$ 80 milhões de dólares na aquisição de maquinários, fertilizantes e sementes. E o desembolso só não é maior porque não é necessário comprar terras, que são públicas e cedidas gratuitamente pelo governo para aqueles que quiserem produzir, conforme Gilson Pinesso.

Neste primeiro ano ele levou somente três brasileiros para cuidar das lavouras. No próximo, principalmente no período do plantio, pretende arregimentar pelo menos 40. Destes, dez devem permanecer em tempo integral, principalmente técnicos e administradores para supervisionar o desenvolvimento das lavouras. E, na hora da safra, novo reforço deve ser levado.

Embora o Sudão fique “do outro lado do mundo”, a viagem não é nenhum bicho de sete cabeças. “Em 15 horas estou lá”, revela o agricultor, que vez ou outra leva este mesmo tempo para se deslocar de uma fazenda para outra aqui no Brasil, já que a família cultiva em torno de 80 mil hectares em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e no Piauí. Em média, a empresário rural visita a África a cada 60 ou 70 dias. Primeiro vai a Istambul, na Turquia, e depois leva mais quatro horas até Karthum (capital do Sudão) ou alguma cidade mais próxima de Agadi, onde estão suas lavouras. Então, bancar as idas e vindas de dezenas de trabalhadores, que já atuam com ele nas fazendas brasileiras, não inviabiliza o negócio, segundo ele.

O deslocamento compensa porque os custos de produção são inferiores, a logística de venda é melhor e preços são superiores. A saca de soja, por exemplo, está cotada a 32 ou 33 dólares no mercado interno, já que o Sudão importa praticamente tudo o que consome, ante 26 pagos atualmente em Mato Grosso do Sul. Mas, a produção ainda é menor, dois mil quilos por hectare na África, contra 3,2 mil no Brasil. Isto, porém, deve mudar logo, acredita ele, pois sementes estão sendo adaptadas ao clima local e em duas ou três safras e produtividade deve ser semelhante à brasileira. A diferença, porém, é o custo de produção. Aqui gasta-se em torno de 800 dólares por hectare, ante 350 necessários no país muçulmano.

No caso do algodão, produto que nunca na história teve cotação tão alta quanto agora, R$ 95 a arroba, a diferença é ainda maior. Nas terras sul-mato-grossenses ou mato-grossenses são necessários em torno de 1,5 mil quilos de fertilizantes, contra um terço disto na férteis áreas do Rio Nilo, região central do maior país africano e décimo maior do mundo, com cerca de 2,5 milhões de quilômetros quadrados. No Brasil são necessárias 22 aplicações de agroquímicos por safra, contra seis em Agadi. Os sudaneses plantam com US$ 850 por hectare, enquanto no Brasil são cerca de US$ 1,9 mil. Além disso, o algodão produzido por lá fica a 400 quilômetros do porto e dali está no mercado asiático em questão de dias. E, tanto lá quanto cá colhem-se de 3,5 a 4 mil quilos por hectare. De Mato Grosso até os portos mais próximos são em torno de dois mil quilômetros e depois mais algumas semanas para atravessar o Atlântico. Isto tudo torna o produto africano bem mais competitivo e lucrativo.

 Desbravador

Gilson Pinesso acredita ser o único agricultor brasileiro no Sudão. Mas, se depender dele, a partir de 2012 haverá verdadeiras caravanas para lá. E esta não é a primeira vez que um dos Pinesso abre fronteiras agrícolas. O avô de Gilson veio da Itália ao Brasil em 1923, para a região de Bebedouro, em São Paulo. Vite e sete anos depois, quando o noroeste do Paraná estava sendo “aberto”, foi para a região de Francisco Beltrão. Mais tarde, em 1976, o pai de Gilson comprou a primeira fazenda em Mato Grosso do Sul, época em que começaram a chegar os primeiros gaúchos e paranaenses para cá. Mas a migração estava longe de parar. Em 1983 decidiram comprar terras em Mato Grosso e no ano passado, no Piauí. Ele não sabe se o passo dado no começo de 2010, para a África, foi o último. Está claro, porém, que voltou para mais perto da terra de onde saiu seu avô há quase 90 anos, pois é da Itália que compra boa parte das máquinas que utilizará para produzir na África.

E, da mesma forma como foram “imitados” por outros em MS, MT e PI, Gilson acredita que os Pinesso serão seguidos na África, onde, segundo ele, existem oito milhões de hectares de terras “fantásticas” para serem cultivados.

Atualmente, o pouco que se ouve falar sobre o Sudão é relativo aos conflitos étnicos da região de Darfur e da guerra civil existente há cerca de cinco décadas. Isto, porém, garante ele, não interfere na atividade agrícola. E, depois do plebiscito de 9 de janeiro, que tende a aprovar a divisão do país, a estabilidade deve aumentar, acredita o produtor. A cultura muçulmana, bem mais rígida, também não atrapalha o negócio. “Só ajuda, pois já tenho quatro belas morenas lá e tenho direito a outras três”, brinca o agricultor de 50 anos.

Mercado internacional

Brasil e outros 121 países fecham acordo para aumentar investimentos estrangeiros

O acordo tem como objetivos simplificar as operações entre os países signatários, dar mais previsibilidade aos investidores e promover operações internacionais

25/02/2024 17h00

Segundo cálculos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o AFID tem potencial para alavancar o PIB brasileiro em 2,1% .

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O Ministério do Desenvolvimento, Indústria Comércio e Serviços (MDIC) informou há pouco que Brasil e outros 121 países concluíram neste domingo em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, um acordo de facilitação de investimentos. Segundo o ministério, o acordo tem como objetivos simplificar as operações entre os países signatários, dar mais previsibilidade aos investidores e promover a conduta empresarial responsável nas operações internacionais.

"Há muito valor no estabelecimento de padrões globais mínimos para transparência, simplificação e facilitação de investimentos, além de prevenção de disputas", explica a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, que representa o MDIC na conferência de Dubai. "E nesse acordo há também cláusulas por meios das quais os países se obrigam a exigir do investidor compromissos sociais e ambientais".

"O Acordo sobre Facilitação de Investimentos para o Desenvolvimento (AFID, na sigla em inglês) vem sendo costurado desde 2017 com forte atuação do Brasil, que possui reconhecida experiência nessa área. Desde 2012, o Brasil vem concluindo Acordos de Cooperação e Facilitação de Investimentos (ACFI) em nível bilateral e regional. Essa experiência fez do País um ator chave na formulação de propostas e nas negociações que vieram a ocorrer na OMC", cita o MDIC em nota.

"Segundo cálculos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o AFID tem potencial para alavancar o PIB brasileiro em 2,1% num período de cinco anos, gerando mais de 160 mil postos de trabalho e aumento dos investimentos em 5,9%. Uma pesquisa realizada pelo Banco Mundial aponta que 82% dos investidores consultados consideram transparência e previsibilidade na conduta de órgãos públicos como um fator importante ou criticamente importante para a definição a respeito de onde investir", informa ainda o ministério.

A assinatura do acordo antecede a abertura da 13ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), que terá início amanhã e prossegue até a quinta-feira (29). A delegação brasileira em Abu Dhabi é liderada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e conta com a participação do Ministério da Agricultura e do Ministério do Desenvolvimento Agrário, além do MDIC.

Amanhã, durante a conferência, o Brasil ainda irá aderir a um outro acordo, segundo o MDIC, o Arranjo Global sobre Comércio e Gênero (GTAGA, na sigla em inglês), do qual fazem parte Canadá, Chile, Nova Zelândia, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Equador, México e Peru. Neste caso, o objetivo é promover políticas que aumentem a participação das mulheres no comércio internacional.

Confira a lista de países que assinam o AFID:

Afeganistão, Albânia, Angola, Antígua e Barbuda, Argentina, Armênia, Austrália, Bahrein, Barbados, Belize, Benin, Bolívia, Brasil, Burundi, Cabo Verde, Camboja, Camarões, Canadá, República Centro-Africana, Chade, Chile, China, Congo, Costa Rica, Djibuti, Dominica, República Dominicana, Equador, El Salvador, União Europeia (27 países), Gabão, Gâmbia, Geórgia, Granada, Guatemala, Guiné, Guiné-Bissau, Honduras, Hong Kong, Islândia, Indonésia, Japão, Cazaquistão, Coreia do Sul, Kwait, Quirguistão, Laos, Libéria, Macau, Malawi, Malásia, Maldivas, Mali, Mauritânia, Ilhas Maurício, México, Moldávia, Mongólia, Montenegro, Marrocos, Moçambique, Miamar, Nova Zelândia, Nicaragua, Níger, Nigéria, Macedônia do Norte, Noruega, Oman, Panamá, Papua-Nova Guiné, Paraguai, Peru, Filipinas, Qatar, Rússia, Arábia Saudita, Seicheles, Serra Leoa, Singapura, Ilhas Salomão, Suriname, Suiça, Tajiquistão, Tailândia, Togo, Uganda, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, Uruguai, Vanuatu, Venezuela, Iêmen, Zâmbia e Zimbábue.

Abastecimento

Hidrelétricas perdem espaço para eólica e solar e já precisam desperdiçar energia

A energia hidráulica é hoje responsável por 53% da capacidade instalada do país

24/02/2024 22h00

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O cenário é uma ladeira abaixo. Há quatro décadas, 90% da matriz elétrica do Brasil vinha de hidrelétricas --Itaipu, por exemplo, foi construída nessa época. Desde então, essas usinas viram sua representatividade cair, ainda que continuem sendo a principal fonte brasileira.

A energia hidráulica é hoje responsável por 53% da capacidade instalada do país; em sete anos, a fatia terá caído para 42%, segundo estimativas oficiais.

A razão principal do declínio está na migração de investimentos para outras fontes de energia, como eólica e solar, cada vez mais baratas. Com isso, há momentos em que as geradoras hidrelétricas precisam até desperdiçar água, que verte sem produzir energia.

O ano passado registrou recordes desse tipo de processo. Só em fevereiro, as hidrelétricas brasileiras deixaram de produzir 16 gigawatts, cerca de 21% da demanda total daquele mês em todo o país. O valor não considera a energia que foi exportada para Argentina e Uruguai.

Em 1985, a matriz elétrica brasileira era composta basicamente por quatro fontes: água, carvão, petróleo e nuclear; ou seja, só uma renovável --a hidráulica--, ainda que fosse de longe a de maior expressão.

Hoje, são ao menos dez, sendo que seis são renováveis. Entre elas, as queridinhas dos atuais investidores: eólica e solar, que representam 11,5% e 11,8% de toda a capacidade no Brasil. Essas fatias, segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), devem ser de 11% e 18% em 2031.

A estimativa da capacidade de geração solar considera que toda a energia renovável produzida na geração distribuída em 2031 seja via painéis solares.

A mudança na fatia de cada fonte de eletricidade tem lógica financeira: até o início da década passada, as hidrelétricas eram campeãs em investimentos em geração centralizada, segundo a EPE. Mas o declínio começou em 2013, e em 2017, elas perderam lugar para as eólicas. Em 2020, último ano da análise, as hidrelétricas estavam atrás das eólicas, solares, termelétricas e biomassa.

"Na cabeça das pessoas, parece que as energias renováveis são só as eólicas e as fotovoltaicas. Como as hidrelétricas são seculares, as pessoas se habituaram com esse recurso no sistema como se ele não merecesse destaque na transição energética", diz Marisete Dadald Pereira, presidente da Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica).

Em termos de emissões, a mudança na matriz brasileira não tem muitos efeitos. O IPCC (órgão de ciência climática da ONU) calcula que a energia solar emite, em média, 48 gramas de CO2 equivalente por quilowatt-hora (kwh), enquanto a hidráulica emite 24 gramas. É metade, mas em comparação com os grandes emissores é quase nada; o carvão, por exemplo, emite 820 gramas de CO2 equivalente por kwh.

Mas a mudança, segundo especialistas, ameaça a flexibilização do sistema nacional de energia elétrica. Isso porque o Brasil ainda não consegue, em larga escala, armazenar as energias eólica e solar produzidas no país.

Com isso, em momentos de menor demanda energética, são as hidrelétricas as responsáveis por diminuir a produção de energia, devido à maior facilidade técnica e porque as energias eólica e solar são mais baratas --nesses casos, as hidrelétricas escoam a água que seria utilizada para a geração de energia, num processo chamado vertimento.

Nessa lógica, quanto mais o sistema ficar dependente de energia solar e eólica, mais as hidrelétricas serão as escolhidas para reduzir a oferta de eletricidade quando a demanda cair -isso se não forem criadas formas de armazenamento de energia no país, como baterias.

"Para gerar energia com essa água, seria necessário que o sistema dispusesse de mais flexibilidade; ou seja, ter mais ativos flexíveis", diz Tiago de Barros Correia, consultor de energia da RegE Consultoria e ex-diretor da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Ele defende a criação de baterias e a extensão das linhas de transmissão.

Alguns países, como a China, têm investido em hidrelétricas reversíveis, onde a água não utilizada para a geração de energia fica retida em um reservatório inferior e, durante o período de baixa demanda de energia, volta ao reservatório superior por meio de uma turbina.

Esse tipo de hidrelétrica é tido como importante processo de armazenamento de energia. O país asiático tem hoje 50 GW de potência nesse tipo de usina e está construindo outros 88 GW, segundo o site Global Energy Monitor.

Questionado, o Ministério de Minas Energia disse que "esse é um recurso importante que contribui para aumentar a flexibilidade operativa e de atendimento à necessidade de potência do mercado". A pasta, porém, não citou planos de construção dessas usinas.

Um relatório da AIE (Agência Internacional de Energia) aponta que o desenvolvimento da energia hidrelétrica no Brasil diminuiu devido à disponibilidade limitada de locais economicamente viáveis, à necessidade de diversificação e às preocupações ambientais.

"A geração hidrelétrica, do ponto de vista econômico, é muito atrativa, mas depende do potencial, que é uma queda-d'água preexistente", afirma Correia, da RegE.

"O que aconteceu foi que a gente esgotou os potenciais. Uma ou outra hidrelétrica ainda poderia ser construída, mas na fronteira do planalto com a bacia do rio Amazonas, onde não é barato construir, por não ter linha de transmissão e por a obra ser mais complicada", diz.

As complicações nas obras estão atreladas a questões ambientais, já que vários desses locais estão em áreas de preservação e terras indígenas, além de haver problemas de logística para transporte de equipamentos, materiais e trabalhadores. A construção de Belo Monte, no Pará, por exemplo, último projeto de grande porte no país, foi cercada de discussões ambientais --e serviu como pivô da saída de Marina Silva do governo Lula, em 2008.
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2031, feito pela EPE, analisou 36 usinas hidrelétricas com registro para estudos de viabilidade na Aneel. Dessas, 20 estão em áreas protegidas ou com os estudos parados. Das outras 16, 8 poderiam começar a operar já nos próximos dez anos. Mas juntas elas totalizam potência de 2 GW --Itaipu tem 14 GW.

Das oito, as que poderiam gerar mais energia estão em Rondônia e Roraima, na floresta amazônica.
Por outro lado, o setor aposta na modernização das atuais hidrelétricas. Um estudo da EPE apontou que as usinas hidrelétricas brasileiras ainda têm capacidade de aumentar em 18,2 GW sua potência, se modernizadas e ampliadas.

As que podem alcançar maior geração estão no Paraná, em Pernambuco, em Goiás, em Minas Gerais, em Alagoas e em Sergipe (algumas nas divisas dos estados).

"Você não precisa ir à China ou à Europa buscar equipamento, você tem eles aqui no Brasil. As indústrias estão prontas para entregar isso", diz Pereira. É incerto, porém, o custo dessas operações. A EPE, em 2019, estimou que o valor variaria de R$ 122 por kW a R$ 634 por kW e, em alguns casos, o retorno financeiro poderia ser menor que as despesas.

A estagnação das hidrelétricas é uma realidade global, com exceção da China, dona das maiores usinas e líder de investimentos neste setor em países emergentes. Segundo a AIE, o país representará 40% do crescimento da capacidade global desse tipo de energia até 2030.

Mas o cenário interno não é dos melhores. E o setor sabe disse: "A gente precisa colocar as hidrelétricas como carro-chefe da transição energética, porque foram elas que possibilitaram a inserção maciça dessas fontes intermitentes, que são as eólicas e as fotovoltaicas. Se não fossem as hidrelétricas, talvez a gente não tivesse o êxito que a gente tem hoje de ter a participação dessas fontes", diz Pereira.

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