Enquanto trabalhadores veem conquista na qualidade de vida, setor produtivo alerta para aumento de até 10% nos custos
A aprovação do fim da escala 6x1 pelo Senado, na quarta-feira, dividiu opiniões entre representantes dos trabalhadores e do setor empresarial em Mato Grosso do Sul. Enquanto sindicatos comemoram a perspectiva de mais tempo para descanso e convivência familiar, entidades empresariais demonstram preocupação com o aumento dos custos operacionais, a necessidade de novas contratações e os possíveis reflexos nos preços de produtos e serviços.
De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Campo Grande e Região (Sintracom-CGMS), José Abelha, a aprovação representa um avanço nas condições de trabalho e na qualidade de vida dos brasileiros.
“Representa mais qualidade de vida, tempo com a família, diminui o desgaste mental, tempo para estudar e também diminui o isolamento social. Avaliamos como uma grande conquista da classe trabalhadora. A força e a união do povo brasileiro fizeram a diferença para a aprovação deste feito, a voz do trabalhador falou mais alto”, comemora.
O Sindicato dos Empregados no Comércio de Campo Grande (Seccg) foi consultado pela reportagem, mas não se manifestou até o fechamento desta edição.
Enquanto do lado empresarial, a Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (Acicg) avalia que a mudança exige planejamento e diálogo com o setor produtivo. O presidente da entidade, Omar Aukar, destaca que a redução da jornada, sem diminuição salarial, pode exigir a ampliação das equipes para manter o funcionamento dos negócios.
“Uma mudança estrutural na jornada de trabalho, com impactos diretos sobre a organização das empresas e o funcionamento da economia, exige responsabilidade, diálogo e uma avaliação aprofundada de suas consequências. Não se trata apenas de reorganizar escalas, mas de compreender como essa mudança poderá afetar a produtividade, a competitividade dos negócios, os investimentos e a capacidade de geração de empregos”, avalia.
Pesquisa realizada pela Acicg com empresas de Campo Grande aponta dificuldades para a adaptação. Entre os entrevistados, 84,7% afirmam enfrentar problemas para contratar mão de obra, enquanto 44,8% estimam que precisarão ampliar as equipes para manter a operação em uma escala 5x2.
IMPACTO
A Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Mato Grosso do Sul (FCDL-MS) corrobora com a preocupação. A presidente da entidade, Inês Santiago, estima que o impacto da redução da jornada sobre os preços finais possa ficar entre 8% e 10%.
“Para custear a mesma operação das empresas com menos horas de trabalho dos colaboradores, alguém vai ter que pagar a conta”, diz Inês. Segundo ela, os custos adicionais poderão ser repassados aos consumidores, com reflexos nos preços de alimentos, medicamentos e outros produtos e serviços.
A dirigente também critica a falta de uma discussão mais ampla com os empregadores antes da votação. Para a federação, a transição prevista na proposta concede prazo para adaptação, mas não elimina os custos envolvidos na reorganização das atividades.
O presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems), Sérgio Longen, explica que a entidade respeitará a legislação aprovada pelo Congresso Nacional e oferecerá suporte às empresas durante a adequação. A preocupação, segundo ele, está nos efeitos sobre a competitividade e o custo de vida.
“Precisamos discutir abertamente os impactos dessa lei. Vamos cumprir o que foi aprovado pelo Congresso Nacional, mas nossa preocupação é com o aumento do Custo Brasil, que prejudica a competitividade das empresas e acaba chegando ao consumidor. A dona de casa já percebe que, com o mesmo dinheiro, consegue comprar cada vez menos. Precisamos considerar esse efeito sobre toda a sociedade”.
O texto aprovado pelo Senado prevê uma implementação gradual das mudanças.
* Saiba
A PEC nº 221/2019 prevê a redução da jornada máxima semanal de 44 horas para 40 horas, sem corte salarial, além de dois dias de descanso remunerado por semana.
O texto aprovado pelo Senado prevê uma implementação gradual: 60 dias após a promulgação da emenda constitucional, a jornada máxima cairá para 42 horas semanais e, 12 meses depois, chegará a 40 horas semanais. Até a promulgação e o início dos prazos de transição, continuam valendo as
regras atuais.