Uma mensagem de rádio alemã, transmitida em 27 de novembro de 1918, resistiu a mais de um século de tentativas de decodificação. Especialistas em criptografia já haviam resolvido centenas de comunicações militares semelhantes daquele período, mas não essa. O texto integrava um grupo de 50 cifrados históricos ainda sem solução, reunidos pelo portal alemão ScienceBlogs.
Agora, o modelo de inteligência artificial GPT-6 Astra, da OpenAI, encontrou a combinação que permitiu reconstruir a frase original, ligada a movimentações navais daquela época.
Um enigma criado havia mais de 100 anos
Os combates da Primeira Guerra Mundial pararam em 11 de novembro de 1918, com o Armistício de Compiègne entre a Alemanha e as forças aliadas. O fim oficial do conflito, porém, só veio com a assinatura do Tratado de Versalles, em 28 de junho de 1919.
Entre a trégua nos campos de batalha e o fechamento formal do acordo de paz, a mensagem transmitida em novembro de 1918 continuava intacta, sem que ninguém soubesse decifrá-la.
O sistema usado pelos alemães, chamado ADFGVX, combinava duas técnicas de criptografia e exigia uma senha específica para ser decifrado. Sem ela, reconstruir a ordem original dos símbolos era quase impossível.
A senha certa, na data errada
A solução veio de um detalhe documentado que, à primeira vista, afastava qualquer chance de sucesso. O GPT-6 Astra testou a palavra alemã Truppenverschiebung — movimento de tropas —, registrada na obra de J, e rives Childs sobre cifras militares germânicas daquele período.
O problema é que essa senha só passou a ser usada em 9 de dezembro de 1918, quase duas semanas depois de a mensagem ter sido enviada. Mesmo com essa inconsistência de datas, o modelo seguiu adiante e aplicou a chave ao criptograma original.
Como o modelo reconstruiu o texto
O método alemão representa cada letra ou número por um par de símbolos escolhidos entre seis — A, D, F, G, V e X — dispostos numa tabela. Em seguida, o conteúdo cifrado é espalhado em colunas conforme a senha escolhida, e o sistema reorganiza essas colunas em ordem alfabética.
Desfazer esse embaralhamento não depende só de reconhecer padrões repetidos no texto. É preciso recompor a sequência exata que os símbolos tinham antes da troca de colunas — e foi esse o trabalho realizado pela inteligência artificial.
A mensagem somava 170 símbolos, distribuídos em linhas vinculadas às 19 letras da palavra-senha. Com a posição de cada coluna identificada, o sistema calculou quais pares deveriam se formar antes de passar pela tabela de decodificação. O processo resultou em uma frase legível em alemão, com uma pequena dúvida sobre um dos números.
O que a mensagem revela sobre a guerra naval
O resultado final, traduzido, descreve a chegada de um cruzador britânico a Sebastopol em 24 de novembro de 1918, seguido pela aproximação de um esquadrão aliado em 26 de novembro. A referência a movimentações navais reais dá força à interpretação: registros navais confirmam que o HMS Canterbury chegou a Sebastopol em 24 de novembro.
E um esquadrão aliado com unidades britânicas e francesas chegou dois dias depois.
A descoberta mostra como ferramentas modernas de inteligência artificial podem aplicar lógica combinatória a um problema que a análise manual tradicional não resolveu por mais de cem anos. O episódio de Sebastopol, até então perdido entre dezenas de cifrados não resolvidos, agora integra a documentação daquele período final da guerra.
Permanece em aberto como a chave correta funcionou em uma mensagem anterior à data de seu suposto uso. O caso levanta dúvidas sobre como as chaves de cifrado alemãs eram de fato gerenciadas no final da Primeira Guerra Mundial.


