Depois de guardar seus segredos por 217 anos, uma correspondência militar cifrada finalmente teve seu conteúdo revelado com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial. O documento data do início do século XIX, período em que Napoleão Bonaparte organizava suas campanhas militares, e só teve o código quebrado agora, depois de ser submetido a uma análise feita por computador.
O destinatário da mensagem era o marechal Auguste de Marmont, que recebeu dados estratégicos sobre a posição e a movimentação das tropas francesas e das forças aliadas. No lugar de letras comuns, o autor recorreu a um conjunto de cerca de 1.300 sinais manuscritos para compor o código, o que travou por mais de dois séculos as tentativas de decifração por meios tradicionais.

Como a inteligência artificial quebrou o código secreto
Carter Church, engenheiro especialista em inteligência artificial, usou o modelo GPT-6 Astra, da OpenAI, para analisar uma reprodução de baixa qualidade do documento. Ele transformou os sinais desenhados em dados processáveis pelo sistema, identificou os símbolos e estabeleceu padrões entre as marcas da carta.
A inteligência artificial gerou múltiplas hipóteses para determinar quais sinais correspondiam a letras individuais, palavras completas ou combinações específicas de caracteres. O processamento levou aproximadamente seis horas para produzir a solução. Satoshi Tomokiyo, engenheiro de patentes e criptógrafo responsável pelo Cryptiana, site especializado em cifras históricas, revisou o resultado e confirmou a decifração como correta e completa.
Uma carta anterior de Napoleão, de março daquele ano, serviu de base para confirmar a ligação entre o conteúdo recuperado e as ordens dadas a Eugène, e essa comparação também permitiu corrigir a data do documento, registrada de forma equivocada na publicação anterior.
Por que o documento permaneceu um mistério por tanto tempo
A carta usava uma cifra homofônica, sistema no qual uma mesma letra pode ser representada por múltiplos símbolos. Por isso, a análise convencional de frequência, método tradicional da criptografia que havia falhado durante séculos, não bastava para decifrar o texto.
Com 24 linhas de símbolos e cerca de 155 sinais distintos, o documento foi publicado em 1969 pelo tenente-coronel J. Vilcoq na revista Revue Historique des Armées. A reprodução de baixa qualidade dificultava a identificação das marcas, e a data associada ao registro era considerada incorreta, o que prejudicava ainda mais as tentativas de solução.
O documento permaneceu entre os registros de cifras históricas ainda não solucionadas.
A importância estratégica da mensagem decifrada
Em 1809, quando a correspondência foi criada, Marmont comandava aproximadamente 13 mil soldados na Dalmácia, região geograficamente isolada das principais forças francesas pela presença de exércitos austríacos. Qualquer interceptação da mensagem por adversários poderia comprometer as posições militares, os planos de deslocamento de tropas e os efetivos disponíveis.
Napoleão compreendeu essa urgência em 16 de março daquele ano, quando instruiu seu enteado Eugène de Beauharnais, vice-rei da Itália, a enviar informações codificadas a Marmont detalhando como os exércitos franceses estavam distribuídos geograficamente. A cifra foi a solução escolhida para proteger esses dados sensíveis durante o transporte entre as regiões.
O processo de decifração passo a passo
O trabalho de reconstrução começou com a transformação dos sinais desenhados no documento em uma sequência que o modelo de IA pudesse analisar. Church identificou os símbolos na imagem histórica, organizou-os na ordem em que apareciam no texto e estabeleceu correspondências entre as marcas. Assim, criou uma base de dados para o sistema processar.
Informações conhecidas por pesquisadores de criptografia também auxiliaram no processo. Uma tabela com possíveis correspondências para 33 valores da cifra ajudou a interpretar parte significativa do conteúdo. A inteligência artificial também identificou sinais que representavam palavras completas, como "de", "que", "les", "vous" e "général", permitindo que as possibilidades fossem comparadas e testadas até produzir frases coerentes em francês.
A decifração corrigiu a cronologia anterior, apontando para o fim de março de 1809, e revelou a continuação de uma frase conhecida das instruções de Napoleão a Marmont. Os pesquisadores fazem uma ressalva: é possível que Eugène tenha resumido ou alterado parte das ordens originais ao repassá-las, de modo que o texto decifrado não corresponda exatamente, palavra por palavra, às instruções que Napoleão enviou.


