Pesquisadores da Universidade de Sydney mapearam 2 mil tipos de solo marciano e identificaram onde futuras missões espaciais teriam melhores chances de cultivar alimentos. O trabalho traz a primeira classificação sistemática, nessa escala, dos solos do planeta vermelho.
A descoberta responde a uma pergunta antiga: se humanos chegarem a Marte, conseguirão fazer crescer plantas no solo local? Diferentemente do filme "O Marciano", em que um astronauta cultiva batatas em qualquer solo marciano, a realidade é mais complexa. O planeta não tem um único tipo de solo: alguns são mais adequados que outros para o cultivo.
Um sistema de classificação sem precedentes
Daniel Irving, estudante de doutorado no Instituto de Agricultura da Universidade de Sydney, e o professor Alex McBratney criaram um sistema que organiza os solos marcianos em categorias. A equipe analisou quase 800 milhões de locais no planeta, combinando observações de naves espaciais em órbita com modelos computacionais.
Cada classe de solo foi definida por múltiplas propriedades simultaneamente: textura, minerais presentes, pH e espessura da camada de solo. O sistema agrupa as categorias menores, chamadas de "formas", em 100 grupos maiores e depois em 10 regiões gerais. O mapa resultante cobre 92% da superfície marciana.
A equipe também propôs um nome para essas classes: "areths", derivado de Ares, o deus grego da guerra.
O solo ideal para plantas
Os pesquisadores testaram cada classe de solo usando cinco critérios para o cultivo: capacidade de reter água, pH, espessura, quantidade de argila e quantidade de cascalho. O solo chamado Nohibareth teve a melhor pontuação: 0,93 em uma escala de zero a um.
Esse solo ideal tem pH de 6,8, próximo do neutro. É composto por 72% de argila, com pouca areia ou cascalho, e consegue reter cerca de 202 milímetros de água por metro de profundidade.
Nohibareth é encontrado principalmente nas latitudes médias de Marte, especialmente ao redor de Tharsis (região com grandes vulcões), na parte central de Arabia Terra e em Elysium Planitia. Apesar da boa pontuação, esse solo cobre apenas 0,14% da superfície marciana.
Os desafios para o cultivo marciano
Alguns fatores ainda não foram incluídos no mapa. A quantidade de nitrogênio disponível para as plantas, a mudança do solo com a profundidade e a toxicidade do perclorato — um composto químico encontrado pela sonda Phoenix da NASA — não foram incluídas na classificação.
Muitos dados foram inferidos a partir de observações orbitais e do comportamento de solos terrestres, então a classificação precisará ser revisada conforme novas medições diretas forem coletadas.
A retenção de água foi o ponto fraco em 73% dos tipos de solo mapeados. Na maioria das formas de solo, a incapacidade de manter a umidade foi um problema maior que qualquer outra característica testada. Em grande parte de Marte, portanto, a falta de umidade impediria o crescimento de plantas sem intervenção.
Os pesquisadores alertam que seus achados não significam que cultivos conseguiriam prosperar diretamente no solo marciano. Futuros habitats precisariam de ambientes controlados, nutrientes adicionais e tratamento para remover substâncias tóxicas.
Antes de qualquer plantio em Marte, cientistas poderiam criar misturas de solo que reproduzam as classes mapeadas e cultivar plantas nelas em espaços controlados, com nutrientes adicionados e água gerenciada. Esses testes comparativos poderiam verificar o desempenho das plantas, o consumo de água e qual tratamento cada mistura exigiria para ser segura.
Depois, medições de rovers e amostras coletadas de Marte poderiam confirmar se os solos com melhor pontuação realmente existem nos locais indicados pelo mapa. O estudo completo foi publicado na revista científica CATENA.



