Jejuar entre 8 e 12 horas antes da coleta de sangue é uma prática comum, mas uma análise de quase 10 milhões de resultados sugere que isso não é necessário para a maioria dos exames. O estudo, publicado na JAMA Internal Medicine, acompanhou mais de 100 mil pacientes e questiona uma regra seguida por brasileiros ao chegar a uma clínica.
A pesquisa, realizada em Seul, na Coreia, usou dados de um hospital universitário para avaliar 9.755.547 resultados de exames de 101.148 pessoas, em 372 tipos diferentes de testes. Os pesquisadores compararam resultados dos mesmos pacientes em momentos distintos, com períodos sem comer de menos de 8 horas, entre 8 e 12 horas e acima de 12 horas.
O objetivo era verificar se a alimentação recente alterava os resultados dos exames.
A maioria dos exames não depende de jejum
Hemogramas, testes de função renal, eletrólitos e grande parte das enzimas hepáticas apresentaram resultados praticamente idênticos, independentemente do tempo que o paciente havia ficado sem comer. A variação foi mínima do ponto de vista clínico e não mudaria uma decisão médica.
O jejum acima de 12 horas não trouxe vantagem adicional para nenhum dos testes analisados. Depois de 8 horas sem comer, estender esse período não aumentou a precisão. O resultado questiona a prática, ainda comum em muitos consultórios brasileiros, de pedir mais de 12 horas de jejum.
Os poucos exames que realmente exigem jejum
Entre os 121 tipos de análise de rotina, porém, alguns exames sensíveis ao alimento exigem jejum. Glicose, triglicerídeos, enzimas hepáticas e lipase — enzima do pâncreas que participa da digestão — apresentaram variações significativas quando o paciente havia comido pouco tempo antes.
Sem jejum de pelo menos 8 horas, a glicemia apresentava 10,8% de elevação, triglicerídeos subiam 20,1% e lipase chegava a 36,4% maior. A glicose ainda caía cerca de 4,3 mg/dL para cada hora adicional de abstinência. Entre 8 e 12 horas ou acima disso, porém, as diferenças desapareciam, e o resultado questiona a necessidade de jejum prolongado.
Por que essa regra durou décadas
A exigência de jejum nasceu de uma preocupação legítima: evitar que alimentos afetassem as medições e levassem a diagnósticos errados. Glicose e gordura no sangue realmente se alteram após refeições, então médicos começaram a padronizar 8 a 12 horas de abstinência como proteção.
O problema surgiu quando essa prática, criada especificamente para lipídios e glicose, se expandiu para praticamente todos os painéis de sangue, inclusive os que não eram afetados pelo alimento recente. Com o tempo, o protocolo virou rotina, e os pacientes passaram a seguir uma regra que só importava para poucos exames.
Os pesquisadores sugerem reavaliar os protocolos rígidos de jejum à luz das evidências atuais.




