Filosofia

Ortega y Gasset: "Renovar-se é viver; quem não muda transforma certezas em sua própria prisão"

Evoluir implica questionar as velhas convicções.

Pensar de forma rígida é a melhor maneira de criar uma armadilha mental e ficar preso às próprias ideias. O filósofo espanhol José Ortega y Gasset dedicou sua obra a essa ideia: mudar de posição diante de novos argumentos não é fraqueza, mas lucidez.

Sua máxima mais conhecida resume essa visão: renovar-se é viver, e quem se recusa a revisar o que pensa acaba transformando as próprias certezas em prisão. Para Ortega y Gasset, evoluir não significava abandonar tudo o que se aprendeu nem agir por impulso.

Isso implicava questionar as velhas convicções quando a realidade deixava claro que já não funcionavam. Nessa perspectiva, revisar posições antigas era um sinal de maturidade. Não instabilidade — quem ousava olhar de novo para o que julgava imutável escapava do risco de ficar preso numa versão desatualizada de si mesmo.

Convicção firme não é o mesmo que teimosia

Um dos pontos centrais do pensamento de Ortega y Gasset era distinguir dois comportamentos que costumam se confundir. Manter uma ideia forte não exige fechar a porta para o aprendizado: uma convicção autêntica pode se ajustar, ganhar nuances e até mudar de rumo sem perder sua força original.

A teimosia, porém, funciona de outra forma: transforma toda dúvida em ameaça e qualquer mudança em derrota pessoal.

É justamente nesse ponto que as certezas deixam de ser um guia útil e viram uma armadilha silenciosa. Ortega y Gasset observava que retificar uma opinião quando argumentos novos surgem é ato de maturidade, nunca de fraqueza. Quem se recusa a mudar por medo de parecer inconsequente acaba preso dentro de suas próprias crenças, incapaz de crescer.

Viver em diálogo com o mundo ao redor

O filósofo defendia que ninguém existe isolado do contexto que o rodeia. Cada pessoa vive em relação contínua com as circunstâncias de seu tempo. Quando elas se transformam, repensar a própria posição deixa de ser uma escolha. Repetir uma convicção só porque funcionou no passado pode se converter numa forma de estagnação difícil de reconhecer de dentro.

Manter uma opinião por hábito, sem confrontá-la com os fatos atuais, era o oposto da atitude madura que Ortega y Gasset propunha. O filósofo vivenciou transformações profundas em seu tempo e buscou articular uma filosofia capaz de responder a elas.

Sua reflexão sobre a renovação como condição da vida permanece relevante porque descreve uma tensão que segue sendo universal: o desejo de segurança disputando espaço com a necessidade de evolução.

O conforto da imobilidade versus o risco do crescimento

Mudar de perspectiva raramente é confortável, e exige deixar o que se conhece para entrar em território incerto. Esse movimento diferencia a fidelidade às próprias ideias do medo de abandoná-las quando já não fazem sentido.

A frase de Ortega y Gasset sobre a renovação expressa essa verdade com precisão: quem se recusa a rever suas convicções acaba confundindo estabilidade com morte em vida.

O legado do filósofo convida a uma reflexão contínua: defender uma ideia porque ela ainda faz sentido é diferente de preservá-la por medo de admitir um erro. Essa diferença separa quem pensa de quem apenas conserva pensamentos desatualizados como relíquias intocáveis.

Tamanho impressionante

NASA identifica na Antártida um buraco no gelo com área equivalente à de Santa Catarina

A abertura ainda ficou pouco abaixo da área total de Santa Catarina

12/10/2026 07h13

Foto: Zelch Csaba/Pexels

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A NASA registrou, a partir do espaço, uma abertura no gelo marinho da Antártida oriental, formada durante o inverno austral na baía de Breid, quando essa área costuma ficar congelada.

Um estudo publicado na revista Geophysical Research Letters, conduzido por equipe liderada pelo cientista Jeebanjyoti Swain, reconstituiu os fatores que impediram a formação normal do gelo naquele trecho. Para se ter noção de seu tamanho impressionante, a abertura, batizada de polinia, ocupou 89.121 km² no auge do fenômeno — um tamanho próximo ao do estado de Santa Catarina, que tem cerca de 95.736 km² segundo o IBGE.

A abertura ficou pouco abaixo da área total de Santa Catarina.

Como surgiu o buraco gigante

Satélites captaram a anomalia no fim do verão de 2024, depois que a superfície da baía apresentou um comportamento nunca antes observado pelos pesquisadores para aquela época do ano. Entre julho e agosto, seis rios atmosféricos intensos transportaram ar quente e grandes quantidades de umidade de latitudes mais baixas, enquanto ventos persistentes empurravam o gelo marinho em direção ao polo.

Essa combinação aumentou a radiação de onda longa na superfície e favoreceu a ocorrência de neve relativamente morna, o que reduziu as condições para que o oceano voltasse a congelar.

Ao mesmo tempo, o vento alterou a dinâmica oceânica pelo processo chamado sucção de Ekman, deslocando grandes volumes de água. E permitindo que águas profundas circumpolares, mais quentes do que as que normalmente chegam à superfície, subissem para as camadas superiores.

Ondas de calor marinho persistentes prolongaram esse aquecimento e dificultaram ainda mais o crescimento do gelo ao redor da baía de Breid. O resultado foi uma brecha visível desde o espaço, grande o bastante para ser comparada ao território de um país inteiro ou ao de um estado brasileiro de porte médio.

Por que o fenômeno chama atenção

Polinias como essa expõem águas que deveriam estar protegidas por uma camada espessa de gelo e alteram a troca de calor entre o oceano e a atmosfera na Antártida. Quando o gelo marinho não se forma no período esperado, o equilíbrio térmico daquele trecho do planeta se altera, o que pode ser percebido por satélite.

O desaparecimento temporário do gelo marinho também afeta os ecossistemas antárticos, cujas redes alimentares dependem do retorno sazonal do gelo.

O episódio de 2024 chamou atenção pela escala: poucas vezes os pesquisadores haviam observado uma abertura dessa magnitude. A Antártida oriental, historicamente mais estável que outras partes do continente gelado, não costuma apresentar esse tipo de ruptura no padrão de congelamento.

Os dados reunidos pela equipe de Jeebanjyoti Swain ajudam a entender como ventos, correntes oceânicas. E calor se combinaram naquele inverno específico para abrir uma abertura do tamanho de Santa Catarina em pleno gelo antártico.

Reflexão

Filósofa alemã faz alerta sobre o maior mal da humanidade: "Pessoas que se recusam a ser pessoas"

Quem renuncia ao exercício da reflexão se nega a ser pessoa.

11/10/2026 17h32

Foto: Reprodução

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A filósofa política Hannah Arendt deixou uma reflexão ética que permanece urgente: o maior mal não nasce de mentes sadias que buscam deliberadamente a crueldade. Nasce de pessoas que abandonam voluntariamente a capacidade de pensar e agir como seres conscientes. Sua advertência é direta: quem renuncia ao exercício da reflexão se nega a ser pessoa.

Arendt distinguia nascer como ser biológico de construir ativamente o status de pessoa, uma qualidade que exige pensamento crítico constante e postura ética firme perante a comunidade. Quando alguém abdica dessa capacidade de reflexão, perde os critérios básicos para distinguir o bem do mal no cotidiano.

O diálogo silencioso que protege a humanidade

O diálogo interior funciona como uma barreira contra atos cruéis: quem pensa de verdade sabe que teria de conviver diariamente com um criminoso dentro da própria mente. As lições de filosofia moral que Arendt desenvolveu em 1965 e 1966 e que foram publicadas depois em Responsabilidade e Julgamento enfatizam a urgência de reavivar essa conversa consigo mesmo.

Ao apagar o diálogo interior, o sujeito fica desorientado e perde os critérios para distinguir o certo do errado. Esse silêncio não é acidental: abre caminho para que a pessoa se dissolva nas engrenagens das normas institucionais e das rotinas automáticas e se transforme em peça intercambiável de um sistema.

A banalidade do mal nos burocratas anônimos

Arendt documentou essa desconexão moral em suas crônicas para The New Yorker, ao cobrir em Jerusalém o julgamento do funcionário nazista Adolf Eichmann, em 1961.

Suas observações deram origem ao livro Eichmann em Jerusalém e revelaram uma verdade incômoda: os maiores horrores do século XX não dependeram apenas de sádicos ou monstros intelectuais. Mas da colaboração submissa e irreflexiva de burocratas comuns.

O anonimato que ela descrevia não significava falta de notoriedade ou de posição social. Significava despir-se da própria identidade para se tornar uma função. Nessa posição, as ações deixam de responder a critérios morais pessoais e passam a obedecer apenas a ordens e diretivas externas.

Eichmann se apresentava como alguém que simplesmente cumpria suas obrigações, sem questionar. Arendt não usou o termo "banalidade" para minimizar os crimes, mas para destacar que a maldade não precisa de genialidade — precisa apenas de ausência de pensamento.

A Responsabilidade de manter-se pessoa

Pensar por si mesmo não é um luxo intelectual, mas a primeira linha de defesa para proteger a própria humanidade. A filosofia de Arendt nos confronta com uma verdade desconfortável: é possível estar vivo e respirando, ocupar um cargo. E estar inserido numa comunidade e, ao mesmo tempo, ter renunciado ao que nos torna verdadeiramente pessoas.

O maior mal não é sempre fruto de intenção deliberada de destruir. Muitas vezes emerge do silêncio de quem escolhe não pensar, não questionar, não resistir — e, ao fazer essa escolha, se recusa a ser pessoa.

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