A combinação de inteligência artificial, edição genética e biologia sintética cria novas ameaças à segurança global, e cientistas alertam que o mundo não está preparado. O risco já não se limita a infecções imediatas: inclui danos que podem surgir muito tempo depois da exposição, alterar genes, causar câncer, problemas reprodutivos ou anomalias no desenvolvimento do feto.
Essa preocupação tem antecedentes, e durante a Guerra do Vietnã, militares usaram Agente Laranja contaminado com TCDD, uma dioxina carcinogênica ligada a defeitos congênitos.
Décadas depois, o regime de Saddam Hussein admitiu à ONU que o Iraque havia desenvolvido aflatoxinas para incorporá-las em bombas aéreas e ogivas de mísseis. O episódio mostrou que armas biológicas desenhadas com efeitos genéticos já eram realidade havia tempo.
O perigo cresce com a tecnologia acessível
A inquietação aumentou à medida que as ferramentas de edição genética ficaram mais acessíveis e a IA ganhou capacidade de processar grandes volumes de dados biológicos. Em 2016, o diretor de Inteligência Nacional dos EUA citou edição genética entre as tecnologias relacionadas a armas de destruição em massa.
Um ano depois, um manual do Exército Popular de Libertação da China levantou a possibilidade de ataques direcionados contra características genéticas específicas. Transformar esse conhecimento em um ataque funcional, porém, continua complexo. Especialistas reconhecem que reduzir barreiras técnicas não basta: tornar uma arma dessa natureza eficaz é outra tarefa.
Dispersão permanece como o obstáculo maior
Um relatório de 2018 elaborado por cientistas e especialistas americanos sobre biologia sintética identificou o principal obstáculo: fazer um agente alcançar uma população ampla. Mesmo que fosse tecnicamente possível usar genes para provocar doenças, os métodos conhecidos para espalhá-los apresentam rendimento limitado e baixa probabilidade de atingir o alvo pretendido.
Um ataque desse tipo também geraria um desafio imediato de identificação. Equipes científicas precisariam determinar qual agente foi utilizado, estudar seus efeitos e decidir como contê-lo enquanto sistemas de saúde cuidam dos afetados. Se surgirem consequências tardias, a resposta pode se estender durante anos, com acompanhamento semelhante ao dos efeitos prolongados de outras exposições que causam câncer ou problemas reprodutivos.
IA e biotecnologia reduzem as barreiras de entrada
O temor está na possibilidade de que a IA e a biotecnologia continuem removendo obstáculos para esse tipo de ataque. Um relatório publicado em 2025 pelo Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais aponta que as dificuldades para acessar capacidades de bioterrorismo podem diminuir significativamente.
E considera insuficientes as atuais medidas de defesa americanas diante de ameaças biológicas assistidas por inteligência artificial. A tecnologia ainda está longe de tornar esses cenários simples, mas especialistas defendem o reforço dos sistemas de prevenção e vigilância antes que essa distância continue diminuindo.


