Memória e responsabilidade

Vencedor do Nobel: "Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos"

Filosofia do vencedor do Nobel, José Saramago, fala sobre o entendimento da existência humana associada ao equilíbrio entre o que recordamos e nossas ações com essa lembrança

José Saramago resumiu sua filosofia nesta frase: "Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir." Extraída dos Cadernos de Lanzarote, a reflexão atravessa sua obra e mostra que o escritor português entendia a existência humana não apenas como o fato de estar vivo, mas como o equilíbrio entre o que recordamos e o que fazemos com essa lembrança.

Saramago conquistou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998 e se tornou o primeiro autor de língua portuguesa a receber o prêmio. Sua visão de mundo, expressa nessa citação, nasceu de uma trajetória marcada pela observação do cotidiano e pelo trabalho manual, distante das torres de marfim literárias.

Memória e responsabilidade: o alicerce de uma existência

No pensamento de Saramago, a memória é a base da identidade pessoal e coletiva. Ela guarda não apenas fatos individuais, mas também o vínculo de cada pessoa com a história, o lugar de origem e a percepção de quem é.

Perder a memória significa perder a continuidade da consciência e deixar de existir como alguém capaz de reconhecer a si mesmo.

A responsabilidade, por outro lado, diz respeito ao presente e ao futuro. Envolve as escolhas cotidianas, as atitudes e o compromisso ético que cada pessoa assume com a sociedade e o mundo. Para o autor, recordar não basta se a lembrança não se transforma em ação moral e consciente.

A responsabilidade transforma a memória em algo vivo e capaz de mudar a realidade, e sem ela, a existência perde propósito e dignidade.

 

Do trabalho manual à literatura reconhecida

Saramago nasceu em uma família humilde de camponeses em Portugal e não teve formação universitária formal. Antes de se consagrar como escritor, exerceu profissões que o colocaram em contato direto com o trabalho e a luta diária. Trabalhou como serralheiro mecânico, desenhista e funcionário público, e essas experiências moldaram sua visão crítica da sociedade.

Na vida adulta, ingressou na Estúdios Cor, importante editora lisboeta, onde dirigiu a produção e exerceu funções de gerenciamento. Ali, teve contato direto com o mercado editorial e a circulação de obras, além de compreender como o conhecimento e a informação circulam — ou deixam de circular — na sociedade.

Paralelamente, trabalhou como tradutor e jornalista e foi diretor-adjunto do jornal Diário de Notícias. Foi demitido após a reviravolta política de 1975, o que o levou a se dedicar integralmente à escrita.

A mensagem do Nobel e seu legado

A citação continua relevante porque trata de um dilema permanente da condição humana: somos frutos do que esquecemos ou recordamos, e nossas vidas adquirem sentido quando assumimos a responsabilidade pelas consequências de nossas ações e memórias no mundo.

O reconhecimento de Saramago como o primeiro autor de língua portuguesa a vencer o Prêmio Nobel de Literatura reflete uma vida dedicada a entender a literatura como ferramenta de transformação social, nascida da experiência vivida e do compromisso com a justiça.

Sem a tensão entre passado e presente, entre identidade e ação, a existência se reduz à permanência biológica e perde o que a torna digna de ser vivida.

Atemporal

Abraham Lincoln: "A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo"

Frase é muito usada em discursos sobre liderança e mudança

29/10/2026 09h55

Imagem: Alexander Gardner/Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos

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"A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo" é uma frase muito popularmente atribuída a Abraham Lincoln, embora muito se fale também que tenha sido dita inicialmente pelo físico e inventor húngaro-britânico Dennis Gabore, ainda sendo citada em discursos sobre liderança e mudança. O enunciado resume uma postura baseada em agir, não em esperar que as coisas aconteçam por conta própria. A fonte Citação do Dia menciona a frase, que atravessa gerações por dialogar com uma questão universal.

Lincoln foi o 16º presidente dos Estados Unidos e conduziu o país durante a Guerra Civil Americana, um dos períodos mais difíceis de sua história. Sua atuação foi decisiva para preservar a união nacional e avançar na abolição da escravidão. Com o tempo, Lincoln tornou-se uma referência global em liderança, governança e defesa da democracia.

Historiadores, cientistas políticos e especialistas em gestão pública continuam a estudar sua trajetória, marcada pela ideia de que liderar é enfrentar o presente para abrir caminho a um cenário diferente.

Por trás da frase, uma trajetória de enfrentamento

A gestão de Lincoln ficou associada à Proclamação de Emancipação, documento que acelerou o fim da escravidão no país. Foi um ato concreto, não uma intenção declarada — exatamente o tipo de iniciativa defendida pela Citação.

Naquele período, os Estados Unidos atravessavam divisões profundas, e para quem estava à frente do governo, esperar que elas se resolvessem sozinhas não era uma opção. A frase nasce desse contexto: diante de um país rachado, Lincoln apostou em decidir e agir, não em aguardar.

O que a mensagem propõe para quem lê hoje

Em vez de tratar o amanhã como algo fora de alcance, a Citação defende que pessoas, empresas e governos podem influenciar os próprios resultados. Agir, portanto, é preferível a esperar circunstâncias favoráveis, e em tempos de mudanças tecnológicas, desafios econômicos e transformações sociais, a mensagem continua presente em discursos sobre liderança, empreendedorismo e desenvolvimento pessoal.

Para Lincoln, mudanças de peso não brotam só do acaso — elas dependem de quem decide se mover primeiro. Essa leitura ajuda a explicar por que a frase continua repetida em contextos tão diferentes entre si, da política ao ambiente corporativo.

Um legado que atravessa gerações

O legado de Lincoln não se resume às decisões tomadas durante seu governo. Sua visão sobre responsabilidade e planejamento continua associada à ideia de enfrentar a incerteza com ação concreta, em vez de esperar por uma previsão.

A ideia de criar o próprio futuro, mais do que prevê-lo, resume o espírito da Citação: assumir a responsabilidade pelo rumo dos acontecimentos e decidir agir primeiro.

Sabedoria

A reflexão de Francis Bacon: "O homem sábio cria mais oportunidades do que encontra"

Iniciativa e discernimento são fundamentais em momentos decisivos, segundo ele

29/10/2026 09h28

Imagem: autor desconhecido/Wikimedia Commons

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Esperar o cenário ideal para agir separa a intenção da ação concreta. Uma citação atribuída ao filósofo inglês Francis Bacon resume esse dilema: o homem sábio cria mais oportunidades do que encontra. A ideia convida a pensar sobre iniciativa e discernimento diante de decisões importantes.

Quando alguém adia um passo decisivo até ter garantias totais, corre o risco de nunca dar esse passo. Francis Bacon viveu entre 1561 e 1626 e defendia que a inteligência deveria guiar também as escolhas práticas do cotidiano.

Para ele, uma pessoa sábia não fica refém apenas das circunstâncias favoráveis, mas trabalha para reconhecer brechas e construir novas condições a partir delas.

A frase e seu contexto nos Ensaios

O trecho integra o ensaio Of Ceremonies and Respects, dentro da coletânea Ensaios de Francis Bacon, em que o autor questiona o excesso de formalidades nas relações humanas. Segundo essa reflexão, a preocupação exagerada com o momento perfeito pode travar quem precisa agir.

Na versão dos Ensaios disponível no Project Gutenberg, a frase surge logo depois de uma referência a alguém que fica observando o vento e as nuvens antes de plantar. Essa cena ilustra bem o risco de travar uma ação necessária só porque nenhuma condição parece perfeita o bastante.

Quem planta precisa, sim, avaliar o terreno e o clima, mas não pode adiar indefinidamente à espera da ausência total de obstáculos. Vale o mesmo raciocínio para qualquer decisão: ponderar riscos é saudável, transformar essa ponderação em paralisia não.

Preparação versus adiamento excessivo

Buscar segurança antes de uma escolha importante é um impulso natural e compreensível. O problema aparece quando alguém acumula tantas exigências para começar que o projeto nunca sai do papel: quer dominar todo o conhecimento. Ter todos os recursos à mão e a certeza plena de que nada vai dar errado.

Essa diferença separa preparação de adiamento: a primeira abre portas, o segundo trava o uso do que já foi aprendido.

Quem pensa em mudar de carreira, por exemplo, pode acreditar que precisa primeiro dominar por completo a nova área antes de sequer buscar uma oportunidade. Reconhecer quando as condições já são suficientes para um primeiro passo — ainda que imperfeito — é justamente o que a reflexão de Bacon valoriza.

 

Encontrar versus criar oportunidades

Encontrar uma oportunidade é reconhecer uma circunstância favorável que já está posta — uma vaga, um convite, uma chance inesperada de aprender algo novo. Já criar uma oportunidade exige construir as condições para que algo aconteça, mesmo sem nenhuma alternativa pronta à disposição.

Essa distinção separa quem depende do acaso de quem constrói o próprio caminho. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, para Bacon, o conhecimento só se justifica quando gera impacto prático e melhora a condição humana. Sua filosofia valorizava observação atenta, investigação constante e aplicação prática daquilo que se aprende.

Esse raciocínio explica por que a frase perdura séculos: distingue quem aguarda o cenário perfeito de quem age com o que tem.

Como o reconhecimento de possibilidades funciona na prática

Criar oportunidades não é um ato mágico, mas resultado de observação atenta. Segundo Bacon, uma pessoa sábia identifica brechas e recursos disponíveis no ambiente — conhecimentos e contatos que já possui, além de pequenas possibilidades que passam despercebidas.

Em vez de esperar que tudo se alinhe perfeitamente, ela percebe que muitos elementos já estão presentes e podem ser combinados de formas novas.

Essa observação constante funciona como o primeiro motor para a ação. Quando alguém começa a reconhecer o que já existe ao seu redor. Deixa de ser refém das circunstâncias e passa a ser protagonista: a partir do que vê, pode desenhar um primeiro passo concreto, mesmo que pequeno e imperfeito.

Mas não é irresponsável agir sem ter tudo planejado?

Não, e bacon distingue entre preparação saudável e adiamento excessivo. Avaliar riscos e reunir informações antes de começar é prudência e ajuda a criar oportunidades com discernimento. O problema é quando essa avaliação nunca termina, quando a pessoa exige certeza absoluta e conhecimento completo antes de dar qualquer passo.

A diferença está em reconhecer quando as condições já são suficientes para um início imperfeito, não em pular para a ação sem nenhuma reflexão.

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