Cidades

Caso Sophia

Mãe e padrasto de Sophia serão julgados na próxima semana; relembre o caso

Stephanie de Jesus da Silva e Christian Campoçano Leitheim, apontados como responsáveis pela morte da menina, passarão por Júri Popular nos dias 4 e 5 de dezembro

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Nesta quarta e quinta-feira, dias 4 e 5 de dezembro, acontece o julgamento de Stephanie de Jesus da Silva (26) e Christian Campoçano Leitheim (27), mãe e padrasto de Sophia de Jesus Ocampo, réus pela morte da menina em janeiro de 2023.

A expectativa é de que, no primeiro dia de julgamento, sejam ouvidas doze testemunhas de acusação e defesa, dentre elas médicos legistas e policiais que investigaram o caso. Também é esperado que os réus sejam interrogados, mesmo que o juri precise acabar tarde da noite.

Já no segundo dia, a acusação e os advogados de Cristian Campoçano e Stephanie de Jesus devem apresentar suas versões. 

Sophia tinha apenas aos 2 anos e 7 meses de idade quando foi morta. A responsabilização da mãe e do padrasto pela morte da menina, se deve ao fato de que o laudo necroscópico do Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol) concluiu que ela morreu devido a um traumatismo na coluna, causado por agressão física. Além das diversas lesões no corpo, a criança apresentava, ainda, sinais de estupro.

Posteriormente, investigações concluíram que as agressões faziam parte da "rotina" da casa da família, e que eram, inclusive, relatadas via aplicativos de mensagem.

Além disso, o pai da menina já havia tentado a guarda e acionado o conselho tutelar diversas vezes, mas o caso foi negligenciado pelas autoridades que deveriam proteger as crianças.

O caso, que aconteceu em Campo Grande, chocou todo o Mato Grosso do Sul, e repercutiu a nível nacional. Agora, quase dois anos após o crime, os apontados como responsáveis pela morte da menina finalmente serão julgados, e o caso será concluído.

Stephanie de Jesus da Silva responde por homicídio doloso e omissão por motivo fútil, meio cruel, contra menor de 14 anos e está sendo assistida pela Defensoria Pública. Christian Campoçano Leitheim foi denunciado pela promotoria de justiça por homicídio triplamente qualificado por motivo fútil, meio cruel e contra menor de 14 anos, e estupro de vulnerável.

Desde o dia em que a morte de Sophia veio à tona, o Correio do Estado tem acompanhado o caso. A seguir, relembre os desdobramentos e confira alguns dos acontecimentos destes últimos 23 meses.

Últimas horas de Sophia

Em fevereiro de 2024, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul fez um relatório sobre as últimas horas de vida da criança, baseado em mensagens encontradas no celular do padrasto, Christian Campoçano.

O documento foi apresentado pela promotora Ana Lara Camargo de Castro, e incluído nos autos do processo judicial.

25 de janeiro - 14h30

Christian envia mensagem para Stephanie dizendo que estava irritado porque a internet da residência estava lenta e por isso não conseguia se conectar aos jogos onlines.  

Neste momento, o réu relatou que Sophia estaria chorando,dizendo à mulher que a menina estaria “endemoniada”, e que por isso havia mandado a criança se deitar. Ainda conforme relatado nas mensagens, Sophia não obedeceu, e por isso ele teria a agredido. Segundo a promotora, foi nesse momento que a vítima sofreu as agressões que a levaram a óbito.  

Ana Lara Camargo afirma que “tal conclusão se dá” porque algumas horas depois de relatar que estaria irritado, o réu enviou mensagens por volta das 18h, relatando que Sophia apresentava febre e quadro de vômito.

25 de janeiro - 18h

Após a mensagem relatando que Sophia estaria com febre e vomitando, Christian contou que ministrou soro e dois tipos de medicamentos, além de ter dado um pano para a criança não se sujasse, já que ela havia vomitado diversas vezes.   

“Sophia foi agredida com tapas e “quebra-costela”, como forma de punir a vítima, agressões que eram seguidas de sufocamento como forma de interromper o choro da criança, cujo pranto era silenciado pela ânsia de respirar enquanto tinha seu rosto pressionado contra um colchão”, diz o relatório.

O documento relata as falas de Christian ao ver Sophia passando mal. 

“Dá uns tapão nela, aí você vira a cara dela pro colchão e fica segurando porque aí ela para de chorar. É sério. Parece até tortura mais [sic] não é, porque aí ela fica sem ar para chorar e para de chorar. Entendeu?”, orienta o réu acusado, conforme relata o relatório. 

26 de janeiro - 0h

Stephanie e um amigo, saem em busca de remédios. Ela retorna algumas horas depois, e Christian vai dormir por volta das 5h.  

26 de janeiro - 16h: 

O acusado relatou que teve conhecimento geral sobre o estado de Sophia somente nesse horário, quando foi acordado por Stephanie dizendo que a filha estava com a boca roxa e convulsionando.  

26 de janeiro - 18h

Christian, após o conhecimento de que a vítima estaria passando mal, liga para a própria mãe dizendo que Sophia estava convulsionada e não conseguia respirar e que a menina seria levada para o Pronto Socorro.  

Chegada à Unidade de Pronto Atendimento

Quando chegou à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Coronel Antonino, em Campo Grande, Sophia já estava morta a pelo menos 7 horas.

As enfermeiras que realizaram os primeiros atendimentos constataram que a menina já apresentava rigidez cadavérica quando chegou à unidade. Posteriormente, a perícia constatou que o corpo estava sem vida a 7 horas.

O laudo necroscópico do Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol) indicou que Sophia morreu por um traumatismo na coluna causado por agressão física. Além das diversas lesões no corpo, a criança apresentava, ainda, sinais de estupro.

Mensagens trocadas entre a mãe de Sophia e o padrasto, no momento em que a mulher estava na UPA, indicam que a dupla já sabia que a menina estava morta.

“Eu não tenho condições de cuidar de filhos. [...] Eu te avisei que sua vida ia ficar pior comigo, mas você não acreditou”, disse Christian Leitheim à mãe de Sophia. 

Na mesma conversa, o homem ainda ameaça tirar a própria vida após Stephanie o informar que Sophia está morta.

“Tô saindo. Não vou levar o celular e nem identidade para, quando me acharem, demorar para reconhecer ainda. Desculpa, Stephanie, vou sair da sua vida”, disse o padrasto em uma das mensagens.

Ainda de acordo com o documento a que o Correio do Estado teve acesso, logo após dar a notícia da morte da criança, Stephanie conta que exames constataram que Sophia tinha sido estuprada. Esse fato foi relatado pela mãe à polícia quando prestou os primeiros esclarecimentos e confirmado por meio de laudo necroscópico.

“Disseram que ela foi estuprada”, disse Stephanie, ao que Christian respondeu: “Nunca. Isso é porque não sabem o que aconteceu com ela e querem culpar alguém. Sei que você não vai acreditar em mim”. 

O padrasto completou: “Se você achar que é verdade, pode me mandar preso, pode fazer o que quiser”

Durante o diálogo, ele ainda dá a entender que não teria sido a primeira vez que Sophia havia sofrido algum tipo de agressão grave, já que ele disse para a mãe “inventar qualquer coisa” que justificasse os hematomas.

“Fala que se machucou no escorregador do parquinho, igual da outra vez”, sugeriu. 

Em dois anos e sete meses de vida, Sophia já havia passado por pelo menos 30 atendimentos nas unidades de saúde.

Audiências

primeira audiência de instrução - um ato processual que serve, principalmente, para colher todas as provas das partes e depoimentos das testemunhas - do "Caso Sophia" foi realizada no dia 17 de abril.

Foram ouvidas seis testemunhas: o pai biológico da vítima, um investigador de Polícia Judiciária, pai e mãe de Stephanie, e uma ex-namorada de Christian.

Avô e avó maternos de Sophia, pais de Stephanie de Jesus da Silva, foram os primeiros a serem ouvidos.

Rogério Silva relatou o choque de ver a neta no velório, e afirmou que, ao passar a mão no rosto da criança, era possível sentir que os ossos de sua face estavam quebrados.

"Eles desfiguraram ela. Eu senti os farelos dos ossos no crânio e no maxilar, entre a testa e o nariz. A gente colocava a mão e afundava, não tinha osso", disse, emotivo.

Silva explicou que não era muito próximo de sua filha, já que se divorciou da mãe de Stephanie há 21 anos. Segundo ele, a filha sempre reclamou da ausência dos pais. Apesar de não haver tanta proximidade, o homem afirmou já ter visto hematomas na criança, mas nunca imaginou que Sophia era espancada. 

O avô da vítima ainda acrescentou que ele e a avó da menina tinham medo da Sophia ser estuprada, porque desde que Stephanie havia passado a morar com Christian, a casa "vivia cheia de homens".

A mãe de Stephanie, Delziene da Silva de Jesus, relatou que a filha se afastou depois de ter conhecido Christian, e que chegou a proibi-la de entrar na residência do casal.

"Depois que ela conheceu o Christian mudou por completo. Ela se afastou de mim porque não gostava que eu interferia, ela me proibiu de entrar na casa dela".

Por conta do contato reduzido, Delzirene afirmou não ter conseguido notar os sinais de violência, e só constatou as agressões quando viu o laudo médico. 

Stephanie procurou pela mãe no dia em que Sophia morreu.

"Eu fui recebendo mensagens de que a Sophia estava passando mal, e recebi uma foto da menina dormindo. Sthephanie informou que iria esperar para levar a menina para o UPA", afirmou a testemunha.

Chegando à Unidade, Stephanie ligou para sua mãe para informar que Sophia estava morta. Delzirene acredita que Stephanie foi conivente com a violência sofrida pela criança.

"Por conta das mensagens que ela foi me mandando durante o dia, por conta da enfermeira relatar que Sophia estava há mais de quatro horas morta, não tinha como ela não saber que ela estava morta", disse. "Nas mensagens ela estava com a voz apavorada, de uma forma diferenciada. Ela estava chorando quando me mandou um áudio falando que a Sophia tinha morrido", concluiu Delziene.

Além dos avós, foram ouvidos o pai biológico de Sophia, um investigador e a ex-namorada de Cristian, que já tem medida protetiva contra ele por violência doméstica.

Andressa Fernandes, a ex-namorada, foi ouvida como informante. Ela teve um casamento de dois anos com Christian, com quem tem um filho. No depoimento, afirmou que Christian sempre bateu nela e no filho do casal

Em uma ocasião, Andressa foi chamada para limpar a casa em que Sophia morava com Stephanie e Christian, e relatou que o ambiente era extremamente sujo. A testemunha ainda confirmou que os tutores eram agressivos com a criança.

"Eu sei dizer que as poucas coisas que eu presenciei foi que eles eram agressivos com a Sophia".

Nesse dia, a mulher afirmou não ter dito nada a ninguém por medo de que Christian agredisse o filho.

A segunda audiência precisou ser suspensa após uma confusão generalizada entre os advogados de defesa de Christian Leitheim, padrasto de Sophia e o juiz da 1ª Vara do Tribunal do Júri, Carlos Alberto Garcete. 

Antes da suspensão, cinco testemunhas tiveram tempo de ser ouvidas. A primeira foi a vizinha do casal, que relatou que os dois agrediam os cachorros, e que as crianças choravam muito.

Ela confirmou ainda que a casa era suja e mantida em péssimas condições. Além disso, afirmou que não reparava se a casa costumava receber muitas pessoas de fora, mas que seu pai, que frequenta um bar nos arredores, já havia comentado sobre a movimentação na residência.

"Meu pai disse que às vezes eles amanheciam, e entravam muitos homens na casa", afirmou.

No dia da morte de Sophia, Elisângela viu o momento em que Stephanie saiu com a menina para a Unidade de Pronto Atendimento, e disse durante a audiência que havia pensado que Sophia estava "desfalecida" no colo da mãe.

A segunda testemunha, Lauricéia Amaral de Carvalho, atua como agente de saúde na região em que Sophia morava com a mãe. Durante o depoimento, afirmou que quando esteve na casa não conseguiu notar se as crianças eram agredidas, já que apenas uma filha de Christian com Stephanie estava no local.

"Eu passei dia 11 de janeiro, era uma área nova. O Christian estava em casa, fiz o cadastro, mas ele não encontrou as carteirinhas de vacinação. Apenas a filha dos dois estava em casa", afirmou.

Outro vizinho do casal, Ronaldo Correa, afirmou que morou ao lado da família por cinco meses, mas que não se recorda de brigas entre o casal. Além disso, pontuou que "de vez em quando" havia festa na residência.

Testemunhas de defesa

A quarta testemunha a depôr na segunda audiência foi uma colega de trabalho da mãe de Sophia, chamada Micauani Amorim, gerente da loja onde Stephanie trabalhava. Ela disse que a mulher costumava faltar, alegando que levaria a menina no posto de saúde. Inclusive, essa foi a justificativa apresentada quando faltou no dia da morte da Sophia.

"Antes da morte da Sophia, a Stephanie era tranquila e parecia uma pessoa sem problemas. Antes dela começar a faltar era a melhor vendedora da loja", afirmou.

Micauani explicou que mantinha apenas relações profissionais com Stephanie, mas que já havia presenciado agressões à Sophia em uma ocasião.

A última testemunha foi a melhor amiga de Stephanie, e madrinha de Sophia. Ela afirmou que antes da mulher conhecer Chritian ela era outras pessoa. Contou ainda que sempre foi próxima da mãe da vítima, principalmente quando ela ainda morava no Jardim Columbia. Na época em que o casal morava no local, a testemunha afirma nunca ter visto Christian maltratando a menina.

"Depois de mudar de casa ela se afastou, e era difícil até de conversar com ela pelo celular", comentou.

A testemunha acrescenta ainda que achava que Stephanie não estava muito feliz, e que o casal chegou a se separar. Quando reataram, a mãe de Sophia teria se afastado mais ainda.

Depois que a família se mudou para a Vila Nasser, a amiga fez apenas duas visitas, e afirmou que da última notou que Sophia estava quieta e "diferente de como ela era antes".

Ao ser questionada sobre a possibilidade de Stephanie ter matado Sophia, a amiga respondeu que a mulher era sim capaz de agredir a filha, mas não de matar. Ela concordou que Stephanie foi omissa.

"Ela deveria ter pedido ajuda".

A amiga revelou que na maior parte do tempo, enquanto Stephanie trabalhava, Sophia ficava com Christian. Por isso, ela acredita que o padrasto pode sim ter matado e abusado da criança, mas não descarta a possibilidade de que outra pessoa possa ter cometido os crimes, já que "homens viviam entrando e saindo da casa".

No final de seu depoimento, a testemunha ainda mencionou que poucos dias antes de morrer Sophia estava triste, porque não queria ficar na casa da mãe, mas sim voltar para a casa de sua avó paterna.

Júri Popular

O Tribunal do Júri, que definirá as penas de Stephanie e Christian, é um mecanismo democrático que permite a participação de cidadãos comuns no julgamento de crimes de interesse social.

O júri é composto por um juiz presidente e vinte e cinco jurados, dos quais sete serão sorteados para compor o conselho de sentença e que terão o encargo de afirmar ou negar a existência do fato criminoso atribuído à pessoa.

Assim, é o cidadão, sob juramento, quem decide sobre o crime. Essa decisão do jurado é de acordo com a sua consciência e não segundo a lei. Aliás, esse é o juramento, de examinar a causa com imparcialidade e de decidir segundo sua consciência e justiça.

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SEGURANÇA

Traficantes intensificam vinda de insumos para produção de cocaína na fronteira

Em cerca de 15 dias, mais de 62 toneladas de produtos químicos foram bloqueadas em Mato Grosso do Sul e na Argentina

04/04/2026 08h40

Polícia boliviana apreendeu em março deste ano 20 tambores carregados com acetato de etila que estavam em um caminhão

Polícia boliviana apreendeu em março deste ano 20 tambores carregados com acetato de etila que estavam em um caminhão Divulgação/Felcc

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O transporte de produtos químicos para a Bolívia, como carbonato de cálcio, acetato de etila, soda cáustica, bissulfito de sódio e carvão ativo, que podem ser utilizados em algum processo de produção da cocaína, teve uma aparente intensificação entre março e o começo deste mês.

Em regiões fronteiriças, incluindo Corumbá, houve diferentes fiscalizações, com a identificação de tentativa de levar essas mercadorias para território boliviano sem a devida documentação, driblando a fiscalização.

Polícia boliviana apreendeu em março deste ano 20 tambores carregados com acetato de etila que estavam em um caminhãoFoto: Divulgação/Felcc

Na região entre Corumbá e Puerto Quijarro, a Polícia Federal e a Receita Federal apreenderam 27 toneladas de carbonato de cálcio que estavam com documentação irregular.

A principal suspeita das autoridades é de que a mercadoria seria entregue na Bolívia e poderia ser usada na produção de cocaína. Essa substância também está presente no uso de indústrias dos setores de construção civil, papel, tintas, plásticos, cosméticos e fármacos, mas é regulada por órgãos fiscalizadores.

Outra área de fronteira que registrou o transporte de químicos usados na produção de cocaína foi entre a Argentina e a Bolívia, porém, as 35 toneladas de acetato de etila (em 191 tambores) tinham sido despachadas do Uruguai, na cidade de Fray Bentos, e chegaram até Salta (Argentina), próxima do território boliviano.

A situação que levou à apreensão foi semelhante ao que ocorreu no Brasil: documentação irregular, empresas sem o devido registro e sem habilitação para esse tipo de transporte.

A apreensão brasileira ocorreu na quarta-feira, enquanto o caso que envolveu Uruguai, Argentina e Bolívia ocorreu no dia 18 de março.

No caso da interceptação da Polícia Federal e da Receita Federal, não foi divulgado qual era o destino da mercadoria. Já na outra ocorrência, o caminhão pretendia chegar a Cochabamba, onde há plantação de coca.

Além desses dois casos, no dia 12 de março, a Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (Felcc) realizou uma operação na rodovia que liga Cochabamba a Santa Cruz e conseguiu interceptar um caminhão carregado com 20 tambores de acetato de etila, 40 bolsas de soda cáustica, 40 bolsas de bissulfito de sódio e 10 bolsas de carvão ativado.

O veículo não estava com documentação da mercadoria e foi conduzido para a Fiscalía de Sustancias Controladas, da Bolívia, para averiguação.

De acordo com as autoridades brasileiras, para realizar um combate efetivo a esse tipo de ocorrência que vai se relacionar com o tráfico de drogas é necessário ações conjuntas.

“A apreensão [no Brasil] representa mais um resultado do trabalho conjunto de inteligência realizado pela Polícia Federal e pela Receita Federal na região de fronteira, com foco na repressão ao desvio de insumos químicos e ao tráfico internacional de drogas. As circunstâncias da ocorrência seguem sob análise pelos órgãos competentes”, informou nota conjunta das instituições.

Na Bolívia, o diretor-geral da Felcc, coronel Franz William Cabrera Quispe, divulgou que está sendo desenvolvida uma estratégia de coordenação interinstitucional para combater o tráfico internacional de drogas.

Na quarta-feira, ele participou da segunda sessão do Comitê de Luta contra o Narcotráfico na Assembleia Legislativa Plurinacional.

“Foram analisadas estratégias conjuntas para enfrentar o narcotráfico, fortalecendo a coordenação interinstitucional e consolidando ações efetivas para benefício da segurança do cidadão. Em março, fortalecemos a infraestrutura de apoio da Felcn para trabalho nos departamentos de Sucre e Santa Cruz.

Tivemos a proposta de modificação da Lei nº 913, que orienta a incorporação de novas substâncias controladas”, informou Quispe, via rede social.

“A Felcn reafirma sua liderança e compromisso com a transparência, a cooperação institucional e a proteção da sociedade boliviana diante do flagelo que as drogas trazem”, completou.

A situação de transporte internacional de substância controlada desde o Uruguai até quase a fronteira da Argentina com a Bolívia é outra ocorrência que pode sinalizar uma nova rota utilizada por traficantes para obter produtos químicos para a produção de cocaína.

O analista uruguaio Edward Holfman, que é especialista em crime organizado e narcotráfico na região do Cone Sul, sugeriu que há ações coordenadas na América do Sul para tentar driblar as fiscalizações com novos métodos.

“Esse não parece ser um caso isolado [35 toneladas de acetato de etila] de produtos químicos saindo do Uruguai. Trata-se de uma mensagem. Os dois caminhões foram detidos na fronteira, mas não na origem. O sistema detectou quando já estava tarde, não na prevenção, de forma reativa. Podemos estar diante de uma nova rota de químicos que vai se consolidar pelo Uruguai”, alertou o especialista, via rede social, com repercussão na imprensa uruguaia e argentina.

No dia 29 de março, a Aduana da Argentina informou que suspendeu quatro chefes que atuavam na região de Gualeguaychú por falha nos controles.

Por enquanto, ainda não há acordos multinacionais vigentes que podem se somar às ações de cooperação para combate a esse tipo de transporte entre Uruguai, Bolívia, Argentina e Brasil, porém, há atuação bipartite em alguns casos, como ocorre entre Bolívia e Brasil.

*Saiba

Como são utilizados

O carbonato de cálcio é utilizado como um reagente químico para a extração e purificação da cocaína da planta da coca durante a transformação da pasta base em cloridrato de cocaína. A soda cáustica também pode ser utilizada neste processo, assim como o acetato de etila, que atua como um solvente orgânico essencial para a cristalização da droga.

Já o bissulfito de sódio é utilizado para melhorar a aparência estética da droga, removendo impurezas e deixando o pó com um aspecto mais branco. O carvão ativado, por sua vez, é usado quando a droga está cristalizada e misturado para alterar sua cor, cheiro e propriedades químicas, tornando-a quase indetectável.

Entrevista

"Estamos felizes de mostrar que o Brasil é mais do que Rio de Janeiro e São Paulo"

Ao Correio do Estado, o presidente da COP15 e ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, fez um balanço sobre o evento em Campo Grande

04/04/2026 08h30

João Paulo Capobiano - Ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima

João Paulo Capobiano - Ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima Foto: Gerson Oliveira/Correio do Estado

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Presidente da 15ª Conferência das Partes (COP15) da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS, na sigla em inglês) e atual ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), João Paulo Capobianco destacou ao Correio do Estado que o evento internacional em Campo Grande serviu para mostrar que o Brasil é mais do que o eixo Rio-São Paulo.

No dia 29 de março, a COP15 chegou ao fim na Capital, depois de seis dias de negociações entre as 133 partes signatárias.

Durante visita à sede do Correio do Estado, Capobianco disse quais foram os principais resultados e também citou espécies encontradas no Pantanal Sul-Mato-Grossense que foram centro de debate e incluídas no documento final da conferência.

Inclusive, durante esta semana, Capobianco subiu de secretário-executivo para ministro da Pasta, depois de Marina Silva renunciar ao cargo para se candidatar às eleições deste ano, ainda sem definição se vai tentar uma das vagas no Senado ou ser vice na chapa de Fernando Haddad para o governo do estado de São Paulo. Confira a entrevista completa.

Em fevereiro de 2024 entrou em vigor a Lei do Pantanal, que foi elaborada com o governo do Estado e com o MMA. Até a COP15, o que já tinha sido observado de efeito dessa lei para as espécies migratórias? E depois dos resultados obtidos durante a COP15, o que pode ser observado a partir dessa lei?

A lei foi fundamental. Após a elaboração da lei, que foi uma lei construída com a participação nossa do Ministério, teve muito apoio na Assembleia, apoio na população local. Foi uma lei muito bem conduzida, o governador realmente teve um papel muito relevante nesse processo. E os resultados foram visíveis. 

Primeiro, diminuiu enormemente o desmatamento no Pantanal e ensejou outras medidas, por exemplo, essa iniciativa do governo do Estado de comprar autorizações de desmatamento que já tinham sido emitidas. Porque uma vez emitida uma autorização, o pessoal tem o direito de fazer o desmatamento.

E o governo do Estado ofereceu esse programa, muito inédito, muito elogiado, de oferecer para aquela pessoa que desmatava, de vender a licença, e não de cancelar uma licença já emitida. Então, foi visto de forma muito positiva isso. 

Também foi aprovada depois da Lei do Pantanal, no Congresso Nacional, a Lei do Manejo Integrado do Fogo, que é algo fundamental para você planejar essa questão de controle de incêndios, porque o Pantanal vem sofrendo muito com a mudança do clima, é um bioma muito sensível, muito suscetível a alteração climática, porque ele depende de forma muito intensa do regime hidrológico, o sistema de cheias e vazantes do Pantanal é o que marca, é o que confere ao Pantanal toda a biodiversidade, inclusive é o que confere ao Pantanal o local de passagem de importantes espécies migratórias. 

Com as alterações climáticas, nós estamos assistindo a essa redução, diminuição do período chuvoso, demora de vir o período chuvoso e seca mais intensas. O trabalho também de manejo do fogo que a gente instituiu aqui no Pantanal está dando bons resultados.

A Lei do Pantanal também acrescenta o Fundo Clima Pantanal, parecido com o Fundo Amazônia. O Fundo Pantanal tem alguma possibilidade de receber ajuda externa ou federal? A COP15 debateu esta possibilidade?

Essa convenção não trata de questões de financiamento, era uma convenção que os países atuavam dentro das suas condições e seus recursos.

Mas, nesta Conferência dos Países, nós inovamos e foi o Brasil que puxou esse debate, ganhou muito apoio e foi aprovada a abertura de um processo para definir o apoio a países em desenvolvimento para implementar as ações, tanto do ponto de vista financeiro, como também transferência de tecnologia, metodologias, apoio técnico, para que os países do movimento possam ser mais efetivos. 

Um dos objetivos nossos de fazer essa COP aqui em Campo Grande, que o Brasil propôs desde o início, era pôr o Pantanal em evidência.

Porque as pessoas, quando falam no Brasil, pensam em Amazônia, no máximo em Mata Atlântica. As pessoas não conhecem os biomas brasileiros e não conhecem a importância do conjunto dos biomas. Claro que a Amazônia é importantíssima, não se nega isso, mas o Pantanal é importantíssimo também. 

A gente queria mostrar isso e, ao colocar o Pantanal, nós vamos ter a carta do Pantanal, temos a carta de Campo Grande, porque tudo que é decidido nesta COP ganha o nome de ‘decisões de Campo Grande’, que passam a integrar agora a conversão para sempre.

Os participantes da COP15 foram para o Pantanal?

Vários foram. Teve atividade pré-COP, teve atividade durante a COP. Mas várias pessoas foram ao Pantanal, mas o mais importante é que isso entrou no roteiro dessas pessoas. 

Mesmo que essas lideranças, cientistas e diplomatas que estiveram aqui, mesmo que alguns não tenham ido agora, passa a ser um objetivo, todos disseram isso ‘Vamos voltar, queremos voltar com calma aqui, queremos conhecer o Pantanal de mais profundidade’, porque entrou no mapa. Entrou no mapa da academia, vamos dizer assim, e entrou no mapa do turismo, do conhecimento.

Inclusive, algumas voltaram fascinadas. Tem um indiano, que é uma pessoa muito importante, ele é membro da UICN, que é a União Internacional para a Construção da Natureza, a maior organização não governamental do mundo.

Ele foi para o Pantanal, encontrou comigo e falou que estava chocado, porque ele avistou duas onças, assim, a pouca distância, e ele está acostumado com tigre lá, e isso tudo vai criando empatia, dá visibilidade, vai circulando. 

Nós estamos muito felizes com esse resultado. E também estamos muito felizes, realmente muito felizes, de mostrar que o Brasil é mais do que Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, que é possível fazer um evento desta importância, deste tamanho e com todas as regras aqui, porque uma reunião das Nações Unidas é algo muito complexo, porque tem um conjunto de protocolo de segurança e de logística que a ONU pode não aprovar, mas o país pode oferecer o local e a ONU pode ainda não aprovar, e Campo Grande passou com louvor.

Foram muito elogiadas as condições da cidade, a infraestrutura urbana, também essa relação da cidade com o meio ambiente impressionou muitas pessoas. Cruzar com arara o tempo todo, com capivara, com anta. O negócio é que, para as pessoas que lidam com isso, é um negócio meio chocante, o pessoal está acostumado com Nova York e outras metrópoles do mundo.

Ao mesmo tempo, uma cidade que funciona e que é impecável. Hotéis de altíssima qualidade, restaurantes excelentes e boa infraestrutura.

Foi muito bacana colocar Campo Grande também na rota de opções para grandes eventos, porque é muito importante para um país como o nosso diversificar os locais de realização de encontros relevantes, como esse. 

Falei com algumas pessoas, incluindo secretários-executivos da convenção, e foi uma COP muito prestigiosa e muito efetiva, tanto que terminou cedo. Normalmente, essas COPs demoram, varam a madrugada, porque demoram para aprovar, para que consiga o consenso. Acho que teve uma votação só.

Porque o ambiente foi tão favorável que o consenso foi construído, havia divergências em vários pontos, mas foram construídos consensos e tudo foi muito bem harmonizado. 

Foi uma conferência das partes harmônica, que avançou muito, é considerada uma das mais eficientes dos últimos anos em termos de resultado, e isso tudo contribui. O ambiente contribui, a logística adequada contribui, as coisas funcionando contribuem, tudo vai contribuindo para dar certo. Foi realmente um sucesso.

Antes da COP15, o presidente Lula esteve em Campo Grande e citou três objetivos desta conferência no decorrer do discurso. O senhor acredita que esses objetivos foram alcançados? E qual o legado que a reunião pode deixar não só para o Brasil, mas especificamente para Mato Grosso do Sul e Campo Grande?

Entre os objetivos de fazer a COP aqui estavam: primeiro, inserir o Pantanal, tornar o Pantanal conhecido, aumentar a visibilidade, o apoio ao Pantanal, isso foi garantido; segundo era mostrar a possibilidade do Brasil realizar uma conferência desse tipo fora dos grandes eixos conhecidos e revelar para o mundo novas opções, como Campo Grande, e isso também foi atingido; o último era garantir e reafirmar o Brasil como um país que aposta, apoia e investe no chamado multilateralismo. 

Essa é uma questão muito importante. No momento em que alguns países agem individualmente, esquecem os acordos internacionais, esquecem a legislação internacional e passam a atuar individualmente, unilateralmente, o Brasil vai lá e apoia, declara e insiste que o caminho correto é o multilateralismo. Então, esses objetivos foram plenamente alcançados. 

Um outro aspecto importante, que o Brasil também tem buscado mostrar, é liderar pelo exemplo, ou seja, se nós estamos dizendo que para proteger espécies migratórias, nós temos que ter áreas protegidas, por exemplo, o Brasil foi lá e criou uma área no Rio Grande do Sul importantíssima para espécies migratórias e abriu duas unidades aqui no Pantanal, no Mato Grosso, ostrando que o Brasil está fazendo a parte dele dizendo ‘olha, vamos todo mundo fazer, cada um faça o seu esforço nas suas condições, cria as áreas específicas onde essa espécie passa para que elas fiquem protegidas’. 

Foi uma COP de sucesso. A pior coisa que poderia ter acontecido é a COP acontecer aqui e não gerar resultado, não fechar consenso, isso é muito ruim. Ao contrário, a COP, nas palavras da própria secretária-executiva da convenção, foi uma COP de altíssimo sucesso. Foi discutido, tudo foi aprovado. Então, foi muito exitoso. 

Isso é muito importante para o Brasil, porque as pessoas saem muito impressionadas, no sentido positivo da palavra. Um país que apostou, que ajudou, que investiu, a população acolheu, o Estado acolheu, e essa COP foi feita a várias mãos, não é uma COP do governo federal, é uma COP feita com o governo do Estado, com a prefeitura, com o governo federal, com os ministérios todos envolvidos. É uma COP do conjunto do País, a sociedade brasileira.

{Perfil}

João Paulo Capobianco

Nascido em 1957, o paulistano João Paulo Ribeiro Capobianco se formou em Ciências Biológicas na Universidade de Santo Amaro (Unisa) em 1982. Tem especialização em Educação Ambiental pela Universidade de Brasília (UnB) e doutorado em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP).

No primeiro e segundo mandatos de Lula, nos anos 2000, assumiu diversos cargos no Ministério do Meio Ambiente, incluindo o de secretário-executivo. Em 2023, com o retorno de Marina ao comando do MMA, voltou a ser secretário-executivo e ficou até dia 31 de março deste ano, quando subiu para o cargo de ministro.

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