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A crise da esquerda no século 21

Nos países ocidentais, a esquerda se fez presente em diversos projetos culturais e políticos

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Em fevereiro de 1848, Karl Marx e Friedrich Engels anunciavam a emergência de um novo espectro político, que buscava se contrapor a todas as potências da Europa. Logo na primeira página do Manifesto Comunista, Marx e Engels definiram a trindade política a ser combatida pela revolução global comunista.

Ao citarem “o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha”, os autores do Manifesto elegeram o cristianismo, o liberalismo e o nacionalismo como os três inimigos de seu projeto revolucionário. 

De modo sucinto, a religião representava a ideologia desmobilizadora do espírito revolucionário, o liberalismo ficava responsável pela alienação produzida pelo trabalho e o nacionalismo impedia a formação de um movimento internacional dos trabalhadores.

Havia, portanto, um claro projeto global, que buscava uma modernidade alternativa à nova sociedade burguesa em ascensão.

Embora os desfechos da Primavera dos Povos, em 1848, não tenham favorecido às pretensões de Marx e seu projeto de poder, a partir de seus trabalhos e mobilizações, a esquerda deixou de arregimentar pequenos agrupamentos utópicos e passou a se posicionar enquanto um movimento global.

Nascia, em 1864, a Primeira Internacional, cujo principal objetivo era reunir todos os proletários na luta por uma nova sociedade. 

Entre comunas e desilusões, o legado de Marx espraiou-se pelo mundo todo, atingindo seu ápice em 1917, quando a Revolução Russa se transformou na Revolução Global do comunismo, conforme tão bem ilustrou o historiador italiano Silvio Pons, em sua obra “A Revolução global: história do comunismo internacional (1917-1991)”.

Para termos ideia dessa dimensão revolucionária, complexa e heterogênea, o comunismo chegou ao poder em todas as regiões do globo terrestre, do Chile aos movimentos de libertação nacional na África, de Cuba a Coreia do Norte, da China à Nicarágua.

Ademais, nos países ocidentais, a esquerda se fez presente em diversos projetos culturais e políticos.

De Gramsci a Habermas, quase nenhum curso de Ciências Sociais deixou de formar acadêmicos com viés de esquerda, mesmo em regimes ditatoriais, como no caso do Brasil.

Apesar de as identidades revolucionárias terem se transformado desde o Manifesto até a queda do Muro de Berlim, em 1989, os comunismos representavam uma contraposição, já que havia uma luta, um projeto e uma utopia.

O dilema da transformação se alternava entre reforma e revolução, mas o poder jamais havia deixado de ser um destino.

Aliar-se a grupos cristãos, como a aproximação com a renovação carismática na América Latina, adaptar-se a valores do liberalismo político nas democracias ocidentais e formar esquerdas nacionais por meio de partidos políticos, foram alternativas adotadas pelas esquerdas no século 20 para lidar com o esfacelamento do projeto revolucionário soviético.

No caso da China, aderir ao liberalismo econômico foi a solução encontrada para não ter o mesmo fim que a URSS.

Contudo, no século 21, o projeto de modernidade alternativa, tão defendida pelas esquerdas nos dois séculos anteriores, se desfez por completo.

Surgiram algumas vãs esperanças, como o “socialismo do século 21”, apregoado pelo historiador E. Hobsbawm, ao analisar a ascensão do chavismo na Venezuela, mas tudo se diluiu na mesma velocidade dos tempos líquidos nos quais vivemos.

A última fagulha parecia vir com a nova constituição chilena, que surgiu de um amplo movimento de base após as diversas revoltas ocorridas em 2019, quando milhões de pessoas foram às ruas protestar contra o aumento da tarifa do metrô.

A primeira Assembleia Constituinte procurou criar um estado plurinacional e um novo estado de bem-estar social, tentando destruir o legado “neoliberal” da atual constituição, imposta por Pinochet, em 1980.

Ao ir para votação popular, o rechaço do povo chileno ilustrou bem o desencanto com a dimensão identitária e progressista da Nova Carta. Agora, caberá à direita liderar um novo processo constituinte.

Sem um projeto de poder alternativo, a esquerda do século 21 assiste às transformações constantes do cristianismo, por meio de suas renovações, ao desenvolvimento do liberalismo na história e a ascensão de novos movimentos nacionalistas, do Brexit à guerra entre Rússia e Ucrânia.

Para preservar uma identidade social, coube à esquerda apropriar-se de pautas liberais no que diz respeito às liberdades individuais.

Como forma de sobrevivência formal, a esquerda se divide hoje entre, por um lado, defender a implantação de uma nova âncora fiscal no Brasil, vibrar com a vitória de um presidente democrata nos EUA, aceitar a presença de Emmanuel Macron e Angela Merkel como sustentadores de um projeto europeu de sociedade e, por outro, defender a invasão russa na Ucrânia e silenciar-se sobre a exploração do trabalho na China. 

Sendo assim, afirmar-se enquanto militante de esquerda em “tempos neoliberais” tornou-se apenas uma mercadoria valiosa em alguns mercados editoriais, papéis em novelas e filmes ou cargos públicos em universidades. Todavia, sem um projeto de poder, a esquerda deixa de ter um corpo político, tornando-se novamente um espectro, dessa vez não mais revolucionário nem reformista.

EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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