Colunistas

FUTEBOL

Coluna do PVC: Caso Cuca nos faz pensar em jornalismo e na ética do boleiro

Confira a coluna PVC desta sexta-feira (28)

Continue lendo...

Falta sempre uma pergunta, falha do jornalismo lacrador: 'O que você acha do caso, Cássio?'

Cássio puxou a fila da corrida em direção ao técnico Cuca assim que Roger Guedes fez o gol de pênalti que deu a vaga nas oitavas de final da Copa do Brasil. O time inteiro seguiu seu capitão para abraçar o treinador. Minutos depois, perguntado sobre o gesto, Cássio respondeu: "Não vou entrar em detalhes, mas é um cara que esteve com a gente".

Como assim, não vou entrar em detalhes?

Falta sempre uma pergunta. Falha nossa, deste jornalismo que lacra mais do que apura: "O que você acha do caso, Cássio?".

A questão é pertinente, porque só se abraça quem se respeita e só se é solidário com quem se confia.

Cássio, então, confia na versão de Cuca? Foi por essa razão o abraço? Ou foi porque Cuca, até o momento do abraço, ainda era o chefe?

Enquanto a ética do boleiro se expõe aos poucos, o jornalismo sobrevive com o brilho da reportagem de Adriano Wilkson, responsável pela resposta à

pergunta necessária: era verdade que a vítima não havia reconhecido Cuca como agressor?

Não, era mentira, de acordo com o depoimento do advogado Willi Egloff, que acompanhou tudo em Berna (Suíça), do crime ao julgamento.
Quem participou da defesa, em 1989, confirma o depoimento de Egloff, embora ainda haja uma questão no ar.

Há depoimentos, em Porto Alegre, de que o goleiro Chico –nome próprio, Eduardo– teria sido condenado a três anos, não aos 15 meses apontados pela reportagem do jornal bernês Der Bund. Convenhamos que há ainda essa contradição. Se havia sêmen de Cuca e de Chico, como a sentença pode ter sido de apenas 15 meses de prisão?

Quinze meses deveria ser para um roubo de celular, que, no Brasil, pode dar até quatro anos de detenção. Um estupro tem de valer 30 anos na cadeia!

Ainda que a legislação dissesse que eram de seis a dez anos, continuaria sendo pouco.

O que indica que o caso segue com pontas soltas, carecendo de mais apuração.

Não é fácil apurar depois de 36 anos. Na época, a imprensa gaúcha tratou o caso com viés absolutamente machista. A revista Placar não. Cobriu em toda a sua extensão. Reportagens de Álvaro Almeida e Divino Fonseca já diziam que os quatro jogadores foram reconhecidos pela vítima, Cuca incluído.

É importante frisar que o crime ficou conhecido, nos anos 1980, como "Escândalo de Berna" e envolveu quatro homens: o meia Cuca, o goleiro Chico (Eduardo), o zagueiro Henrique e o ponta Fernando.

Chico, goleiro do Bahia semifinalista do Brasileiro de 1990 contra o Corinthians, hoje é preparador de goleiros do sub-15 do Grêmio. Trabalha com formação de adolescentes e recusa-se a dar a sua versão sobre o caso. Também se recusa a pedir desculpas.

O escândalo voltou à tona por causa da condenação de Robinho e da pergunta: se Robinho não pode trabalhar, por que Cuca pode? A única diferença é que sua punição prescreveu pela legislação suíça, local do crime, a de Robinho ainda não.

Mas, quando Cuca diz que não foi reconhecido pela vítima, é desmentido categoricamente. Também diz que não tocou na menina; e há depoimentos em Porto Alegre de que quem a tocou foi só o goleiro Chico. Como acreditar? Se Cuca mente uma vez, pode mentir todas as vezes, como na fábula do pastor mentiroso e o lobo.

Mas os jogadores acreditam em seu agora ex-chefe piamente, a ponto de correrem para lhe oferecer um abraço público, em meio à maior crise institucional recente do Corinthians.

O debate nos ajuda a pensar no machismo nosso de cada dia.

É preciso olhar no espelho e tentar melhorar, a cada manhã. Também faz pensar em jornalismo e na ética do boleiro.

Informação é a coisa mais moderna deste mundo. Informação como o endereço do e-mail do advogado da vítima, que desmentiu a versão de Cuca.

Assine o Correio do Estado

EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

Continue Lendo...

Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

Continue Lendo...

Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).