Na época das redes sociais, o grande mal do discurso subordinado a uma premissa falsa, imoral ou anticientífica é que, ao ser repetido em massa, essa descrição de mundo ganha um ar de normalidade que é – perdoem-nos a franqueza, mas é essa mesma a palavra adequada – assassina da capacidade das pessoas de ver o mundo. A linguagem não mais liberta. Ela passa a prender a mente. No WhatsApp e em outras fontes de informação rápida, a degeneração do uso da linguagem faz temer a própria subsistência das sociedades modernas.
Na “nova linguagem” das redes, a subordinação da linguagem à crença pessoal do tio do zap produz premissas para a descrição de fatos que são quase que invariavelmente danosas, porque corroem, quando não aniquilam, a já desgastada fé das pessoas nas instituições humanas e no próximo.
Tome-se como exemplo a pandemia. A premissa é que ela seria falsa ou proposital. É doloroso observar que alguns acreditam que todos os governos do mundo se uniram em uma conspiração global para limitar a liberdade das pessoas ou supostamente beneficiar o governo chinês.
Outro caso, trágico, são as vacinas, cuja premissa narrativa é a de que fariam (ou poderiam fazer) mal. Seria mesmo crível supor que todos os governos querem o mal para os seus cidadãos, que todos os cientistas ou agências de saúde estão errados ou de má-fé ao apontar que as vacinas são seguras e necessárias? Não há mais pessoas boas em nenhum governo? Todas são ruins?
O aquecimento global causado pelo homem, de que todos já sentimos os terríveis efeitos, é outra questão. Primeiro, as teorias conspiratórias falavam que ele era falso. Agora, aduzem que ele realmente ocorre, mas é natural, e não antropogênico, nada obstante a ciência, há muitos e muitos anos, dizer o contrário. Realmente devemos acreditar que décadas de destruição ambiental não nos trariam consequência alguma? Que a quase unanimidade dos cientistas está errada? Que a ação, nas ciências naturais, não provoca qualquer reação?
Agora, no Rio Grande do Sul, no zap zap, dou-me conta de que o governo estaria dificultando ao máximo as medidas de assistência aos atingidos por essa terrível catástrofe climática (provocada pelo homem). Sério mesmo? O que o governo ganharia com isso? Quantos votos? Devo mesmo supor que todos no governo federal ou gaúcho são estúpidos ou incompetentes? Que não há pessoas de bem em um governo só porque ele seria de esquerda ou de direita?
Em todos esses casos, se estivermos atentos, perceberemos que as premissas que encobrem as narrativas são absurdas, inverossímeis. Em outros tempos, envergonhariam quem as defendesse. Contudo, com a subversão da linguagem pela crença, os discursos paranoicos de descrição de mundo ganham terreno. Pior, em muitos casos são estimulados e abraçados pela mídia e pela sociedade. Rendem votos. O que pode ser feito a esse respeito?
A resposta passa por mais educação. O homem é um ser mais emocional do que racional. Tende a acreditar nas coisas mais em virtude da legitimação social e emocional do emissor do discurso do que em virtude de seu mérito. É mais fácil crer no que o amigo fala do que no cientista renomado aduz. Temos uma sensação de pertencimento com o amigo que só podemos ter com o cientista se conhecermos, ao menos um pouco, o conteúdo da matéria ou como ela foi feita. A ciência precisa urgente melhorar a sua comunicação, e para isso precisamos de educação. Sem ela, a crise da subordinação da linguagem não passará. Isso que vivemos hoje não é passageiro. Veremos um mundo cada vez mais fragmentado, e surreal, em sua descrição.
É certeza, contudo, que um dia esse espírito de época passará. A história é implacável. Teremos compreendido que as palavras devem ser usadas com cuidado e que o que diferencia o homem dos animais é que só o homem é capaz de fazer e acreditar em estórias. Justamente por isso que elas devem ser usadas com responsabilidade.




