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Mercado de carbono: benefício ambiental, social e climático

O último mapeamento florestal do MapBiomas constatou que as florestas naturais ocupam 58% do território nacional, sendo a maior parte delas na Amazôni

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O mercado de carbono está em pauta. Com a recente aprovação, pelo Senado, do projeto de regulamentação, esse setor ganha ainda mais impulso para manifestar seu crescimento. Com amparo legal, o mercado de carbono brasileiro, que já figura entre os mais relevantes do mundo, reforça sua profissionalização e poderá contribuir ainda mais com o combate às mudanças climáticas.

Segundo levantamento da consultoria McKinsey, é possível que o mercado mundial de carbono movimente até US$ 50 bilhões até o ano de 2030. O Brasil é um grande ator mundial em projetos Redd+, responsáveis por Redução de Emissões provenientes de Desmatamento ou Degradação Florestal.

O último mapeamento florestal do MapBiomas constatou que as florestas naturais ocupam 58% do território nacional, sendo a maior parte delas na Amazônia.

Isso mostra que o Brasil pode contribuir muito nas ações que valorizem as florestas em pé. E o combate ao desmatamento e a preservação da mata nativa atraem cada vez mais investimentos de grandes corporações mundiais.

Na prática, este mercado já existe há mais de 20 anos no País e é um instrumento que tem como finalidade compensar a emissão de gases de efeito estufa (GEEs).

Ele funciona por meio de programas que evitam ou reduzem a emissão de gases, com foco em preservação de florestas, restauração ecológica, recuperação de pastagens degradadas, processos de captura de metano, entre outros, com a proposta de evitar ou retirar os GEEs da atmosfera, o que aumentaria os já desafiadores efeitos das mudanças climáticas. 

Com a regulamentação, a ideia é que indústrias e grandes emissores de GEEs tenham metas a cumprir, com um teto estabelecido para emissão.

Ao ultrapassar esse limite, essas corporações terão de compensar o que é emitido além por meio da compra de créditos de carbono, ou seja, pelo título que garante um volume de carbono que deixou de ser emitido, a partir de um projeto auditado previamente por uma certificadora e que pode trazer, além dos benefícios climáticos, com a redução da emissão de GEEs, uma série de benefícios sociais e ambientais adicionais. 

Do outro lado, no caso de projetos Redd+, o incentivo para os agentes, públicos ou privados, que detêm o direito de uso e gerenciamento das terras é financeiro.

Se antes eram necessários grandes investimentos para conservar determinada área, com os projetos do mercado de carbono é possível transformar a preservação ambiental em uma atividade que gera também uma rentabilidade financeira, que ajuda a custear ações de monitoramento, comando e controle.

Para projetos em que o agente de desmatamento é o proprietário da terra, as receitas provenientes da venda de créditos de carbono podem retirar o incentivo econômico para a conversão das terras em atividades produtivas alternativas, oferecendo um benefício financeiro que valoriza a floresta em pé.

Para se ter uma ideia desta importância, segundo o último relatório do IPCC (o corpo científico mais confiável do mundo sobre mudanças climáticas), já com os atuais 1,1°C de aumento na temperatura terrestre, mudanças no sistema climático sem precedentes por séculos e até milênios ocorrem em todas as regiões do mundo.

Se chegarmos a um aumento de 1,5°C, o IPCC prevê que 950 milhões de pessoas enfrentarão estresse hídrico e estresse térmico, além de desertificação, subindo para 24% a parcela da população mundial exposta a inundações.

O benefício social de projetos florestais também é considerável. No caso dos projetos Redd+, as populações de modo de vida tradicional ou os povos das florestas, que têm sua subsistência diretamente relacionada com a saúde e a preservação das dinâmicas naturais desses ecossistemas, ganham segurança alimentar.

Também se beneficiam com os meios necessários para a manutenção da sua cultura e conhecimentos tradicionais sobre a fauna e a flora, que foram tantas vezes fundamentais para o desenvolvimento de novos produtos da indústria farmacêutica, por exemplo. 

A valorização da floresta em pé também abre uma nova oportunidade para o desenvolvimento de uma bioeconomia potente, por meio da exploração sustentável de produtos florestais não madeireiros.

Esta iniciativa, subsidiada pela venda de créditos de carbono, oferece uma nova atividade econômica e mais segurança financeira às populações, muitas vezes vulneráveis, presentes nas áreas e no entorno dos projetos.

A preservação da floresta em pé viabiliza planos de manejo para a exploração sustentável dos produtos da bioeconomia, assegurando a manutenção de populações saudáveis de espécies da nossa fauna e flora e contribuindo para a conservação da nossa biodiversidade e dos produtos da bioeconomia, insumos muito importantes para os ramos cosmético, farmacêutico e alimentício. 

Em linhas gerais, todos nós ganhamos com a regulamentação do mercado de carbono. Os atores deste mercado ganham segurança jurídica para investir em atividades de conservação e restauração, enquanto a floresta, a comunidade, a fauna e a flora são preservadas e valorizadas.

Ganham as comunidades que dependem destes territórios, ganham as demais espécies que dividem esse planeta conosco, ganha o País, com a conservação de sua riqueza natural, e ganha toda a humanidade, por poder contar com um ambiente mais saudável de conforto climático.

EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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