Tenho frequentemente me perguntado o que leva políticos, autoridades e mandatários a quererem fazer reformas da previdência social de um país justificando com lógicas ardilosas sobre uma futura falência integral do sistema em função de um deficit financeiro duvidoso, no crescimento de beneficiários “pé na cova”, na falta de mantenedores no regime de assistência a não ser pela crença de uma narrativa neoliberal que procura regular os serviços públicos sociais, a delimitação de direitos dos trabalhadores, diminuição do assistencialismo e da estrutura governamental, a privatização e terceirização da incumbência do Estado, por meio de subterfúgios, como a precarização e legislações dirigidas, e difusão de notícias atemorizadoras.
Não é possível que os “fazedores, os cumpridores e os garantidores das leis”, favorecidos e usufruidores de benesses, como aposentadorias especiais, duplos benefícios, valores e categorias diferenciadas, não tenham em suas relações sociais parentes, amigos, conhecidos que padecem com os valores, os atrasos, as filas, o descaso, consignados, o desrespeito de cidadãos justo após servirem com suas obrigações, ao justificar decisões com base nos “honestos” e universais princípios da administração pública: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
Não vou divagar sobre a falácia de que a manutenção do sistema depende da mão de obra de futuros aposentados, uma vez que estes não contribuíram com os primeiros reformados; ou a constituição tripartida dos recursos inerentes à seguridade (trabalhador, empresas e Estado) suficiente para conservação do conjunto, nem as manobras de “desonerações fiscais”, e a desvinculação das receitas “obrigatórias” da União”, mas podemos lembrar que a preocupação maior, da alegação neoliberal que está no envelhecimento da população mesmo sabendo que antes de qualquer mudança na subsistência dos “provectos” e “longevos”, deveriam ser adotadas políticas macroeconômicas induzindo continuadas taxas de crescimento, aumento de produtividade e de empregabilidade.
Desse último porvindouro não temos como escapar: Na França, o presidente. Afirma: “Caso não resolvamos o problema dos aposentados, não conseguiremos investir no resto” (que resto?) uma reforma ditada pelo mercado e a mídia comprometida, ao postergar por dois anos a aposentação, que para muitos, em relação aos países europeus, a diferença a menor é gritante, todavia a reforma se caracteriza antidemocrática, e o povo francês a repudia, já sabendo que o tempo das manifestações é o necessário para troca dos reformistas de plantão, ou a entrega do comando para a extrema-direita.
Aqui, em um país etarista, preconceituoso, capaz de discriminar os velhos, apesar do Estatuto dos Idosos, único a exigir uma permissão de comprovação de idade para estacionar em uma vaga preferencial, ou de ser discutido o direito de acompanhamento em unidades de saúde, ou mesmo ser negado um assento em um coletivo apesar dos avisos, tivemos um exemplo claro de intolerância ao ser noticiado sobre jovens universitárias que debochadamente ironizaram “colega de turma” com a idade de 40 anos, caracterizando um preconceito, mas principalmente contrariando o conceito dos parlamentares sobre a idade de aposentadoria que externa a sociedade: “Mano, ela tem 40 anos já. Era para estar aposentada”, assim se referiam as estudantes na rede.
O aumento do porcentual de idosos e adultos como a diminuição do porcentual de jovens é resultado da diminuição dos índices de mortalidade, o aumento da expectativa de vida em função das políticas públicas imprimidas nas últimas décadas, mas que coloca em risco a saúde dos aposentados, pelo desequilíbrio social e o desandar da economia.
Acho até engraçado porque o bordão do título escolhido, “o que é que há, velhinho?”, que marca os desenhos do coelho Pernalonga ao “trolar” o fazendeiro dono das cenouras, Hortelino Troca-Letras, como era chamado no Brasil na divulgação de histórias, seriados e desenhos televisivos, já passou dos oitenta e mostra que velhinho é o próprio; era apenas uma questão de tempo.
Como já na apresentação e originalmente no inglês seu epiteto era “what’s up, doc?”, (“o que há doutor?”), mas que foi modificado na época e identificado com os conceitos e preconceitos de idade que ainda existem talvez porque era preciso marcar erradamente a esperteza da juventude do coelho e seu adversário, um velho estereotipado de “ranzinha”.
É importante termos em mente que essa opinião também caducará em breve, mas espero que o registro permaneça.





