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Sob nova direção

Do outro lado e distante, um grupo de pessoas insatisfeitas e já acostumadas com seus azedumes e maus serviços até então prestados durante quatro anos no País

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Volta e meia nos deparamos com faixas escritas em caixa-alta “sob nova direção”. Na maioria das vezes, em frente a um estabelecimento comercial, alguma atividade econômica de serviços, como padaria, oficina, escola, hotel, restaurante, cabeleireiro, e, por mais bizarro que seja, em motel e boate. 

Esse aviso é praxe quando uma nova gestão assume os negócios, de modo a comunicar que um novo ambiente está se instalando a partir daquele anúncio, com novas ideias, propostas, princípios e colaboradores, às vezes até com reformas físicas, deixando claro que ali existem novos ares, mudanças que farão diferenças, e comunicando aos clientes que o atendimento será outro e que nada será como antes.

Em administrações exitosas, a sucessiva troca de comando é salutar e se dá naturalmente, sem embaraços. Contrariamente quando a direção anterior registra em sua história e reputação nódoas que denotam descaso, má condução, e nestes casos não apenas o anúncio de nova governança é a solução, mas é necessária a mudança de marca para que os usuários dos serviços se desvinculem dos erros pretéritos.

Caso não sejam suficientes as medidas de alerta, faixas e troca de marca, um aviso acintoso poderá ser afixado, por meio da mudança do letreiro, demonstrando uma nova identidade, desvencilhando-se das práticas prejudiciais àquelas atividades econômicas. 

Simbolicamente trazemos essa cultura da prática administrativa do campo da gestão dos negócios das atividades econômicas privadas ao novo comando da nação, agora encabeçado por um novo presidente da República, eleito democraticamente, indicando figurativamente que a empresa Brasil tem novo patrão, ou seja, está “sob nova direção”. 

Esta faixa esteve escancarada, embora de modo invisível para muitos, na rampa de acesso ao Palácio do Planalto, em Brasília, a partir do primeiro dia do ano, onde centenas de pessoas se aglomeravam e aguardavam a chegada do novo gestor desta empresa chamada Brasil.

Do outro lado e distante, um grupo de pessoas insatisfeitas e já acostumadas com seus azedumes e maus serviços até então prestados durante quatro anos no País.

Alguns apoiadores da administração anterior tiveram notícias das péssimas instalações ocupadas e deixadas pelo antigo gestor, este que durante anos prometera reformas estruturais, sem, no entanto, cumpri-las.

Que permitira em troca de sua permanência na direção que colaboradores indiferentes, apenas de olho na receita da firma, tomassem as rédeas da administração, mantendo o planejamento da mixórdia, ao permitirem a venda dos nossos ativos e participarem de acordos controversos.

É claro que, ao assumir um estabelecimento em funcionamento, os novos gestores assumem determinados riscos, como pagamento de dívidas anteriores (fiscais, cívicas, tributárias, trabalhistas, ambientais), estando sujeitos a empregar seu capital de investimento para quitar dívidas, daí a necessidade de preparar uma equipe técnica de transição para analisar as informações coletadas a partir das investigações e controle sobre o passivo existente, com a recomendação de ajuste para cada caso. 

E assim foi feito com uma equipe de transição capacitada, que detalhou e enumerou a maioria das adversidades encontradas na área administrativa, econômica, jurídica e política do governo anterior. Reuniram informações, identificaram riscos, alertas, ilegalidades e situações que exigirão soluções e decisões na sequência, embora algumas foram feitas mesmo antes da investidura. 

Foram identificados problemas gravíssimos, cerca de 9.000 construções paralisadas, ausência de previsão orçamentária em diversas áreas consideradas essenciais, excesso e estranhos gastos corporativos, uma série de atos administrativos para serem analisados e revogados, sanar emergências orçamentárias para reconstrução de todos os programas sociais que foram descontinuados, além de recompor as políticas públicas em prol dos mais vulneráveis.

Qualquer mudança significa a oportunidade de adquirir novos hábitos, vivenciar coisas novas, rever valores individuais, reconhecer as diversidades e aceitá-las como um novo caminho a ser trilhado.

A mudança na empresa sempre causará saudosismo, alvoroço, boatos, intrigas quando mais usuários, clientes, fornecedores e acionistas já se encontravam acomodados, satisfeitos com os péssimos serviços, a falta de criatividade, o falso atendimento da gestão anterior, apostando ano após ano em melhoria, sem notar o desmoronamento, a involução e a decadência rumo ao crepúsculo. 

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EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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