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Terceirizando

O conceito errado de terceirização nos leva a descrever o evento da recuperação das joias de origem saudita presenteadas ao governo e retidas na alfândega

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A literatura nos mostra que existe a colaboração e a exploração de atividades distintas na natureza entre seres vivos.

No caso de espécies iguais, estudiosos ambientais definem as relações ecológicas intraespecíficas como modo de vida dos insetos e dos mamíferos e exemplificam quando competem por territórios, alimentos, água e luz solar.

Os seres humanos em sociedade representam esse tipo de relação ecológica intraespecífica harmônica quando em grupos desenvolvem sistemas de cooperação, comunicação e a divisão de trabalho.

O homem, mamífero pensante, indolente por excelência (salvo opiniões contrárias), após sua passagem evolutiva de caçador, provedor e protetor, passou na modernidade a substituir suas funções por meio da tecnologia, utilizando-se dos meios que lhe permitissem eximir-se de responsabilidades, na intenção de ganhar tempo para as suas objetividades de vida, aumentando o seu conforto e egoísmo.  

Terceirizar, isto é, deixar as tarefas rotineiras ou delegá-las a terceiros, passou a fazer parte das relações sociais, dos negócios, das gestões empresariais, das indústrias, do modo de vida, empregando “fazedores” para ocuparem e realizarem atividades de serviço, de modo a permitir que as principais, ou prioritárias, fossem pensadas visando à produtividade, à economia de tempo e ao esforço concentrado de modo rápido e eficiente. 

Na prática, as atividades-meio passariam a ser exercidas por prestadores de serviço, o que lhes permitiria focar nas atividades-fim, passando a ser considerada “uma força externa”, ou terceirização. 

Assim, na 2ª Guerra, por exemplo, os Estados Unidos adotaram esse sistema nas indústrias bélicas para a fabricação externa de munição, armas e equipamentos, empregando como mão de obra pessoas do sexo feminino, até então ocioso para este fim, dando rapidez no abastecimento e atendendo as necessidades da guerra, ocupando áreas intermediárias de grandes projetos. 

Hoje, no cotidiano, vemos a terceirização como natural, na distribuição de alimentos, nos serviços de manutenção e limpeza, de locomoção, de despachantes, lobistas, estendendo-se aos trabalhos domésticos.

Notícias recentes relatam a terceirização da guerra, em que mercenários são contratados para se digladiarem pontualmente contra os inimigos, como no caso do exército paramilitar ucraniano combatente (contratação de voluntários) contra um grupo empresarial denominado Wagner de mercenários pagos, a serviço do exército russo.

Aqui entre nós, em 1974, uma lei criou o trabalho temporário, um arremedo de trabalho e de terceirização, tornando-se um instrumento legal a permitir a terceirização no caso do aumento de serviço ou nas substituições de colaboradores de forma regular e permanente.

Posteriormente, na reforma trabalhista (2017), a intenção da terceirização foi desonerar os encargos de empresários, resultando na precarização dos direitos trabalhistas por vezes com a exploração dos colaboradores como escravos, não atendendo às condições mínimas de trabalho, como noticiado o caso das vinícolas do Sul, ao confiarem em uma empresa terceirizada inidônea, contratante de mão de obra barata e com atitudes aviltantes. 

É importante frisar que as empresas que se servem dos trabalhos terceirizados ofertados por outras são consideradas solidárias com o malfeito e sujeitas a penalidades, justo por não acompanharem o tratamento dado aos colaboradores, principalmente quando justificam o trabalho escravo como uma solução de empregabilidade e colocam a culpa nos programas assistencialistas das politicas públicas. 

O conceito errado de terceirização nos leva a descrever o evento da recuperação das joias de origem saudita presenteadas ao governo e retidas na alfândega.

A solução do desentrave alfandegário foi tentada por meio de uma “terceirização fajuta” de colaboradores subalternos submissos hierarquicamente e politicamente para desenrolar a pedido da autoridade máxima, ao envolver vergonhosamente servidores das Forças Armadas e um ministro, em uma ação vexatória, tornando-se o “butim” comentado no momento. 

Não tratamos do conceito de terceirização de uma aula de gestão, mas um sobrevoo sobre o processo resultante da capacidade do ser humano de se utilizar e idealizar formas convenientes de solucionar problemas, achando-se livre da responsabilidade pelos erros de avaliação ao simplificar as tarefas mais penosas do dia a dia. 

Lembremos que na terceirização considera-se a atribuição a outra pessoa ou entidade apenas a competência de agir, uma vez que responsabilidades são indelegáveis.

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EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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