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Todas as músicas

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Difícil não reconhecer que a música é uma boa e velha bruxaria humana. Todas elas tiram as pessoas do seu propósito pessoal. É um instrumento de socialização formidável. Comodismo interior é um outro lado seu. Mas sempre melodiosa, tornando-se quase uma forma de oração, pessoal ou coletiva.

Elas geralmente dizem o que a boca evita. Para soltar os demônios ou os anjos, a música sempre dá uma força. Ela expressa o que existe de meio camuflado na gente. Justamente aquela porção contida. Pode até ser em uma negação de um sorriso ou até em um simples cumprimento reprimido. Ela pede sempre parceria e romantismo. É sua sina.

Mas há músicas para provocar a alma e outras o corpo. A gente reconhece uma ou outra música pelo primeiro acorde. A mesma coisa de um filme, antes de aparecer as cenas, a música já dá o tom da proposta do enredo. Os tons, graves ou agudos, falam exatamente do tipo de emoção que quer expressar. Para quem opta por um ou outro, acaba por deixar claro seu estado de espírito. Nós acostumamos a reagir a eles. O grave, reflexão. O agudo, ação. Uma sonoridade sempre provocando a pensar, a se sentir ou se mexer. 

Atravessando tempo e sorrindo para frente, a música sempre foi uma outra voz do inconsciente coletivo. Certo tom, de cada época, sempre expressou um momento de inquietação pessoal ou coletiva que o atropelo do cotidiano selvagem não nos deixou perceber. Ela, como ninguém, não menosprezando outras formas de expressão, diz palavras travadas na garganta dos sensíveis.

Que o digam os Geraldos: Vandré, Roca e Espindola. Às vezes, ela se camufla em ritmos para chamar a atenção. Outras vezes, em melodias para provocar a cabeça, com a alma sempre que possível. O único problema dela é revelar o que não pode ser escondido por muito tempo. Suave, irreverente, calma ou provocativa, são maneiras e tons de convidar alguém a olhar para além de si mesmo. Possivelmente, por isso, cada músico é um cidadão do mundo. Assim, seu recado e alcance não têm fronteiras.

Nesse sentido, a música é um instrumento de mexer com a mesmice da vida de cada um. Olhar outros olhares. Sentir outras emanações que não a sua. Pela opção musical dá para conhecer muito de uma pessoa. Daquilo que é ou daquilo que quer ser. Não há dúvida alguma que a boa música acrescenta. A fabricada coloca a sensibilidade em um campo serviçal do cruel sistema social. Contrariando a música, ele é sempre tendencioso e egocêntrico. Sendo assim, a música sempre será revolucionária. Às vezes, sufocada por um tal de mercado fonográfico, agora digitalizado, em que o desejo do lucro está em primeiro lugar. A boa música é ética. A que não é, volúvel. 

Aqui, no nosso território geográfico e etnocêntrico, a música sempre pretendeu um papel de revelações. Atuais ou futuras, a música sul-mato-grossense seguiu os princípios da boa consciência, mesmo com seus variados estilos e performances. Provavelmente encontrou boa morada para viver, sobreviver e desenhar outras formas musicais, especialmente aquelas atreladas à realidade sociocultural. Por isso mesmo sua existência é tão importante quanto um gabinete de poder. Afinal, a música sempre foi e sempre será o sentimento mais democrático, em que a grana é irrelevante. Por esse fato, ela sobrevive, em seu charme, a guerras e a interesses de todo tipo. Então, longa vida a ela e a quem a faz e a ouve. Edu Lobo dizia que “a mão que toca um violão também faz a guerra”.

Nos encontramos em um delicado momento existencial da humanidade, em que sentimentos e afetos estão sendo colocados como joia rara. Então, é hora da música dizer a que veio e continuar sua vocação maior como instrumento de revolução pacífica. 

EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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