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Uma triste mancha ocorreu no Direito Previdenciário

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O recente revés para os aposentados brasileiros marca um triste capítulo na história dos direitos previdenciários do país. Na última quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por anular o direito à Revisão da Vida Toda, uma medida que impacta negativamente milhares de cidadãos que dependem de suas aposentadorias para sustento. Esta decisão, fruto de duas ações diretas de inconstitucionalidade que, ironicamente, não versavam sobre o tema da revisão, revela uma manobra lamentável por parte da Corte, que resultou em um golpe duro para os beneficiários do INSS.

Aposentados lesados pelo INSS, que já tinham seu direito consolidado pela maioria de seus plenários, foram surpreendidos com uma decisão que lhes retira a dignidade e aos cidadãos brasileiros a esperança de ter assegurada a segurança jurídica das decisões da Corte.

A Revisão da Vida Toda é uma importante medida que visa corrigir distorções no cálculo das aposentadorias, levando em consideração todos os salários de contribuição ao longo da vida laboral do segurado. Essa revisão é especialmente relevante para aqueles que tiveram períodos de contribuição em que seus salários eram mais altos do que os registrados nos últimos anos antes da aposentadoria. Para muitos aposentados, essa correção significaria um aumento em seus benefícios, garantindo uma renda mais condizente com sua trajetória de trabalho e contribuição para a previdência social. Na prática, significava sacolas de mercado com alimentos e compras de medicamentos.

No entanto, a decisão do STF de anular esse direito representa um retrocesso preocupante, que coloca em xeque a segurança jurídica dos direitos previdenciários no Brasil. Ao negar aos aposentados a possibilidade de terem suas aposentadorias recalculadas de acordo com toda sua vida laboral, o tribunal ignora não apenas os princípios da justiça social, mas também a própria legislação brasileira.

A situação é ainda mais preocupante quando se considera as declarações infelizes do ministro Flávio Dino, que afirmou que não existe na legislação brasileira a possibilidade de computar todos os salários de contribuição da vida laboral. Tal afirmação demonstra um total desconhecimento não só da legislação vigente, mas também das emendas constitucionais pertinentes ao tema.

Bradou em alto e bom som o novo ministro, que jamais a legislação previdenciária permitiu o cômputo de todos os salários de contribuição. Mas sabia ele que hoje o cálculo se faz desta maneira? Sabia ele que a lei que estava julgando, também assim o estipulava? Um desconhecimento inexplicável, sobre um tema tão relevante.

De fato, a Lei 9876 e a Emenda Constitucional 103 estabelecem claramente que o cálculo do benefício previdenciário deve levar em conta toda a vida contributiva do segurado. Portanto, a fala do ministro Dino não apenas contradiz a legislação existente, mas também desinforma os Ministros e a população sobre seus direitos previdenciários, gerando ainda mais incerteza e insegurança jurídica.

A luta por uma previdência justa e equitativa não pode ser interrompida por decisões arbitrárias e desinformadas. É preciso trazer as autoridades competentes a reverem essa decisão e garantirem que os direitos dos aposentados sejam respeitados e protegidos.

E aqui trazemos uma irresponsável e irreal conta apresentada pela União ao STF, com um custo inverídico de R$ 480 bilhões, sendo que o impacto não chegaria em R$ 3 bilhões no prazo de 10 anos. Até quando o Supremo vai aceitar esta estratégia desleal do governo em emplacar números inflados, para criar um terrorismo atuarial e com isso retirar o direito dos cidadãos lesados?

Além disso, é necessário um debate público mais amplo sobre a importância da Revisão da Vida Toda e sobre a necessidade de garantir uma Previdência Social que atenda verdadeiramente às necessidades dos trabalhadores brasileiros. Somente através da conscientização e da mobilização social será possível reverter esse triste episódio e construir um sistema previdenciário mais justo e inclusivo para todos.

Que a sociedade se mobilize por este direito do aposentado, como a mobilização em plenário trazida pelo Presidente Luís Roberto Barroso, para que o seu voto vencido na Revisão da Vida Toda, pudesse prevalecer em duas ações distintas, onde nem mesmo estes eram os pedidos da ação.

Como brilhantemente defendeu o relator, ministro Alexandre de Moraes, são aposentados que apenas buscam ser tratados como os demais, aplicando em seus casos a regra permanente de aposentadoria. Isso não é ser tratado com vantagens, e sim que seja respeitada a lei e a vontade do legislador. E mais, respeito a decisão consolidada pelo Tribunal, com a pseudo defesa de economia aos cofres públicos.

Uma triste mancha no direito dos trabalhadores e aposentados do Brasil, que tinham a esperança em uma justiça imparcial.

EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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