Deputada prioriza campanha própria e, em parte dos materiais, também deixa de fora Lula, Vander e Soraya; irmão do candidato ao governo disputa vaga com candidata
A campanha da deputada federal Camila Jara (PT), candidata à reeleição, tem adotado uma estratégia que reduz a presença dos principais nomes da chapa majoritária apoiada pelo partido em Mato Grosso do Sul.
Em peças que circulam entre os eleitores, o candidato petista ao governo, o ex-deputado federal Fábio Trad (PT), não aparece ou recebe espaço pouco expressivo.
A ausência também alcança, em parte do material, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, o deputado federal Vander Loubet (PT), candidato ao Senado, e a senadora Soraya Thronicke (PSB), que tenta renovar o mandato pela coligação formada em torno da candidatura de Fábio Trad.
Em uma das peças analisadas, Camila divide o material com o ex-governador Zeca do PT, candidato a deputado estadual, sem qualquer referência visível aos principais integrantes da chapa majoritária.

Outros adesivos e publicações concentram a comunicação no nome, no número e no slogan da própria deputada. A repetição da estratégia produz, na prática, um efeito de boicote de visibilidade.
Enquanto pede votos para a reeleição de Camila, o material deixa de contribuir para a divulgação e fixação dos nomes escolhidos pela aliança para as disputas pelo governo, Senado e Presidência da República.
A convenção da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, oficializou Fábio Trad para governador, Vander Loubet e Soraya Thronicke para o Senado e Camila Jara para deputada federal.
A aliança majoritária, denominada “Por um MS do Povo”, reúne a federação e o PSB, conforme a ata registrada na Justiça Eleitoral do Estado.
Disputa interna
Um componente da disputa proporcional pode ajudar a explicar o distanciamento. O vereador campo-grandense Marquinhos Trad (PV), irmão de Fábio Trad, também é candidato a deputado federal e concorre diretamente com Camila dentro da mesma federação.
A convenção colocou Camila e Marquinhos na mesma nominata para a Câmara dos Deputados. Nesse cenário, dar maior visibilidade a Fábio Trad poderia reforçar a marca política da família e, indiretamente, favorecer Marquinhos, adversário de Camila na disputa por uma das oito cadeiras de Mato Grosso do Sul na Casa de Leis.
Essa possibilidade, porém, permanece como uma interpretação política, já que não há comprovação de que tenha determinado a estratégia de comunicação da deputada.
Omissão
Apesar do impacto político, a ausência dos candidatos majoritários não representa, por si só, irregularidade eleitoral. Não existe uma regra que obrigue candidatos a deputado federal ou estadual a colocar em seus santinhos, adesivos ou publicações os nomes de candidatos a presidente, governador ou senador.
A obrigação prevista na legislação vale dentro da própria chapa majoritária. A propaganda de candidato a presidente ou governador deve apresentar o respectivo vice. No caso de candidato ao Senado, precisam constar os nomes dos suplentes, de maneira clara e legível, em tamanho não inferior a 30% do nome do titular.
A determinação consta do artigo 36, parágrafo 4º, da Lei das Eleições e do artigo 12 da Resolução nº 23.610 do TSE. Quando um impresso promove vários candidatos, ele passa a ser considerado propaganda conjunta, com reflexos na prestação de contas.
A legislação, contudo, não obriga que essa divulgação conjunta seja realizada.
Dessa forma, Camila tem liberdade legal para concentrar as peças em sua própria candidatura.
Politicamente, porém, a omissão reiterada enfraquece a imagem de unidade da coligação e amplia a percepção de que a deputada prioriza a própria reeleição, mesmo que isso signifique deixar em segundo plano os candidatos majoritários escolhidos pelo PT e seus aliados.