Endosso de aliados de Jair ao rompimento público da ex-primeira-dama com Flávio Bolsonaro acende alerta sobre disputa interna que vai além de MS; dirigentes do partido já contabilizam custos da indefinição; cenário se repete em SP, RJ e MG
A crise aberta pelo vídeo em que Michelle Bolsonaro expôs publicamente suas desavenças com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ganhou um novo capítulo que deve complicar ainda mais a escolha do segundo candidato ao Senado pelo PL em Mato Grosso do Sul: a ex-primeira-dama prepara um novo vídeo de apoio explícito ao deputado federal Marcos Pollon (PL-MS), segundo apurou o Correio do Estado.
A gravação, em fase de produção, seria o passo seguinte à carta escrita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, divulgada em fevereiro por Michelle, e às publicações que ela vem fazendo nas redes sociais em que declara Pollon como "o nosso candidato".
O conteúdo ainda não é conhecido, mas sua simples existência já é interpretada pelas lideranças do partido no Estado como um movimento deliberado de escalada, não apenas de afeto político, mas de disputa de poder dentro do núcleo familiar.
O que reforça essa leitura é o comportamento de aliados próximos ao ex-presidente diante do vídeo de rompimento publicado por Michelle na noite de quarta-feira. Figuras do entorno direto de Jair Bolsonaro, em vez de reagir com distância ou silêncio, endossaram o conteúdo, ainda que de forma velada. O gesto foi interpretado por interlocutores do partido como sinal de que o rompimento de Michelle com Flávio conta, ao menos tacitamente, com respaldo do próprio ex-presidente.
Dois núcleos, uma candidatura
A divisão que a crise torna visível já era conhecida nos bastidores do PL, mas nunca havia sido exposta com essa nitidez. De um lado, o chamado "núcleo caseiro", formado por Jair e Michelle Bolsonaro, que tem defendido Pollon com constância e, segundo fontes do partido, não demonstra intenção de recuar.
Do outro, o "núcleo político", articulado por Flávio Bolsonaro e pelo secretário-geral do partido, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que tem defendido a candidatura do ex-deputado estadual Capitão Contar, posição que se alinha à preferência do presidente estadual do PL em MS, o ex-governador Reinaldo Azambuja.
A lógica do núcleo político é respaldada pelos números. As duas pesquisas contratadas pelo partido, a Quaest, paga pelo diretório estadual, e o Paraná Pesquisas, custeada pelo diretório nacional, apontaram desempenho superior de Contar em relação a Pollon, segundo apurou o Correio do Estado. Esses resultados foram encaminhados a Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, a Marinho e a Flávio Bolsonaro, que ficou responsável por repassá-los ao pai para análise final.
O problema é que Jair Bolsonaro, como interlocutores do partido reconhecem sem hesitação, não tem como regra seguir o que é previamente acordado e, desta vez, a mulher também está na equação.
Pedido de desculpas não desfaz o racha
Na tarde de quinta-feira (25), Flávio Bolsonaro recuou e pediu desculpas publicamente a Michelle, após o vídeo de rompimento gerar desconforto nos círculos políticos da família. A manifestação foi lida internamente como uma tentativa de contenção de danos, não como sinalização de mudança de posição sobre o candidato em MS.
"O gesto é político, não muda a equação", avaliou uma fonte do partido que atua nas articulações do Estado, sob condição de anonimato. Na prática, o pedido de desculpas não foi acompanhado de qualquer indicativo de que o núcleo político esteja disposto a ceder e aceitar Pollon no lugar de Contar.
Caixa e calendário pressionam dirigentes
Enquanto a crise entre os Bolsonaro se desdobra, dirigentes do PL em Mato Grosso do Sul começam a contabilizar outro problema: o tempo e o dinheiro já comprometidos. A cem dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, os dois institutos de pesquisa contratados já foram pagos.
Recursos destinados à estruturação da campanha foram mobilizados com base em um calendário que previa a definição da chapa com antecedência. Novos desembolsos, para publicidade, logística e articulação política, dependem de um nome que ainda não existe.
A executiva nacional do partido, que havia previsto divulgar nesta semana a lista de pré-candidatos ao Senado nas 27 unidades da Federação com aval de Jair Bolsonaro, adiou o anúncio para a próxima semana. A expectativa é de que o comunicado saia até quarta-feira.
Para os dirigentes ouvidos pelo Correio do Estado, a indefinição já é custosa, financeiramente e politicamente. "Quanto mais tempo passa sem nome, menos tempo sobra para fazer campanha", disse uma fonte partidária.
Flávio Bolsonaro tem mais palanques abertos que Lula
Mato Grosso do Sul não é caso isolado. O PL acumula indefinições semelhantes nas três unidades da Federação com maior peso eleitoral do país, o que expõe a fragilidade da estrutura de candidaturas montada em torno da pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Em São Paulo, o ponto de partida para a crise foi a declaração de inelegibilidade do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que ocuparia a vaga natural do partido ao Senado. A solução articulada até agora coloca o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), André do Prado, como pré-candidato, com Eduardo Bolsonaro posicionado como primeiro suplente. O espaço da direita no Estado, porém, ainda é disputado com o deputado estadual Guilherme Derrite (PP) e o ex-ministro Ricardo Salles (Novo), o que fragmenta o campo e dificulta a consolidação de uma chapa competitiva.
No Rio de Janeiro, o impasse envolve nomes do próprio entorno de Flávio Bolsonaro. Os deputados federais Carlos Jordy e Sóstenes Cavalcante e o atual senador Carlos Portinho disputam a preferência interna, e a decisão final, segundo fontes, ficará nas mãos do próprio Flávio, que deverá se orientar pelo resultado de pesquisas internas encomendadas para o Estado.
Em Minas Gerais, o deputado federal Domingos Sávio (PL-MG) é o nome mais articulado internamente, mas o partido estuda alternativas de maior peso eleitoral diante de um cenário pulverizado e de movimentações de siglas aliadas da base de direita. A indefinição mineira se insere num contexto em que analistas já apontam que Flávio Bolsonaro acumula mais palanques sem definição do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o que representa um risco para a coordenação nacional da campanha bolsonarista em 2026.
Em todos esses Estados, a lógica é a mesma enfrentada em MS: candidaturas ao Senado que precisam ser definidas em prazo curto, com recursos já parcialmente empenhados e pesquisas já realizadas, mas com a palavra final ainda presa num impasse entre o cálculo eleitoral e a vontade política da família Bolsonaro.