Na quarta-feira, o Vaticano inicia o conclave, a fim de escolher o sucessor do papa Francisco, que morreu em 21 de abril, e o Correio do Estado entrevistou com exclusividade o arcebispo de Campo Grande, Dom Dimas, para ele falar sobre o falecido pontífice e as suas expectativas para o próximo.
Dom Dimas destacou o papado de Francisco, que foi pioneiro em muitos quesitos, e disse que espera que o novo pontífice siga o legado dos papas dos últimos séculos. Confira a entrevista a seguir.
O senhor considera o pontificado de Francisco um divisor de águas na história da Igreja Católica?
Eu diria que o papa Francisco levou avante aquilo que foram as conclusões e os encaminhamentos do Conselho Vaticano II. O grande divisor de águas na história da Igreja Católica, para mim, sobretudo no século 20 e também agora nesse início do século 21, foi esse conselho. Esse, sim, marcou profundamente a história da Igreja. Todos os papas que vieram depois, e mesmo João XXIII, que o idealizou, Paulo VI, que o concluiu, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI, Francisco, todos eles, do seu jeito, levaram adiante o que o concílio encaminhou.
Certo, Francisco tem a novidade de ser o primeiro papa latino-americano, assim como João Paulo II teve o diferencial de ser o primeiro papa eslavo. Nesse sentido, sim, houve um divisor de águas, digamos, mas da mesma maneira que já faz muitos anos não temos um papa italiano. Também não é dito que tenhamos que ter outro latino-americano.
Na sua avaliação, quais foram as grandes conquistas nesses últimos 12 anos?
É interessante como o papa Francisco sempre preferiu falar mais de processos. Ele iniciou processos mais do que se associou a metas primadas, digamos assim. Mas, mesmo assim, ele foi o primeiro em muita coisa.
Por exemplo, o primeiro jesuíta, o primeiro papa originário da América Latina, o primeiro a escolher o nome Francisco, o primeiro a ser eleito quando seu antecessor ainda estava vivo, o primeiro a morar fora do Palácio Apostólico, o primeiro a visitar um monte de lugares nunca antes visitados, nem mesmo sequer por São João Paulo II.
Ele foi o primeiro a assinar uma declaração de fraternidade com uma das maiores autoridades islâmicas. Ele foi o primeiro a criar um conselho de cardeais para ajudar na reforma da cura e depois também usá-los nas decisões principais que a Igreja deveria tomar. Foi o primeiro a lançar o símbolo, que não era só dos bispos, sobre a sinodalidade, que envolvia diretamente o próprio povo de Deus. Então, foi o primeiro, inclusive, a pinçar de uma maneira melhor.
Bento XVI já tinha feito isso, mas o papa Francisco levou isso muito avante no sentido de renovar totalmente a legislação de proteção de vulneráveis e deixando muito claro que a pena de morte não faz parte do catecismo da Igreja Católica. Aliás, ele insistiu muito que no mundo não existe a guerra, mas muitas guerras pequenas e grandes, guerras em pedaços. Uma guerra é sempre uma derrota, ele dizia.
Então, um pastor no meio do povo, sem dúvida nenhuma, isso ele sempre procurou fazer. Foi o primeiro papa a visitar o Iraque e abriu uma porta santa em Bangui, em 2015, na República Centro-Africana, marcada por uma guerra civil. Mesmo durante a visita dele, ela deixou mortos pela rua. Portanto, Francisco abriu ali a porta santa do Jubileu da Misericórdia.
Depois, ele também realizou a mais longa visita do pontificado, justamente à Ásia. Indonésia, Papua-Nova Guiné, Timor-Leste, Singapura. Posteriormente, se dedicou muito à questão climática, à questão ecológica.
Uma marca do seu pontificado foi o acolhimento à questão dos migrantes. De fato, a primeira visita fora de Roma aconteceu justamente em Lampedusa, onde tinham acontecido grandes tragédias migratórias, e ali ele lança uma coroa de flores naquele espaço, naquele lugar, que era chamado de um cemitério a céu aberto dentro do Mediterrâneo. Ele esteve na Terra Santa, na Suécia, em Cuba e nos Estados Unidos e foi um grande mediador na época de Barack Obama para que Cuba e os EUA voltassem a ter relações diplomáticas.
Ele assinou em Abu Dhabi um documento sobre a fraternidade humana, e esse documento foi assinado em conjunto com o grande imã Al-Tayeb, e as suas encíclicas, que ainda foram escritas a quatro mãos, porque o papa Bento XVI tinha preparado o esboço dessa carta, ele [Francisco] levou até o fim.
Mas depois, com “Datuzi”, sobre a questão ecológica, uma encíclica de grande profundidade, ele lança essa preocupação com a terra comum. Já com “Fratelli Tutti”, em decorrência daquele documento que ele assinou em Abu Dhabi, ele vai desenvolver reflexões importantíssimas sobre perdão, várias manifestações apostólicas, como é o caso da “Evangelii Gaudium”, a alegria do Evangelho, e “Amores Letícia”, sobre questões espinhosas envolvendo o sacramento do matrimônio – e que, sem dúvida, está aí a nos desafiar sempre de novo.
À querida Amazônia, ele realizou um sínodo específico sobre a Amazônia, em que ele esteve no desenvolvimento das atividades, que é uma continuação da “Laudat si”, falando da Mãe Terra. Depois, a reforma da cúria e o papel das mulheres. O papa Francisco, inclusive, foi o primeiro a inserir mulheres no próprio governo central da Igreja. A dimensão da missionalidade, da sinodalidade, o compromisso em prol da paz, são muitas as conquistas que a gente poderia listar.
Dessas conquistas, quais são as definitivas?
Eu diria que a principal conquista do papa Francisco foi o seu relacionamento com o povo. Diziam que, antigamente, nos tempos de São João Paulo II, o povo ia a Roma para ver o papa. Nos tempos do papa Bento, o povo ia a Roma para ouvir o papa. Nos tempos de Francisco, o povo ia a Roma para tocar o papa, tentar, pelo menos, tocar, chegar perto dele.
Essa proximidade impulsionou no interior da igreja, especialmente aqui no Brasil, e acredito que isso teve um grande impacto. Na minha vida, teve um impacto muito grande, do pastor ter o cheiro do povo, o cheiro das ovelhas. Talvez, mais que as questões organizacionais, o que deve realmente ficar do papa Francisco é o seu exemplo, a sua atitude de pastor, e o seu posicionamento diante dos pobres e dos sofredores de todos os tipos. Isso é o que não pode mudar.
Francisco imprimiu uma nova dinâmica no Vaticano, trouxe mudanças à Igreja, se tornou mais próxima do povo. O senhor acredita que o próximo seguirá essa linha?
Os santos são muito diferentes. Eu sempre digo isso para o povo. Carlos Acutis é tão diferente de Francisco, de Assis, que, no entanto, eles são tão parecidos. Parecidos, mas originais. É o título de um livro que me deram lá em Assis. São João Paulo II era amicíssimo de Mata Teresa de Calcutá, e os dois eram tão diferentes. E eram santos, sem dúvida nenhuma.
Sempre digo isso, pois eu convivi com santos, com foto e tudo. Tenho fotos com João Paulo II de saudosa memória. De modo que esperamos, sim, que o próximo papa seja também um pastor e que seja alguém a conduzir o povo de Deus na santidade. Ele vai imitar Francisco? Não necessariamente.
São Paulo VI não imitou São João XXIII, São João Paulo II não imitou São Tupalo VI, Bento XVI não imitou João Paulo II, Francisco não imitou Bento. No entanto, eu tenho comigo que todos eles foram santos, cada um do seu jeito. Então, o novo papa há de ser parecido, e é bom que seja assim, será original. A originalidade que é própria do Espírito Santo.
As mudanças promovidas por Francisco incomodaram o clero mais conservador. Houve momentos de muita tensão?
De novo, eu vou na mesma linha da reflexão anterior. Muita gente se revoltou contra João XXIII por conta do seu conselho. Muita gente se rebelou contra Paulo VI, por exemplo, por conta da “Humane Vitae”. Muita gente não gostava de São João Paulo II, sobretudo por conta de algumas posições claríssimas dele em defesa da vida, da família.
E sem dúvida, João Paulo II estava por detrás da queda dos muros e da cortina de ferro. Particularmente, na Polônia, sem dúvida nenhuma, ele teve uma influência muito grande para a queda do comunismo, mas também em nível mundial. E tem muita gente que não gostou do papa Bento XVI. Quando ele foi eleito, particularmente em alguns setores nossos aqui... De novo, se é para falar de progressistas conservadoras, muita gente não se conformou com o papa Bento e foi se surpreendendo depois.
Eu mesmo conheci um professor que era radicalmente contra o cardeal Ratzinger. E depois que ele se tornou papa, esse professor se tornou um grande admirador de Bento XVI, mas, sem dúvida, o papa Bento teve muita oposição, inclusive na Alemanha. E não foi diferente com o papa Francisco.
Portanto, muita gente está realmente acomodada na sua zona de conforto, seja de direita, seja de esquerda, e o papa Francisco incomodava, sim, sem dúvida nenhuma, porque as reflexões que ele fazia eram profundamente encarnadas. E mesmo para nós, bispos e padres, ele sempre tinha mensagens contundentes, não passava lá na cabeça, não. Ele deixava muito clara a nossa responsabilidade e advertia quem quer que fosse.
No pontificado do papa Bento, e mais ainda no de papa Francisco, houve sim momentos de tensão e continua havendo, pois hoje existe – talvez dos pecados contra a unidade da Igreja – cisma, heresia e apostasia, e o pecado mais comum dos nossos dias seja justamente o da cisma, porque existem muitos grupos que realmente romperam com a Igreja. São os famosos que a gente brinca que são mais católicos que o papa.
Mas sim, existem momentos de tensão. A polaridade ou a polarização, melhor dizendo, que se constatam na política, e não é só no Brasil, isso está presente em vários outros países e se encontra também dentro da Igreja. E isso torna a missão dos pastores bastante delicada e às vezes cansativa. Você tem que estar repetindo sempre as mesmas coisas. Então, sim, temos aí um grande desafio.
Senhor pode destacar algo que aprendeu com o papa e que dificilmente esquecerá?
Eu sempre gostei muito do papa Francisco. Acho que ele me ensinou muito o que significa ser pastor. Embora aquele que eu chame de pai é João Paulo II, pois foi ele que me nomeou bispo, ainda auxiliar do Rio de Janeiro, e que eu tenha uma grande admiração pelo papa Pedro XVI, sem dúvida nenhuma, eu também sempre admirei muito o papa Francisco.
Tive vários encontros com ele, uma colhida impressionante. Foram as suas atitudes, que a gente sabe que eram atitudes mais simbólicas que qualquer outra coisa, e até o papa não tinha mais o tempo que ele tinha quando arcebispo de Buenos Aires, de pegar o ônibus e ir para uma favela na periferia, ir lá ficar cuidando dos pobres, não dá. Mas ele fazia questão de mostrar, com seus próprios gestos, o que se espera de um pastor na Igreja.
Então, o jeito dele de acolher as crianças, o jeito dele de abraçar os doentes, os machucados. Aquela cena inesquecível durante a Covid-19, em que ele caminha, já manquitolando, pela Praça de São Pedro vazia, e ali ele faz a sua oração pelo mundo. Beija a cruz de Cristo, um gesto inesquecível. Tudo isso me mostrou muito o que significa ser pastor.
Não digo que eu consiga, mas tenho sempre em mente que o papa Francisco me mostrou, ele fez uma hermenêutica acertada, na minha opinião, sobre o nosso ser pastor, o meu ser pastor, a minha missão de pastor, porque cada gesto que ele fazia, e as suas administrações, os seus conselhos, era profundamente evangélica. Por isso, ele era um homem capaz de pregar o evangélico na sua essencialidade e trazê-lo para a nossa vida. Porém, no meu caso específico, para a nossa vida de pastor.
O que o senhor espera do futuro pontífice?
Eu tenho comigo uma fé muito simples e clara. É o Espírito Santo que conduz a Igreja. Nós somos meros instrumentos. De modo que o que eu espero do futuro pontífice é que ele continue como tem sido os papas do último século, pelo menos, dos últimos 150 anos. Homens santos, que viveram o Evangelho, cada um do seu jeito, em situações históricas muitas vezes adversas.
Basta lembrar que, no século passado, nós tivemos duas guerras mundiais. Que ele seja um homem aberto à ação do Espírito, que sopra onde quer, e assim, aberto às surpresas de Deus, que ele nos faça também surpreendermos com a criatividade que vem do homem.
Teremos um papa mais conservador ou mais liberal?
Eis aí uma pergunta para a qual eu não tenho respostas ou que eu não saberia responder. O que significa um papa conservador? O que significa um papa liberal? O papa tem que ser fiel ao Evangelho. As opções pastorais vão caminhar em uma direção ou em outra. Existem pessoas que são profundamente liberais. Por exemplo, na liturgia, profundamente conservadoras em matéria moral. Outros são muito liberais, até laxos na moral, e são extremamente rigorosos na execução dos ritos litúrgicos. Isso aqui é só para dizer um exemplo.
O que significa ser progressista? Hoje, basta que você defenda o direito dos pobres, fale de direitos humanos, você vai ser tachado de esquerdista, de comunista até. Quer dizer, existe uma manipulação das palavras que é muito ruim. Então, Francisco foi um papa progressista? Eu não acho que ele foi um papa progressista, não. Eu acho que foi um papa evangélico. E a revolução verdadeira na Igreja acontece pela volta às origens. A fé da Igreja não dá saltos. Toda vez que a Igreja precisa se reformar, ela deve voltar às suas origens evangélicas. E eu acho que foi muito disso que o papa Francisco tentou fazer.
PERFIL
Dom Dimas
Nasceu em Boa Esperança (MG), no dia 1º de abril de 1956, e foi ordenado padre no dia 3 de dezembro de 1988. Nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro, recebeu a ordenação episcopal em setembro de 2003. Em maio de 2007, foi eleito secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ele é engenheiro-eletrônico, filósofo, teólogo e doutor em Teologia Sistemática.


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