

Eu estava me preparando para encerrar a gestão da saúde no Estado e comecei a pensar: 37 anos de saúde pública! Isso tinha que ficar registrado em algum lugar, além da minha memória. Quantas pessoas conheci, quantos desafios, quantos sucessos reanimadores. Além disso, dois anos antes, a Dra. Lenir Santos me pediu um depoimento sobre o que me levou a escolher a saúde pública. Escrevi três páginas e, quando saiu o livro “Saúde pública meu amor”, vi que os demais convidados escreveram sobre toda sua vida profissional, misturada com acontecimentos relevantes da vida pessoal. Isso reforçou a vontade de contar minha trajetória que é misturada à de Mato Grosso do Sul, no que diz respeito à saúde.
E como foi essa experiência?
Maravilhosa! Escrevi de um só fôlego e depois não revisei. Mesmo quando a gráfica pediu, olhei somente se algum texto fora suprimido. Só lamento não ter conseguido todas as fotografias que tinha imaginado, pois minha intenção era colocá-las na mesma sequência dos fatos. Também é preciso dizer que só estão no livro os fatos dos quais participei pessoalmente e com o olhar da gestão, pois ocupei cargos diretivos desde 1979, portanto, apenas três anos depois de iniciar minha carreira.
E como foi essa trajetória de 37 anos?
Eu me formei em 1975 pela Universidade Estadual de Mato Grosso, que depois se tornou a Federal de Mato Grosso do Sul. Meu primeiro emprego foi como médica da atenção básica, na unidade de saúde do Bairro Santa Fé. Fazia o que hoje faz o médico da família: visitas domiciliares, palestra na sala de espera, roda de gestantes e de amamentação, etc. Depois de um tempo, tinha fila de pacientes que procuravam “a médica que põe a mão na gente” e a gestão municipal me transferiu para a Secretaria de Saúde, onde fui trabalhar com estatísticas vitais. Com a divisão do Mato Grosso, passamos a ter gestão estadual de saúde, e eu fui convidada pelo Dr. Jorge Nasser para fazer o mesmo trabalho no nível estadual. Com a queda do governador Harry Amorim Costa, em junho de 1979, fui lotada na Secretaria de Desenvolvimento Social para trabalhar na área de geração de empregos. Fiz isso por dois anos e retornei à saúde, na qual permaneci até 1988, quando prestei concurso para o Ministério da Saúde – Fundação Sesp. Com a fusão Sesp/Sucam, veio a Funasa, onde fui coordenadora estadual. Em 1998, o então prefeito André Puccinelli me convidou para ser secretária municipal de Saúde de Campo Grande, cargo que ocupei até 2004. Fui então para Brasília, onde atuei como assessora do Conassems, um conselho que representa os secretários municipais de saúde de todo o Brasil, ficando por lá por dois anos. Voltei para assumir a gestão estadual da saúde, de onde saí em julho de 2013. Durante todo esse tempo, também dava aulas na FUCMT, hoje UCDB (de 1978 a1988), e atuava como médica voluntária no Hospital São Julião.
Isso tudo está no livro?
De certa forma sim, mas o livro não é uma autobiografia. É um relato dos acontecimentos da gestão pública da saúde nos quais tive participação. Eu acho que é um registro histórico, feito de forma emocional.
Este livro estará disponível em livrarias?
Não. Tomei essa iniciativa, sem qualquer patrocínio e eu mesma irei distribuí-lo às pessoas ligadas à saúde pública aqui em Mato Grosso do Sul e em alguns lugares do Brasil, por onde andei e conheci pessoas apaixonadas pela saúde pública como eu.
E você pretende continuar a escrever?
Não tenho a pretensão de ser escritora, mas organizei e participei como autora de outro livro, que está pronto para ir à gráfica. São 12 artigos escritos por 27 profissionais de saúde que participaram dos eventos mais importantes da gestão na saúde estadual, de 2007 a 2013, e que tiveram destaque nacional. Também escrevi uma autobiografia, mas acho que nunca terei coragem de publicá-la. Serve apenas para reviver recordações significativas.
E como você avalia a saúde em Mato Grosso do Sul?
Nós temos muitos avanços, mas também muitos desafios. Faltam recursos no Estado e nos municípios. A reforma tributária é necessária e também é preciso haver mais recursos federais para implantação e manutenção de serviços. Precisa haver mais solidariedade entre os municípios na pactuação dos atendimentos. Precisamos melhorar a regulação, pois ela deve facilitar o acesso dos pacientes e não cerceá-lo. Precisamos, urgentemente, diminuir os acidentes de trânsito, pois o trauma desorganiza os hospitais que passam a atender de maneira desumana por conta da superlotação. Precisamos de uma atenção básica mais resolutiva e responsável. Precisamos de um sistema de transporte sanitário, para acabar com a forma horrível de transporte de pacientes que existe hoje. Mas, sem modéstia, porque foi um trabalho de equipe, muitas soluções já foram pensadas nessa gestão que está por terminar – não houve aporte financeiro para colocar tudo em prática. Por isso, faço um apelo para quem assumir o governo em 2015: aproveite o que for bom, não desconsidere o trabalho de uma equipe que se dedicou ao máximo nos últimos oito anos. Caminhe daqui para frente. Mato Grosso do Sul merece uma saúde cada vez melhor.