Presidente da Seleta Sociedade Caritativa e Humanitária, Gilbraz Marques da Silva, foi detido e encaminhado à Delegacia de Polícia Civil por posse irregular de arma de fogo. Equipes do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) encontraram revólver e munições em cofre na casa do presidente e em sua sala na Seleta na tarde de hoje.
Flagrante aconteceu durante cumprimento de mandado de busca e apreensão, no âmbito da operação Urutau, deflagrada hoje pelo Gaeco como parte das ações de investigação de esquema de desvio de dinheiro público e enriquecimento ilícito por meio de entidades filntrópicas.
Advogado que representa a entidade, Laudson Ortiz, disse ao Portal Correio do Estado que Gilbraz foi conduzido à delegacia, assinou o termo de flagrante e foi liberado depois do pagamento de fiança.
Na casa de Gilbraz foram encontrados um revólver calibre .38 oxidado carregado com cinco munições intactas e coldre de material sintético dentro de cofre. Ele alegou que ganhou a arma de um parente e que não sabia onde se encontrava ou não tinha o registro de posse.
Já em busca e apreensão na Seleta, na sala da presidência, que era ocupada por Gilbraz, foi encontrada também dentro do cofre uma munição de arma de calibre .38.
Revólver e munições foram apreendidos e entregues na Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) do Centro, onde caso foi registrado.
Maria Aparecida Salmaze, diretora da Organização Mundial para Educação Pré-escolar (Omep); Ana Cláudia Pereira da Silva, contadora da Sociedade Caritativa e Humanitária (Seleta) e Kelly Ribeiro Pereira, responsável por organização não governamental que administra a creche Nossa Senhora Aparecida do Perpétuo Socorro, foram presas temporariamente e estão no Estabelecimento Penal Feminino Irmã Irma Zorzi, onde devem permanecer até domingo.
INVESTIGAÇÃO
De acordo com o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, as ações envolvendo diretores e pessoas ligadas à Omep e à Seleta são desdobramentos de investigação que já estava em andamento.
Tramita na Vara de Execuções Penais pedidos de quebra de sigilo telefônico e escuta autorizada, de onde foram colhidas informações que reforçaram movimentação milionária, com indícios de crimes.
Segundo o Ministério Público Estadual (MPE), recibos de prestação de serviços nos Centros de Educação Infantis (Ceinfs) em valores elevados não retratavam os serviços efetivamente prestados. Uma das unidades fazia uso de notas frias de serviços variados para desviar valores, comportamento que ocorreria desde outras administrações municipais.
Na operação deflagrada hoje, policiais e promotores cumpriram sete mandados de condução coercetiva e outros 14 de busca e apreensão de documentos, além dos três de prisão temporária. Um dos mandados, inclusive, foi cumprido no gabinete da vereadora Magali Picarelli (PSDB), na Câmara da Capital.
Desde 2011 o MPE cobra medidas para enxugar as contratações da Seleta, que deveria contratar pessoal por meio de concurso público.
Município e a Seleta resistiram por anos em resolver a questão e mantiveram milhares de contratados, a partir de recursos recebidos em convênio firmado com a SAS. Nas investigações, MPE descobriu que muitos dos servidores contratados não prestam serviços em atividades ligadas ao convênio e outros vários não trabalham para a Seleta, sendo funcionários fantasmas.
APURAÇÃO FINANCEIRA
Relatório da inteligência financeira, elaborado pelo Controle de Atividade Financeira (Coaf), mostra solicitações de grandes quantidades de valores em espécie, o que contraria a conduta esperada de uma ONG e indica a possibilidade de desvio de valores.
Além disso, informes do Coaf confirmam denúncias que as entidades são utilizadas para desvios de dinheiro público, com contratação fictícia de empresas e pessoas.
Soma-se aos indícios de prática criminosa a confirmação de contratações irregulares averiguadas em processo, onde juiz determinou cronograma de demissões e rescisões de contratos depois de verificar contratação de mais de quatro mil pessoas que não atendiam a finalidade de uma ONG.
Nos áudios anexados ao processo, foram detectados acordos para combinar depoimentos e alinhar versões a serem apresentadas.
Além dos dados do COAF e não localização de pessoal em qualquer local de trabalho, MPE verificou adulteração de ponto, informações falsas e desvio de dinheiro público, tudo em grandes proporções. Esquema também envolvia creches e empresas supostamente prestadoras de serviços.
Celulares dos investigados foram apreendidos e será feita análise das mensagens trocadas, em especial pelo WhatsApp.