Cidades

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25% dos adolescentes consomem álcool de forma regular; meninas bebem com mais frequência

Os principais locais de consumo são festas, bares e, muitas vezes, a própria casa, com o incentivo ou tolerância de familiares

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Mais da metade da população brasileira, cerca de 56%, experimentou bebidas alcoólicas antes dos 18 anos de idade e cerca de um quarto, 25,5%, passou a beber de forma regular antes da maioridade. Os achados são do terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Entre as bebidas mais consumidas por adolescentes de 14 a 17 anos, a cerveja aparece em primeiro lugar, com 40,5% das menções Em seguida vêm as bebidas do tipo ice, com 31,9%; os destilados, como vodka, gim e uísque, com 30,2%; e o vinho, com 14,5%. No caso do ice, a pesquisa ressalta que o sabor adocicado e o forte apelo comercial favorecem o consumo entre os mais jovens.

Os principais locais de consumo são festas, bares e, muitas vezes, a própria casa, com o incentivo ou tolerância de familiares. A influência dos amigos e do ambiente escolar também é destacada pelo estudo como um fator determinante.

O estudo, realizado com mais de 16 mil entrevistados em todo o País, mostra ainda que cerca de 75% dos jovens não tiveram nenhuma dificuldade em comprar os produtos.

Além disso, 23,3% dos brasileiros que bebem e 23,5% dos adolescentes relataram já ter comprado bebidas por preço muito abaixo do normal, indicando riscos de adulteração e contrabando. Cerca de 12% daqueles que bebem referiram que conseguiram bebidas por um preço abaixo do mercado por meio de contrabando e 10,4% dos brasileiros que pagaram valores inferiores disseram ter conhecimento de que compraram bebidas falsificadas.

Meninas bebem com mais frequência

Entre adolescentes de 14 a 17 anos, as meninas bebem com mais frequência. De acordo com o levantamento, 29,5% das meninas nessa faixa etária já haviam experimentado álcool, contra 25,8% dos meninos. Cerca de 21,6% das meninas relataram consumo no último ano, frente a 16,7% dos meninos. No último mês, os índices foram de 12,4% entre as garotas e 8,5% entre os garotos

Por outro lado, os episódios de consumo pesado (seis ou mais doses de álcool em uma mesma ocasião) foram mais prevalentes entre meninos (38,2%) do que entre meninas (31,2%). Isso indica que, apesar de as adolescentes beberem com mais frequência, os meninos tendem a ingerir quantidades maiores quando bebem.

Os pesquisadores alertam que o uso precoce de álcool está ligado a maiores chances de dependência na vida adulta. Outro ponto importante é a associação entre o consumo de álcool e comportamentos de risco, como dirigir sob efeito de bebida, violência, sexo desprotegido e evasão escolar.

"Os adolescentes desenvolvem mais transtornos (associados ao álcool), independentemente de classe social, educação e sexo", destaca Clarice Madruga, coordenadora do Lenad e professora na Unifesp.

Olivia Pozzolo, psiquiatra e médica pesquisadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), ressalta que cérebro do adolescente ainda está em formação e o consumo de bebidas alcoólicas interfere nas áreas ligadas à memória, atenção e controle de impulsos. "Isso pode deixar marcas duradouras: mais dificuldade de aprender, comportamento mais impulsivo e alterações de humor", diz.

"A mensagem é direta: álcool não é seguro na adolescência e vale proteger esse período com limites claros em casa e supervisão da venda e do uso", adiciona Olivia.

Práticas ilícitas

Clarice ressalta que o álcool não é a única substância ou prática ilícita à qual os adolescentes têm acesso. Eles também têm contato com o tabaco e as bets.

Segundo a pesquisa, 7,9% dos adolescentes de 14 a 17 anos já experimentaram tabaco alguma vez na vida, o que representa cerca de 1 milhão de jovens brasileiros. Desses, mais da metade (56%) relata uso de cigarros saborizados. Além disso, 37,6% dos fumantes adolescentes afirmam ter começado a fumar antes dos 14 anos.

Entre o público mais jovem, os cigarros eletrônicos (vapes) são um ponto de atenção. O Lenad aponta que 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos fizeram uso de dispositivos eletrônicos para fumar (DEF) no último ano, uma taxa maior do que entre adultos (5,4%). A prevalência é maior entre meninos (7,3%) do que meninas (4,1%)

Entre aqueles que experimentaram esses dispositivos, 76,3% relataram uso no último ano, e 31,8% no último mês, o que indica uma alta taxa de conversão para uso regular. O levantamento também mostra que 86,3% dos usuários consideram o acesso aos dispositivos fácil ou muito fácil, apesar de sua venda ser proibida no Brasil.

No caso das bets, os dados indicam que, mesmo sendo proibidos para menores de 18 anos, cerca de 10,9% dos adolescentes brasileiros já participaram de algum tipo de jogo de apostas.

As apostas esportivas online dominam o cenário entre adolescentes. Mais de 70% dos que apostaram usaram plataformas digitais, muitas vezes por meio de sites e aplicativos estrangeiros, o que dificulta a fiscalização. O percentual de meninos que relataram já ter apostado é superior ao de meninas: 15,7% contra 6,3%.

As principais motivações relatadas pelos jovens foram:

Curiosidade: 37%;

Influência de amigos: 28%;

Ganhar dinheiro: 25%.

Entre os jovens que já apostaram, 2,2% apresentaram sinais de comportamento problemático. Ou seja, mostram dificuldade em parar de jogar, mentem sobre o hábito ou apostam valores elevados. O estudo observa que o envolvimento precoce com essa prática está associado a maior risco de endividamento, evasão escolar e sintomas de ansiedade e depressão.

Políticas públicas

Segundo Clarice, a principal forma de contornar a situação é por meio de políticas públicas. "Todas as melhores práticas e os órgãos de referência internacional concordam que, quando se trata de acesso de adolescentes, as estratégias não devem ser voltadas diretamente para eles, como, por exemplo, programas de prevenção em escolas, que são importantes, mas não suficientes "

No caso das bebidas, por exemplo, as políticas devem atingir os responsáveis por vender os produtos. "Se não houver uma política mais rígida contra, por exemplo, venda informal de 'litrão' na frente da escola ou contra venda de vape na banca de jornal da esquina da escola, não adianta o programa escolar ser maravilhoso. Tem que ter políticas de restrição de acesso ambiental", defende a pesquisadora.

Direito do Consumidor

Uma semana após temporal, prejuízos com aparelhos ainda podem ser ressarcidos

Pedido à Energisa pode ser feito em até 90 dias

17/09/2026 18h30

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Uma semana após o temporal que deixou prejuízos em Campo Grande, consumidores que tiveram aparelhos eletrônicos danificados por oscilações ou interrupções no fornecimento de energia ainda podem pedir ressarcimento à Energisa. O prazo para fazer a solicitação é de até 90 dias após a ocorrência.

De acordo com informações da Energisa, para fazer a solicitação, o consumidor precisa informar a data e o horário em que percebeu o problema, o número da unidade consumidora, a marca e o modelo do aparelho e descrever o dano apresentado. O pedido pode ser feito pelo telefone 0800 722 7272, pelo aplicativo Energisa On ou presencialmente em uma das agências da empresa.

Em entrevista ao jornal Correio do Estado, o advogado especialista em direito do consumidor Leandro Provenzano, reforçou que a concessionária possui um procedimento próprio para verificar os danos relatados. Após a solicitação, pode ser enviado um técnico ao imóvel para avaliar os equipamentos.

“Normalmente, o problema não está simplesmente na falta de energia, mas na volta da energia com uma carga acima do normal, que pode causar a queima do aparelho”, explicou.

De acordo com o advogado, a principal dificuldade enfrentada pelo consumidor é demonstrar que o dano no equipamento ocorreu em razão da interrupção ou oscilação no fornecimento de energia. Por isso, registros do ocorrido e, quando possível, uma avaliação técnica podem ajudar na comprovação.

“É importante ter alguma forma de demonstrar que aquele aparelho estava funcionando e que o problema aconteceu justamente depois da oscilação ou da interrupção de energia”, afirmou Provenzano.

Caso o pedido administrativo não seja aceito pela concessionária, o consumidor ainda pode buscar a Justiça. O advogado explica que, nesses casos, a discussão passa principalmente pela comprovação da relação entre o problema no fornecimento e o dano causado ao equipamento.

Rastro de prejuízos

A chuva intensa veio acompanhada de granizo e fortes rajadas de vento, derrubou árvores, danificou estruturas e provocou interrupções no fornecimento de energia em diferentes regiões da Capital.

Segundo o Inmet, as rajadas chegaram a 83,88 km/h. O episódio foi acompanhado de intensa atividade elétrica, com mais de 3 mil raios registrados em apenas 36 minutos.

Os reflexos na rede elétrica permaneceram por vários dias. Em reportagem publicada pelo Correio do Estado na sexta-feira (11), moradores relatavam estar há quase 24 horas sem energia. Naquele momento, a Energisa informava que 77% dos clientes afetados já haviam tido o serviço restabelecido.

No sábado (12), o índice havia chegado a 95,9%. No domingo (13), a concessionária informou que 99,2% dos clientes afetados já estavam com energia, enquanto moradores de bairros como Jardim Vilas Boas e Vila Nogueira ainda enfrentavam apagões. Na segunda-feira (14), o percentual chegou a 99,9%, mas ainda havia registros pontuais de moradores sem fornecimento.

Chuva ainda pode voltar

O cenário de instabilidade não terminou com o temporal da semana passada. Na previsão mais recente, divulgada pelo Inmet nesta quinta-feira (17), Mato Grosso do Sul deve enfrentar aumento da instabilidade a partir de amanhã, sexta-feira (18), com previsão de chuva e trovoadas ao longo do dia.

O instituto emitiu aviso amarelo de perigo potencial para tempestades para todo o Estado na sexta-feira. A previsão indica possibilidade de chuva acompanhada de trovoadas, o que mantém a atenção para novos impactos sobre a rede elétrica e outros serviços.

O Inmet também aponta mínima de 17°C para Campo Grande na sexta-feira. A mudança está relacionada ao avanço de uma nova configuração atmosférica que deve favorecer a formação de áreas de instabilidade em MS.

Expansão no Pantanal

Mineradora planeja expansão de R$ 1,9 bi no Pantanal sob denúncias de moradores

Projeto prevê elevar capacidade do terminal para 15 milhões de toneladas por ano, enquanto MPF investiga possíveis danos ambientais na comunidade de Porto Esperança.

17/09/2026 18h13

Vista aérea mostra a proximidade entre estruturas operacionais e a comunidade de Porto Esperança, às margens do Rio Paraguai.

Vista aérea mostra a proximidade entre estruturas operacionais e a comunidade de Porto Esperança, às margens do Rio Paraguai. Foto: Divulgação.

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Enquanto moradores de Porto Esperança recorrem à Justiça alegando prejuízos provocados pela atividade minerária, a LHG Mining prepara uma expansão de R$ 1,9 bilhão no Terminal Privativo Gregório Curvo, instalado às margens do Rio Paraguai, em Corumbá. O empreendimento fica ao lado de Porto Esperança, distrito localizado a cerca de 80 quilômetros da área urbana de Corumbá, no Pantanal sul-mato-grossense.

Documentos do licenciamento ambiental analisados pelo Correio do Estado mostram que o projeto prevê intervenções de grande porte justamente em uma região onde a comunidade convive diretamente com a operação do porto.

O Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) da expansão coloca Porto Esperança no centro dos efeitos socioambientais do empreendimento.

Em um dos programas propostos, o próprio documento afirma que a comunidade será “mais impactada pelo empreendimento” e prevê ações específicas de acompanhamento da população. 

A proximidade aparece de maneira ainda mais concreta no estudo de ruído: segundo o Rima, os receptores de Porto Esperança mais próximos da área do projeto estão localizados a partir de aproximadamente 15 metros do empreendimento. A Área de Influência Direta (AID) para ruído foi estabelecida em um raio de 750 metros. 

É nesse cenário que o advogado Matheus Viana, responsável por 30 ações de moradores contra a mineradora por reparação de danos, classifica como insuficientes os benefícios que a empresa vem entregando à comunidade.

Para ele, as iniciativas representam “uma tentativa fajuta de tapar o sol com a peneira” diante das reclamações relacionadas à poeira, ao tráfego de carretas e às mudanças na rotina de quem vive no distrito.

“O apoio à comunidade ajuda, mas e a saúde das pessoas respirando por 24 horas o pó do minério que circula no ar e está impregnado nas casas?”, questiona Viana.

Vista aérea mostra a proximidade entre estruturas operacionais e a comunidade de Porto Esperança, às margens do Rio Paraguai.Advogado Matheus Viana conversa com moradora de Porto Esperança durante visita à comunidade, em Corumbá. Foto: Divulgação.

“Os moradores nunca tiveram acesso a uma consulta médica com pneumologista ou outro especialista para medir os efeitos físicos da poeira e iniciar um tratamento preventivo. A fiscalização também é omissa em relação ao impacto ambiental no Pantanal e no rio”, acrescenta.

As afirmações sobre eventuais consequências à saúde representam a posição do advogado e dos moradores que ele representa. Os documentos analisados pela reportagem não estabelecem, por si só, nexo causal entre a operação da mineradora e problemas de saúde na população.

Poeira é apontada como principal poluente do projeto

Embora não comprove as consequências à saúde alegadas pelos moradores, o próprio estudo ambiental reconhece a poeira como um dos pontos que precisam ser controlados.

No capítulo que delimita as áreas de influência da qualidade do ar, o Rima classifica a poeira como o “principal poluente do projeto” e apresenta uma modelagem computacional para estimar como o material particulado poderá se dispersar após a expansão do terminal. 

O documento também estabelece um Programa de Controle das Emissões Atmosféricas e Monitoramento da Qualidade do Ar, cuja justificativa inclui a geração de poeira e gases de combustão veicular pelas atividades previstas na ampliação.

Um dos pontos mais relevantes é que o monitoramento deverá ocorrer continuamente em Porto Esperança, justamente para avaliar a eficiência das medidas de controle e identificar eventuais alterações na qualidade do ar. 

Por outro lado, as projeções apresentadas no Rima indicam que, na operação futura, as médias anuais de concentração de poeira permanecerão abaixo dos limites legais.

O estudo também prevê redução das emissões quando parte significativa do transporte rodoviário for substituída pelo ferroviário.

Entre as medidas propostas estão aspersão das vias, cobertura das cargas e monitoramento da qualidade do ar. 

Porto deve movimentar 15 milhões de toneladas por ano

A LHG Mining, mineradora do grupo J&F, dos empresários Joesley e Wesley Batista, assumiu em 2022 ativos de mineração anteriormente pertencentes à Vale, entre eles a operação ligada ao Terminal Privativo Gregório Curvo, em Porto Esperança. Desde então, a companhia vem ampliando sua estrutura logística para escoar a produção de minério pelo Rio Paraguai.

Agora, o projeto submetido ao licenciamento prevê elevar a capacidade de embarque do terminal para 15 milhões de toneladas de minério por ano. O próprio Rima relaciona esse aumento à ampliação da logística ferroviária necessária para atender à operação.

O investimento previsto é de aproximadamente R$ 1,9 bilhão e envolve uma nova configuração logística, com pátios de estocagem, peneiramento, pera ferroviária, estruturas portuárias e píer.

O projeto passa pelo processo de licenciamento ambiental conduzido pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul).

Cabe ao órgão estadual analisar os estudos apresentados pela empresa, avaliar os impactos ambientais e as medidas propostas para evitá-los, reduzi-los ou compensá-los e decidir sobre a emissão das licenças necessárias para a implantação da expansão.

Como parte desse processo, o Imasul realizou, em 11 de junho de 2026, uma audiência pública para apresentação e discussão do Relatório de Impacto Ambiental (Rima) da ampliação do Terminal Privativo Gregório Curvo.

O encontro ocorreu no Centro de Convenções do Pantanal de Corumbá, Miguel Gómez, com participação presencial e virtual, e abriu espaço para que a população conhecesse o projeto e apresentasse dúvidas, críticas e sugestões.

A conclusão apresentada no Rima de que o empreendimento é ambientalmente viável, porém, não representa, por si só, autorização definitiva para a execução da expansão.

O estudo também não estabelece uma data para o início das obras nem informa quando a nova estrutura deverá ser concluída e alcançar a capacidade projetada de 15 milhões de toneladas por ano. A implantação depende do andamento do licenciamento ambiental.

A Área Diretamente Afetada (ADA), segundo o estudo, compreende terrenos da LHG onde serão instaladas essas estruturas.

Já a Área de Influência Direta engloba regiões onde os efeitos podem ser mais intensos, como ruído, poeira, alterações na drenagem superficial e interferências no trecho próximo do Rio Paraguai decorrentes de dragagem e movimentação de sedimentos.

A empresa projeta que o avanço da ferrovia reduzirá gradualmente a dependência de caminhões. Atualmente, porém, o transporte rodoviário é justamente um dos principais motivos de reclamação dos moradores

Compensação ambiental supera R$ 21 milhões

O processo de licenciamento da expansão avançou neste ano. Em termo assinado em 14 de agosto de 2026, o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) estabeleceu em R$ 21,5 milhões a compensação ambiental relacionada ao empreendimento da LHG Mining em Corumbá.

O documento oficial vincula a medida à atividade de porto fluvial com área útil superior a 100 mil metros quadrados e cita expressamente o Processo de Licença de Instalação (LI Ampliação) nº 486/2025, fundamentado no Estudo de Impacto Ambiental e no Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).

Para calcular a compensação, o Imasul considerou como valor de referência do empreendimento cerca de R$ 1,9 bilhão e estabeleceu grau de impacto de 1,129%.

O resultado foi uma compensação ambiental de aproximadamente R$ 21,6 milhões, destinada a unidades de conservação. O termo tem vigência de 48 meses.

 “Estão entregando migalhas”

Enquanto avança com o projeto bilionário, a mineradora também passou a realizar intervenções comunitárias em Porto Esperança.

Em junho deste ano, a LHG implantou um playground, uma academia ao ar livre e um espaço de convivência no pátio que anteriormente integrava a área operacional da antiga estação ferroviária. Também participou, em parceria com a prefeitura, da reforma da escola municipal.

Vista aérea mostra a proximidade entre estruturas operacionais e a comunidade de Porto Esperança, às margens do Rio Paraguai.Playground está entre as melhorias realizadas na comunidade de Porto Esperança. Foto: Divulgação.

Entre outras ações divulgadas pela empresa estão a substituição da tubulação da rede de abastecimento de água, a reforma de uma ponte de madeira sobre um curso d’água e a entrega de materiais esportivos ao município.

Para Viana, porém, a dimensão das iniciativas não corresponde aos impactos relatados pela população.

“A mineradora está usando os canais da mídia para tentar limpar sua imagem com essas ações comunitárias. Enquanto isso, o tráfego de caminhões entre as minas e o porto se intensifica para cumprir metas de exportação a todo custo. Estão entregando migalhas à população, que está sendo sufocada e pressionada a deixar o lugar”, afirma.

Segundo ele, uma das medidas atualmente utilizadas para conter a poeira é o umedecimento da estrada de terra de acesso à comunidade.

“Na verdade, o que oferecem para os moradores não é nada diante da gravidade da situação exposta e do lucro substancial e exorbitante que obtém”, declara.

Rima prevê retirada de 66 hectares de vegetação

A documentação ambiental revela também a dimensão física das intervenções necessárias para ampliar o terminal. O Rima estima a retirada de aproximadamente 66,5 hectares de vegetação nativa, equivalentes a 2,3% das formações nativas existentes na área analisada. Desse total, 18,9 hectares correspondem a Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Segundo o próprio estudo, a intervenção atingirá vegetação ciliar aluvial, formação vegetal encontrada às margens de rios e outros cursos d’água, em áreas que podem ficar alagadas em épocas de cheia, e poderá afetar espécies associadas a esses ambientes.

Vista aérea mostra a proximidade entre estruturas operacionais e a comunidade de Porto Esperança, às margens do Rio Paraguai.Estrada corta área de vegetação na região de Porto Esperança, em Corumbá. Foto: Divulgação.

O Rima é explícito ao reconhecer que, durante a implantação, haverá retirada de vegetação e intervenções em cursos hídricos, ações que provocarão mudanças e até perda de locais utilizados por animais e plantas. Como resposta, são previstos programas de resgate, manejo e monitoramento de fauna e flora. 

Corixos e Rio Paraguai estão na área de influência

Outro ponto chama atenção quando os documentos são confrontados com as preocupações apresentadas pelos moradores: os corixos, canais naturais fundamentais para a circulação da água na planície pantaneira.

Ao delimitar a influência da expansão sobre o relevo, os solos e os recursos hídricos, o estudo inclui expressamente corixos e áreas de vazante na porção terrestre sujeita à interferência direta do empreendimento.

No trecho fluvial, a Área de Influência Direta alcança a parte do Rio Paraguai onde são esperados efeitos da dispersão de sedimentos. A área indireta avança rio abaixo e alcança planícies de inundação onde poderão ocorrer efeitos associados a mudanças na circulação das águas. 

O próprio Rima destaca a importância dessa rede hídrica. Segundo o estudo, o Rio Paraguai funciona como a “espinha dorsal do Pantanal”, controlando os níveis da planície e conectando baías, lagoas, corixos e vazantes, dinâmica considerada essencial para a fauna da região. 

Dragagem e erosão serão monitoradas

A ampliação também envolve dragagens de manutenção do calado nas proximidades do terminal. Na prática, são retirados sedimentos acumulados no fundo do rio para manter a profundidade necessária à navegação e às manobras das embarcações que transportam o minério.

O estudo prevê que, durante a implantação, a movimentação de terra e a retirada de vegetação elevarão o potencial de erosão pela exposição do solo, principalmente no período chuvoso.

Na operação, as dragagens e a movimentação de sedimentos poderão provocar interferências pontuais nos recursos hídricos, incluindo aumento temporário da turbidez da água. 

Por causa desses riscos, a LHG propôs um Programa de Monitoramento Hidrossedimentológico, Controle de Processos Erosivos e Assoreamento.

O programa deverá acompanhar o trecho do Rio Paraguai influenciado pelo terminal para prevenir e mitigar erosão, assoreamento, alterações das margens e mudanças na qualidade da água.

Também deverá avaliar se dragagens, obras e circulação de embarcações influenciam os processos erosivos e a deposição de sedimentos. 

Outro programa prevê acompanhamento contínuo da qualidade da água superficial, incluindo corixos, Rio Paraguai e drenagens locais, e dos sedimentos de fundo da área portuária e adjacências.

O objetivo declarado é identificar se eventuais mudanças estão relacionadas às atividades do empreendimento. 

MPF investiga conflito entre mineradora e comunidade

As divergências entre a mineradora e os moradores já ultrapassaram as reclamações locais e chegaram ao Ministério Público Federal (MPF). Atualmente, há dois inquéritos civis distintos envolvendo a atuação da LHG Mining em Porto Esperança.

O primeiro teve a conversão em inquérito determinada pelo MPF em 2025 e foi publicado no Diário do Ministério Público Federal em 14 de agosto daquele ano.

O procedimento nº 1.21.004.000156/2024-51 apura uma possível invasão da área ocupada pela comunidade ribeirinha pela mineradora, inclusive com a instalação de cercas próximas às casas situadas na antiga vila ferroviária.

O MPF determinou novas diligências para obtenção de elementos de prova antes da eventual adoção de medidas judiciais.

Já em 2 de março de 2026, o MPF publicou a instauração de outro inquérito civil, originado da Notícia de Fato nº 1.21.004.000311/2024-39, após diligência realizada na comunidade.

Neste caso, a investigação é ambiental e apura possíveis danos relacionados às atividades da LHG, entre eles uso de rejeito de minério em estrada, supressão de vegetação em Área de Preservação Permanente (APP), soterramento de recursos hídricos, os chamados corixos, e erosão das margens do Rio Paraguai.

Os dois procedimentos permanecem no campo investigativo e não representam, por si só, conclusão de que as irregularidades tenham ocorrido ou atribuição definitiva de responsabilidade à mineradora.

Paralelamente, Matheus Viana afirma representar moradores em 30 ações contra a LHG, nas quais são pleiteadas reparações pelos danos que alegam ter sofrido.

Os processos foram extintos em primeira instância sem julgamento do mérito, mas, segundo o advogado, a discussão prossegue no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).

Porto Esperança sente transformação de perto

Porto Esperança, que reúne cerca de 121 moradores distribuídos em 54 famílias, nasceu no início do século passado em torno da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, às margens do Rio Paraguai. Com a perda da importância da ferrovia, o povoado enfrentou décadas de isolamento e encontrou na pesca e no turismo uma das alternativas de sobrevivência.

Agora, o distrito passa por outra transformação. Os moradores representados por Viana relatam aumento do fluxo de carretas, poeira sobre casas e ruas, perda do sossego e prejuízos às atividades ligadas ao turismo de pesca.

Vista aérea mostra a proximidade entre estruturas operacionais e a comunidade de Porto Esperança, às margens do Rio Paraguai.Moradores de Porto Esperança estão entre os que reclamam da poeira registrada na comunidade. Foto: Divulgação.

A preocupação com mudanças sociais provocadas pelo empreendimento também aparece no próprio Rima.

O Programa de Monitoramento de Indicadores Socioeconômicos foi criado para acompanhar alterações ambientais e o aumento da circulação de pessoas que possam provocar incômodos e pressão sobre os serviços públicos, além de mudanças em infraestrutura, emprego, renda e população vulnerável. 

O projeto também prevê prioridade na contratação de moradores de Porto Esperança e Albuquerque, além de um programa específico de gestão de tráfego e segurança nas vias de acesso ao terminal. 

No documento ambiental, a expectativa é que a utilização predominante da ferrovia na operação futura reduza a circulação de veículos pesados e, consequentemente, a emissão de poeira, ruído e vibrações. 

Até que essa mudança logística se concretize, entretanto, é o movimento rodoviário atual que alimenta parte das reclamações dos moradores.

Comunidade reconhece avanços, mas ainda cobra melhorias

Em conversa com o Correio do Estado, a presidente da Associação de Moradores da Comunidade Tradicional dos Corixeiros de Porto Esperança, Ingred Oliveira, avaliou que a comunidade atravessa um período de mudanças, com avanços recentes, mas ainda convive com demandas que precisam sair do papel, principalmente nas áreas de infraestrutura e educação.

“Hoje, vejo Porto Esperança vivendo um momento de mudanças importantes. Temos algumas demandas que ainda precisam avançar, principalmente relacionadas à infraestrutura e à educação, como a oferta de ensino médio para os nossos jovens. Mas também precisamos reconhecer que muitas coisas estão acontecendo e que algumas melhorias já podem ser percebidas no dia a dia”, afirmou.

Um dos pontos destacados pela presidente é a estrada de acesso à comunidade. Segundo ela, a umectação passou a ser realizada durante 24 horas, medida que reduziu os transtornos provocados pela poeira.

Apesar da melhora, Ingred reconhece que a situação ainda provoca divergências entre os próprios moradores, principalmente por causa da grande quantidade de carretas que circulam pelo local.

“A umectação 24 horas vem melhorando bastante as condições de acesso e trazendo mais tranquilidade para os moradores. Claro que ainda existe polêmica, porque é difícil agradar a todos. O que ainda pesa bastante é o fluxo de carretas, que é muito grande”, explicou.

Ingred disse ainda ter recebido informações de que a quantidade de caminhões circulando pela região deverá diminuir à medida que o projeto de expansão avance, diante da expectativa de retomada do transporte ferroviário de cargas.

“Hoje tive a informação de que, com o avanço da expansão, esse fluxo vai diminuir muito, até porque o trem de carga vai voltar a operar. É importante reconhecer quando uma demanda da comunidade começa a ser atendida e os resultados aparecem. Também não podemos fingir que nada está acontecendo”, acrescentou.

Além da situação da estrada, a representante dos moradores citou outras mudanças recentes em Porto Esperança, como a reforma da escola e intervenções no sistema de abastecimento de água.

“Tivemos recentemente a entrega da reforma da nossa escola, melhorias no abastecimento de água, com a renovação dos encanamentos pela Sanesul, além de ações importantes nas áreas de saúde, qualificação profissional e outras iniciativas. Para uma comunidade como Porto Esperança, essas melhorias têm um significado muito grande, porque beneficiam diretamente nossas crianças, nossas famílias e toda a população”, disse.

À frente da associação, Ingred afirma que tem buscado interlocução tanto com o poder público quanto com as empresas que atuam na região.

Segundo ela, a posição da entidade não é de oposição à atividade portuária ou à mineração, mas de cobrança para que o desenvolvimento também se reflita na vida de quem mora em Porto Esperança.

“Não somos contra o desenvolvimento e reconhecemos a importância das atividades portuárias e de mineração, mas queremos que quem mora aqui também seja ouvido, respeitado e beneficiado por esse crescimento. A nossa intenção é que o desenvolvimento da região aconteça junto com a comunidade”, ressaltou.

Sobre a relação com a LHG Mining, a presidente disse que existem reivindicações que permanecem em discussão, ao mesmo tempo em que reconheceu ações realizadas pela mineradora na comunidade.

“Com a LHG Mining, temos buscado manter justamente esse diálogo. Existem demandas que ainda precisam continuar sendo discutidas, mas também reconhecemos as ações e o apoio que a empresa vem dando à comunidade. Acredito que uma relação construída com diálogo, respeito e transparência é o melhor caminho para todos”, afirmou.

Ingred também destacou que considera papel da associação não apenas apresentar reclamações, mas acompanhar as transformações e reconhecer medidas consideradas positivas pelos moradores.

“Como presidente da associação, meu papel é ouvir os moradores, levar nossas reivindicações e também reconhecer aquilo que está sendo feito de positivo. A comunidade quer ser parceira, quer participar das decisões e quer ver Porto Esperança crescendo sem perder sua história e sua identidade”, pontuou.

Para os próximos anos, a expectativa, segundo ela, é que os investimentos realizados na região resultem em benefícios permanentes para os moradores, sobretudo em infraestrutura, oportunidades de trabalho e qualidade de vida.

“Queremos mais oportunidades, infraestrutura, qualidade de vida e, principalmente, um olhar permanente para as famílias que vivem aqui. Porto Esperança tem história, tem pessoas trabalhadoras, tem crianças e famílias que acreditam no futuro daqui. O que queremos é que esse futuro seja construído junto com a comunidade”, finalizou.

Estudo considera expansão ambientalmente viável

Apesar dos impactos identificados, o Rimaconclui que a área prevista para expansão não apresenta restrições ambientais legais impeditivas e considera viável a implantação do projeto.

O estudo sustenta que os efeitos negativos poderão ser prevenidos, mitigados ou acompanhados por meio dos programas ambientais previstos e destaca, como efeitos positivos, geração de empregos, movimentação econômica e ampliação da infraestrutura ferroviária. 

Essa conclusão integra o estudo apresentado pelo empreendedor no processo de licenciamento ambiental e será analisada pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), órgão responsável por decidir sobre a licença necessária para a ampliação do terminal.

O que diz a LHG

Em resposta ao Correio do Estado, a LHG Mining afirmou que mantém medidas permanentes para controlar a poeira provocada por suas operações. Segundo a companhia, entre as ações estão a umectação das vias e a implantação de um sistema fixo de aspersão na estrada.

A mineradora também declarou que mantém diálogo constante com os moradores de Porto Esperança, com o objetivo de ouvir as demandas da comunidade e aprimorar as medidas adotadas.

Em relação às ações realizadas na região, a LHG informou ter promovido a revitalização do posto de saúde, a restauração da ponte de acesso à comunidade e da praça, que conta com academia ao ar livre e parque infantil, além da realização de cursos de capacitação e da reforma da Escola Municipal Polo Porto Esperança.

A empresa acrescentou que foram viabilizadas a doação de 56 caixas-d’água e a implantação de 7 quilômetros de rede de abastecimento de água potável, em parceria com a Sanesul.

Leia, na íntegra, a nota da LHG Mining:

Nota - Correio do Estado

A Lhg Mining adota medidas permanentes para o controle de poeira em suas operações, incluindo a umectação de vias e a implantação de sistema de aspersão fixa na estrada.

A companhia mantém diálogo constante com a comunidade, com foco na escuta das demandas locais e no aprimoramento contínuo das medidas adotadas. 

Entre as iniciativas estão a revitalização do posto de saúde, a restauração da ponte de acesso à comunidade, da praça com academia ao ar livre e parquinho infantil, a realização de cursos de capacitação e a reforma da Escola Municipal Polo Porto Esperança.

Também foram viabilizadas a doação de 56 caixas d’água e a implantação de 7 km quilômetros de rede de abastecimento de água potável, em parceria com a Sanesul.

 

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