Prestes a completar 45 dias sem comando definitivo, a Saúde de Campo Grande vive um caos, com a falta de leitos hospitalares e medicamentos. Diante disso, o Correio do Estado conversou com a titular da 57ª Promotoria de Justiça do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) e coordenadora do Núcleo de Apoio Especial à Saúde (Naes), Daniela Cristina Guiotti.
Em matérias recentes veiculadas pelo Correio do Estado, foi destacada a crise no setor. Por exemplo, na quinta-feira, havia quase 100 pessoas em leitos improvisados nos hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Centros Regionais de Saúde (CRSs).
Por casos semelhantes, o MPMS tem realizado diversos procedimentos e inquéritos durante este ano para apurar as negligências e necessidades no setor. Vale lembrar que um terço do orçamento do Município (cerca de R$ 2,1 bilhões de R$ 6,87 bilhões este ano, e de R$ 2,25 bilhões de R$ 6,97 bilhões previstos para 2026) é destinado à Saúde.
Atualmente, um Comitê Gestor formado por seis pessoas administra a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), desde a saída de Rosana Leite do cargo máximo da Pasta, no início de setembro. Porém, mesmo com diversos problemas aparentes, nenhuma proposta ou plano foi apresentado pelo grupo para tentar solucioná-los.
A promotora falou sobre o andamento das investigações que sua promotoria promove em relação à saúde pública na Capital e os pontos mais críticos do serviço atualmente.
Para Daniela Guiotti, a situação da saúde pública em Campo Grande é de total desrespeito ao cidadão. A promotora lembrou, também, da quantidade de ações judiciais atualmente em andamento.
“Há necessidade de uma gestão eficiente e técnica por parte da Secretaria de Saúde municipal. Precisamos que seja adotado um sistema eficiente de controle de estoques de medicamentos, já que hoje o controle é manual. A gestão municipal necessita urgentemente tratar o cidadão com respeito”, declarou ao Correio do Estado.
“O que se verifica hoje é o total desrespeito aos direitos básicos do cidadão, especialmente à saúde. Basta verificar os corredores da Santa Casa cheios de macas, as UPAs superlotadas, a falta de medicamentos básicos nas farmácias das Unidades Básicas de Saúde e dos Centros de Atenção Psicossocial. Longas filas de espera por exames de imagem, consultas especializadas e cirurgias. Liminares e decisões judiciais descumpridas. É esse hoje o cenário da saúde pública de Campo Grande”, completou.
Como está o andamento dos inquéritos que investigam a saúde pública em Campo Grande?
Em Campo Grande, há duas Promotorias de Justiça [PJ] exclusivas de saúde pública, sendo elas a 32ª PJ, de titularidade da Dra. Daniella Costa da Silva, e a 76ª PJ, de titularidade do Dr. Marcos Roberto Dietz. Em ambas as Promotorias de Justiça tramitam inúmeros inquéritos civis, procedimentos administrativos e notícias de fato que apuram deficiências ou irregularidades nos serviços de saúde públicos ou contratualizados.
Em todos eles, são realizadas inúmeras diligências, reuniões, vistorias, a fim de apurar a regularidade dos serviços de saúde ofertados aos usuários do SUS e exigidas providências dos gestores públicos para correção dos problemas constatados. Caso não se obtenha a regularização dos serviços durante a investigação, ações civis públicas são propostas com este objetivo.
Registra-se que tramitam inúmeras ações civis públicas em Campo Grande na área da saúde pública, e várias versam sobre as demandas reprimidas nas diversas especialidades médicas, citando-se oftalmologia, ortopedia, cirurgia bariátrica, psiquiatria, entre outras. Também tramita uma ação civil pública desde 2014, ainda pendente de julgamento, para obrigar Estado e Município a implementarem mais de 800 leitos gerais.
Qual é a pior situação pelo que conseguiu ver nas investigações: falta de leitos, demora para conseguir consulta com especialista ou demora para exames e cirurgias?
Atualmente, há inúmeros problemas graves na saúde pública de Campo Grande. Citam-se o desabastecimento de medicamentos da rede municipal de saúde, a falta de leitos, a superlotação dos hospitais, grandes filas de espera por consultas, exames e cirurgias, entre outros. Outro grave problema é a crise financeira da Santa Casa.
Sobre a investigação que trata sobre a falta de leitos em Campo Grande, a prefeitura já encaminhou algum tipo de informação sobre como espera resolver essa situação?
Sobre a falta de leitos, a gestão municipal informou que construirá um hospital municipal, porém este projeto ainda não saiu do papel. Importante registrar que neste ano de 2025 foi proposta uma ação civil pública pela 32ª Promotoria de Justiça, objetivando a implementação de novos leitos pediátricos e de UTIs pediátricas em Campo Grande, dada a insuficiência desses leitos, constatada nos primeiros meses do ano para atendimento das síndromes respiratórias graves em crianças.
Não obstante, até o momento nenhum leito foi implementado, apesar de o MPMS ter obtido a liminar nesta ação. O que se espera é que Estado e Município cumpram a decisão judicial e implementem tais leitos, a fim de que não passemos novamente pela grave situação de desassistência ocorrida neste ano. Relativamente ao Estado, há um projeto de construção do novo prédio do Hospital Regional em Campo Grande.
As investigações apontaram algum motivo para o fato de ocorrer tão constantemente essas crises na Saúde de Campo Grande? Qual ou quais?
O Ministério Público tem realizado reuniões constantes com os gestores, a fim de apurar o motivo das falhas nos serviços públicos. Um deles, pelo que foi apurado, é a falta de recursos municipais e o não pagamento dos fornecedores.
Campo Grande não tem mais hospitais de “portas abertas”, apenas atendem por meio de regulação, isso pode ter colaborado de alguma forma para a situação atual também nas UPAs?
A questão da superlotação das UPAs não decorre de problemas de regulação, mas da falta de leitos, tanto gerais, pediátricos e de Unidade de Terapia Intensiva [UTI]. Há necessidade de maior investimento nessa área, já que todos os hospitais públicos operam acima da capacidade instalada em Campo Grande.
Na sua opinião, que medidas deveriam ou poderiam ser tomadas para resolver os problemas constantes na Saúde de Campo Grande?
Há necessidade de uma gestão eficiente e técnica por parte da Secretaria de Saúde municipal. Precisamos que seja adotado um sistema eficiente de controle de estoques de medicamentos, já que hoje o controle é manual. A gestão municipal necessita urgentemente tratar o cidadão com respeito.
O que se verifica hoje é o total desrespeito aos direitos básicos do cidadão, especialmente à saúde. Basta verificar os corredores da Santa Casa cheios de macas, as UPAs superlotadas, a falta de medicamentos básicos nas farmácias das Unidades de Saúde, Centros de Atenção Psicossocial [CAPs] e UPAs.
Longas filas de espera por exames de imagem, consultas especializadas e cirurgias. Liminares e decisões judiciais descumpridas. É esse hoje o cenário da saúde pública de Campo Grande.
*PERFIL
Daniela Cristina Guiotti
Natural de São José do Rio Preto (SP), Daniela Cristina Guiotti se formou em Direito pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Também tem MBA em Gestão em Saúde pela Insted, de Campo Grande, e especialização em Ciências Criminais pela LFG. Desde 2003, atua como promotora de Justiça no Ministério Público de Mato Grosso do Sul, em que, atualmente, é coordenadora do Núcleo de Apoio Especial à Saúde e assessora especial do procurador-geral de Justiça.


