O terceiro sargento da Marinha, fuzileiro naval-músico Willian Afonso dos Santos, 30, foi condenado a 20 anos e 3 meses de prisão pela morte de Greice Soares Roque. Ele confessou tê-la matado por asfixia na madrugada de 15 de novembro de 2012 e escondido o corpo numa mala. A sentença do juiz da 1ª Vara Criminal, Daniel Scaramella Moreira, veio após decisão do Tribunal do Júri realizado nesta segunda-feira, 05 de maio. O julgamento durou aproximadamente oito horas.
Além da condenação por homicídio duplamente qualificado e tentativa de ocultação de cadáver, a sentença do juiz ainda determinou a perda do cargo público pelo militar. A decisão é de primeira instância e cabe recurso pela defesa.
Interrogado pelo juiz da 1ª Vara Criminal, Daniel Scaramella Moreira, durante o Tribunal do Júri, o terceiro sargento se disse arrependido pelo que fez, mas afirmou ter sido em legítima defesa porque após ambos consumirem cocaína, a vítima pegou uma faca na cozinha e partiu para cima dele. “Na minha ignorância excelência, sou um patife. Era para ter me entregado, não sei o que aconteceu que deu a louca de colocar o cadáver na mala. Isso que é minha ignorância, eu sou um patife, vou pagar, não tenho receio. Queria pedir perdão para a sociedade corumbaense, para a população, porque em toda a minha vida pregressa nunca passou pela minha mente que ia acontecer isso. Infelizmente, aconteceu, não tive intenção nenhuma de matar, infelizmente ela veio para cima de mim e eu tentei me desvencilhar, acabou que eu estava alterado. Agora, minha ignorância foi ir para o quartel, prestei serviço lá, voltei e tive uma ideia louca de colocar na mala”, disse o militar ao ser interrogado pelo juiz, logo no começo do julgamento.
Willian, que compareceu ao Tribunal com o fardamento branco da Marinha – onde é mantido sob custódia –, explicou que o crime só aconteceu porque o consumo de drogas o tirou do seu estado normal de sensatez. Após fazer um programa com Greice, num bar que ela costumava frequentar, ele a levou para a casa dele, em Ladário, com a intenção exclusiva de continuarem o uso de drogas, contou o militar.
“Fizemos o programa, voltei à mesa do bar e ela me convenceu de a gente curtir ou na minha residência ou em algum motel. Fiquei cauteloso, passei um tempo, saímos do bar, pegamos um táxi, dei certo valor para ela para compra cocaína. Parou o carro em uma residência, foi efetuada a compra da droga, voltamos e fomos para a residência. Chegando lá consumimos droga, a intenção era só curtir, cocaína e cerveja. A intenção não era copular, transar, era só curtir cocaína.”, afirmou o réu. Não sabia nem o nome dela, fui saber o nome quando estava declarando o depoimento na delegacia. Conhecia como Capitu”, afirmou.
De acordo com o fuzileiro naval, o crime aconteceu cerca de duas horas após consumirem alta quantidade de cocaína. “Acabei [consumindo] um valor excessivo de droga lá, cheirando. E, no decorrer de uma hora ou duas horas mais ou menos, começamos a entrar em euforia e ela começou a observar o ambiente, ficava áspera, não estava legal. Nós dois consumimos droga. Ela saiu, foi para a cozinha e eu fiquei consumindo lá, não sabia o que ela estava fazendo, pedi para ela voltar. Quando ela voltou eu estava de costas consumindo, olhei para trás ela veio para cima de mim com a faca e me surpreendeu. Se eu não me defendesse, eu não estaria aqui para contar. Foi uma luta, tentei me desvencilhar dos braços dela, peguei no pescoço dela, ela caiu no chão, foi aí que, estava com a consciência alterada, com minha mão usei uma grande força. Eu estava sem noção e fiquei ali por mais ou menos um minuto. Foi aí que não sabia o que fazer. Tentei me desvencilhar dos braços dela, não tinha intenção nenhuma de matar, jamais. Vim aqui para Corumbá prestar serviço como militar para a Marinha e para a cidade.Infelizmente aconteceu, estou arrependido, no momento lá não sabia o que fazer, estava muito alterado, eufórico demais”, contou ao relembrar o momento em que asfixiou Greice.
Willian Afonso dos Santos confessou que usava drogas “eventualmente” e disse que após ter asfixiado Greice, ele continuou sob efeito da droga e colocou o corpo na mala depois de voltar do plantão de 24 horas na Marinha. “Tomei banho gelado, pra ver se passava o efeito, não sabia o que fazer, tremi no chão, estava muito agoniado. Chegando no quartel estava alterado ainda, tentei manter a calma discretamente, fui lá tomei mais um banho no quartel, me vesti, prestei o serviço” e depois de voltar para casa limpou o imóvel, colocou o corpo na mala e se desfez de qualquer prova que pudesse incriminá-lo. “Infelizmente coloquei na mala. Como consta nos autos falei que era peixe podre. Falei que era para colocar na rodoviária primeiramente, depois eu mudei, alterei que era peixe podre, como consta nos autos. Infelizmente excelência, essa foi minha ignorância, não tive intenção nenhuma de matar”, declarou completando que tem uma vida respeitável: “nunca passei pela Polícia, nunca tive brigas, nada na minha vida pregressa. Isso foi um fato que infelizmente aconteceu. Eu errei, confesso aqui para a sociedade corumbaense, infelizmente aconteceu”, disse o terceiro sargento ao juiz.
O réu ainda contou ter limpado o imóvel. “Limpei a casa, joguei fora a faca, o resto da cocaína a cerveja, coloquei num saco e joguei fora. A casa eu passei um pano”, explicou ao responder a pergunta feita pelo promotor Rodrigo Correa Amaro. “Se eu não tivesse bebido, não tivesse usado droga, jamais aconteceria isso. Foi uma situação, não sei o que aconteceu. Infelizmente aconteceu”, completou William.
Já o promotor Rodrigo Correa Amaro, “desconstruiu” a figura de militar exemplar ao lembrar que ele era casado e costumava buscar garotas de programa e que não se tratou de legítima defesa pelas qualificadoras porque a vítima tinha 1,45 metro de altura, era franzina. "O tempo e a força empregados, foram desproporcionais", afirmou. O promotor ainda lembrou que Willian resistiu à prisão, tanto que teve de ser amarrado pelos colegas e leu o depoimento de um dos militares que o prendeu, onde afirma que ele era problemático e que já usava drogas em outra cidade.
A defesa, por sua vez, enfatizou a tese de legítima defesa, utilizou-se de passagens bíblicas e de artigos da Constituição Federal e do Código Penal. Também criticou a cobertura da imprensa ao caso, afirmando que houve "pré-julgamento".


