“Sua partida representa uma grande perda para a conservação da biodiversidade”. O lamento é do pesquisador francês Arnaud Desbiez, que estabeleceu um estudo pioneiro de longo prazo sobre a ecologia e a biologia do tamanduá-bandeira e tinha um trabalho próximo sendo feito com a zoologista alemã Lydia Theresia Möcklinghoff, de 45 anos, morta em acidente aéreo em Campo Grande.
Essa tragédia, registrada na sexta-feira, ainda repercute por conta dos trâmites burocráticos sobre a liberação do corpo da pesquisadora e também traz alerta sobre a perda de mais um grande especialista de alcance global que acaba falecendo em Mato Grosso do Sul por conta de acidente aéreo.
Há menos de 10 meses, o arquiteto chinês Kongjian Yu, de 62 anos, referência no projeto de cidades mais sustentáveis, morreu na queda de um avião pequeno no município de Aquidauana.
Sobre Lydia, sua morte precoce encerra pesquisas que vinham sendo desenvolvidas para compreender a vida dos tamanduás-bandeira e outras espécies, como a anta.
O trabalho dela com Desbiez tinha relação com a instituição que ele preside, o Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas).
“Lydia era uma colaboradora que todos nós admirávamos muito. Dedicou anos da sua vida ao estudo do tamanduá-bandeira e teve um papel fundamental na produção de materiais de comunicação e divulgação científica, aproximando essa espécie e o Pantanal de milhares de pessoas. Sua dedicação, sensibilidade e compromisso com a conservação deixaram um legado que permanecerá por muitos anos. Todos nós do Icas recebemos essa notícia com profunda tristeza. Nossos sentimentos estão com sua família, amigos e todos que tiveram o privilégio de conviver e trabalhar ao seu lado”, disse o zoólogo.
Para o Instituto SOS Pantanal, o legado da pesquisadora contribui para a proteção do Pantanal. O instituto também emitiu nota de pesar pelo falecimento do piloto da aeronave.
“Lydia dedicou mais de 20 anos de sua trajetória ao estudo dos tamanduás-bandeira no Pantanal de Mato Grosso do Sul e seguia justamente rumo ao bioma quando a aeronave caiu logo após a decolagem. Henrique, piloto experiente da aviação sul-mato-grossense, conduzia a aeronave e também tinha uma relação próxima com o Pantanal por meio seus voos pela região”, afirmou o SOS Pantanal.
Entre suas contribuições científicas, ela analisou como as antas viviam em ambientes que acabam sendo muito afetados por mudanças causadas pelos seres humanos, em um artigo publicado em 2022.
Lydia também estudou a fundo técnicas que outros pesquisadores pudessem utilizar, em se tratando de procedimentos menos invasivos para conseguir identificar tamanduás-bandeiras, em 2018.
A pesquisadora também se dedicou a entender como espécies no Pantanal podiam contribuir para a conservação e fomentar o ecoturismo, uma forma de geração de renda local e garantia de manutenção da espécie, com pesquisa publicada em 2014.
Além disso, quando o uso dos sons e a bioacústica ainda não estavam tão consolidados em pesquisas no Pantanal, ela usou esse recurso tecnológico para entender como os tamanduás-bandeira faziam suas vocalizações e quais os sentidos das “vozes” dos animais.
Além desse trabalho de desenvolvimento de pesquisa, Lydia atuava como jornalista, e seu conhecimento aprofundado sobre diferentes partes do Brasil, sobre a biodiversidade e o Pantanal, mostrava outra área de seu interesse: divulgar o País na Europa, em especial, o Pantanal.
Ela atuou em diferentes produções audiovisuais, além de ter um podcast sobre biomas brasileiros, suas riquezas e a importância de conservar esses territórios.
Seu legado audiovisual está ainda disponível em um site que ela criou reservado para mostrar belezas do Pantanal, que pode ser acessado na conta do Instagram da pesquisadora: https://www.instagram.com/lydialoveswildlife/
A doutora Flávia Miranda, presidente do Instituto Tamanduá, despediu-se da amiga e pessoa que admirava em nota.
“Lydia fez da ciência uma missão de vida. Com inteligência, sensibilidade e uma dedicação incansável, ajudou a ampliar o conhecimento sobre os tamanduás e sobre a extraordinária biodiversidade do Pantanal.
Seu trabalho ultrapassou os limites da pesquisa acadêmica. Ela soube transformar conhecimento científico em inspiração, aproximando pessoas de uma causa que precisa ser compreendida e protegida”, declarou.
A pesquisadora brasileira pontuou que a morte de Lydia traz dor, que deve ser superada com o destaque sobre sua produção, que deixou para a posterioridade.
“Sua ausência deixa um vazio imenso entre todos que trabalham pela conservação da natureza. Ao mesmo tempo, seu legado permanecerá presente em cada pesquisa publicada, em cada imagem registrada, em cada estudante inspirado por seu exemplo e em cada tamanduá que continuará sendo protegido graças ao conhecimento que ela ajudou a construir”, completou.
Lydia Theresia Möcklinghoff passou temporada no Pantanal para pesquisar tamanduás - Foto: Reprodução InstagramO ACIDENTE
A queda do avião bimotor modelo EMB-810D, registrada na manhã de sexta-feira, nas proximidades do Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande, tirou também a vida do piloto Henrique Martin de Carvalho, de 42 anos.
A aeronave caiu em uma região de mata fechada minutos após a decolagem, sob condição climática de intensa neblina. Para cobrir as vastas distâncias de Mato Grosso do Sul, principalmente em se tratando de Pantanal, o uso da aviação civil é um recurso que dinamiza as viagens.
Conforme apurado, Lydia tinha como destino uma fazenda no município de Aquidauana.
Os trâmites legais e técnicos para apurar as causas da queda já foram iniciados pelos órgãos de controle federais, que envolvem o Quarto Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa IV).

