Na manhã de ontem, um dia depois da derrota histórica imposta ao presidente Lula durante votação no Senado que rejeitou o nome indicado por ele para uma vaga ao Supremo Tribunal Federal, dois dos 42 senadores que votaram contra Jorge Messias participaram, em Campo Grande, do anúncio de um pacote de obras estimado em R$ 350 milhões para pavimentações em dezenas de bairros da cidade.
Do evento participaram também deputados federais, o governador, a prefeita e representantes da Câmara Municipal. Mesmo sem explicitarem, todos, sem exceção, comemoravam a derrota sofrida pelo presidente, já que deixaram claro que a meta eleitoral deste ano é derrotar o atual mandatário nacional.
A derrota histórica no Senado é um indicativo importante de que ele está enfraquecido e de que existe, segundo a avaliação destes, a possibilidade real de derrotá-lo em uma votação feita nas tão questionadas urnas eletrônicas.
O pacote de obras de pavimentação será composto por cerca de R$ 100 milhões provenientes das emendas de deputados federais e senadores. Ou seja, é dinheiro do governo federal.
Outros R$ 143 milhões, que no evento foram apresentados como sendo recursos da prefeitura, serão, na realidade, do programa Avançar Cidades, também bancado com recursos federais (FGTS).
Os outros R$ 100 milhões serão repassados pelo governo do Estado, que somente está com alguma capacidade de investimentos porque buscou empréstimos da ordem de R$ 4,3 bilhões com o governo federal ou conseguiu o aval deste para ter o crédito internacional.
Além disso, teve parlamentar anunciando mais R$ 45 milhões para serviços de recapeamento. O dinheiro também terá origem federal.
O fato de serem recursos federais não significa, de forma alguma, que o dinheiro pertença ao presidente ou a determinado ministro. Eles não fazem mais que sua obrigação ao liberarem o dinheiro proveniente dos impostos pagos pelos contribuintes.
Porém, não são raros os casos em que políticos priorizam seus aliados na hora de liberarem os recursos. E isso mesmo em regimes democráticos.
E é exatamente essa uma das mais importantes características da democracia. É permitido ser adversário, e dos mais ferrenhos, e mesmo assim manter o direito de ser tratado da mesma forma como são tratados aqueles que fazem questão de manifestar seu apoio aos detentores do poder do momento.
A quantidade de recursos federais liberados tanto para Campo Grande quanto para o governo do Estado evidencia que a democracia está funcionando normalmente, embora parcela dos políticos e dos eleitores faça questão de deixar transparecer que o País vive sob a ditadura da toga.
E sob este argumento é que a derrota do presidente ocorreu e foi aplaudida no caso da vaga ao STF.
Porém, a partir do momento em que só é aceito o resultado das urnas que me é favorável ou a partir do momento em que determinado candidato diz com todas as letras que a eleição só será limpa e justa se ele for o vencedor, esta democracia que permite a rivalidade fatalmente estará com os dias contados.
Alguém que não aceita derrota, efetivamente, não pode ser considerado democrata. Mas, se mesmo assim ele é o predileto, seus seguidores tendem a ter índole parecida.


