A Câmara Municipal de Campo Grande concluiu os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou o transporte coletivo. Foram mais de quatro anos de cobranças para que a comissão saísse do papel, e sua existência, por si só, já representou uma oportunidade rara de passar a limpo um serviço que há tempos é motivo de insatisfação generalizada. Muitos podem discordar da postura de alguns vereadores, mas não é razoável condenar a CPI em si: ela cumpriu um papel que cabia ao Legislativo, o de investigar e apontar falhas em um serviço essencial.
O relatório trouxe boas sugestões e cobranças. Algumas são tão óbvias que parecem banais, mas só o são porque a concessionária, nos últimos anos, demonstrou uma desfaçatez gritante em descumprir cláusulas básicas do contrato. O exemplo mais simbólico é a exigência de renovação da frota. É inaceitável que, mesmo com receita garantida, os ônibus em circulação tenham ultrapassado os limites de idade estabelecidos em contrato. A troca de veículos não é um luxo ou um favor: é obrigação legal e condição mínima de qualidade.
Além dessa exigência central, a CPI apontou uma série de mudanças. Há pedidos de indiciamento de dirigentes do Consórcio Guaicurus e de ex-gestores de agência. Também se sugeriu, em caso extremo, a intervenção do Município no serviço, medida prevista em lei para situações em que o interesse público está sendo comprometido.
Essas propostas, contudo, só terão valor se forem transformadas em ações concretas. Não basta um relatório robusto, transmitido com transparência e repleto de dados técnicos, se, ao final, tudo se perder no esquecimento ou em disputas políticas. A população campo-grandense não pode continuar pagando caro por um transporte coletivo precário, marcado por atrasos, quebras constantes e superlotação.
É preciso lembrar o que motivou a criação da CPI do Ônibus: a má qualidade do serviço. Esse problema permanece e precisa ser enfrentado com decisões claras e corajosas. O transporte público deve ser uma alternativa real e confiável para a população, e não um fardo. Precisa ter um padrão visível de atendimento, veículos conservados, acessibilidade garantida e eficiência operacional. É disso que depende a mobilidade urbana da Capital.
Ao fim da CPI, independentemente dos caminhos jurídicos ou administrativos que venham a ser adotados, o que se espera são resultados práticos. Que os ônibus novos cheguem, que a fiscalização seja exercida com rigor, que a transparência seja regra, e que a concessionária seja, finalmente, obrigada a cumprir aquilo que assumiu em contrato.
Campo Grande precisa transformar esse relatório em um marco de virada, não em mais um documento que acumula poeira nas gavetas do poder público. O transporte coletivo é vital para a cidade e para milhares de cidadãos que dependem dele todos os dias. O mínimo que se espera agora é que as cobranças feitas pelos vereadores deixem de ser apenas palavras e se convertam em melhorias concretas na vida da população.



