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Agro brasileiro exporta mais, mas o próximo desafio é gerar mais valor

O desafio agora não é apenas ampliar a produção, mas avançar em uma agenda de inovação, processamento, rastreabilidade e sustentabilidade capaz de aumentar a eficiência e a rentabilidade ao longo da cadeia

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O agronegócio brasileiro começou este ano com um recorde, US$ 38 bilhões em exportações e superavit de US$ 33 bilhões no primeiro trimestre, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Mas, por trás do resultado histórico, há um dado que merece atenção: enquanto o volume exportado cresceu 3,8%, o preço médio recuou 2,8%. O Brasil está vendendo mais, mas ainda precisa capturar mais valor por aquilo que produz.

O desafio agora não é apenas ampliar a produção, mas avançar em uma agenda de inovação, processamento, rastreabilidade e sustentabilidade capaz de aumentar a eficiência e a rentabilidade ao longo da cadeia.

A urgência também é global. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) aponta que o mundo segue distante da meta de reduzir pela metade o desperdício de alimentos até 2030.

Para o agro brasileiro, isso significa que produzir mais precisa vir acompanhado de aproveitar melhor o que já é produzido, reduzindo perdas e agregando valor.

Nesse cenário, tecnologias voltadas à armazenagem, logística, rastreabilidade, bioinsumos, agricultura regenerativa, processamento e novos alimentos deixam de ser apenas ferramentas de sustentabilidade e passam a representar oportunidades econômicas.

É nesse ponto que agtechs e foodtechs ganham relevância. Startups desenvolvem soluções para problemas que vão da produtividade no campo à conexão com consumidores, enquanto plataformas de investimento ajudam a direcionar capital para negócios capazes de transformar gargalos históricos em oportunidades de mercado.

O Brasil já reúne escala produtiva, conhecimento técnico, empresas inovadoras e um ecossistema crescente de startups. O próximo passo é transformar esses ativos em maior valor agregado, seja por meio de alimentos processados, ingredientes, biotecnologia, tecnologia, certificações ou soluções climáticas.

A competitividade do agro brasileiro não será medida apenas pela quantidade que o País consegue produzir e exportar, mas também pela capacidade de capturar valor ao longo dessa cadeia.

O Brasil já é uma potência agrícola. A próxima fronteira é transformar essa escala em uma potência agroindustrial, tecnológica e sustentável.

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Paradoxo docente: o herói com menos poderes e cada vez mais responsabilidades

No Brasil, paradoxalmente, os professores são tratados como heróis às avessas, cujos poderes foram dizimados por completo

15/08/2026 07h15

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No mês de julho deste ano, estreou o novo filme do Homem-Aranha, o herói que aprendeu, da pior maneira possível, que, com grandes poderes, adquirem-se muitas responsabilidades.

No Brasil, paradoxalmente, os professores são tratados como heróis às avessas, cujos poderes foram dizimados por completo, mas de quem se exigem crescentes e inalcançáveis responsabilidades.

O resultado é que, todos os dias, esses profissionais são atirados em ambientes degradados e violentos, com as mãos e os pés atados, sem qualquer apoio real, enquanto os verdadeiros vilões assistem a esse suplício de camarote. 

Quanto aos malfeitores, basta verificar que, nas últimas décadas, os docentes foram atacados por ambos os flancos ideológicos, interessados em controlar as escolas e dominar as mentes das novas gerações, em detrimento da alfabetização de qualidade, da promoção da leitura e da transmissão de conhecimentos poderosos, para usar uma expressão de Michael Young.

Por um lado, construiu-se o mito do professor opressor e da escola-prisão, demonizando a autoridade docente; de outro, buscou-se estigmatizar os mestres como doutrinadores, vagabundos e perversores da juventude, maculando a imagem da categoria e enfraquecendo o laço entre família e escola.

Dessa forma, houve um esvaziamento da autoridade do professor, elemento fundamental para que o ensino aconteça, como reconhecem, inclusive, estudiosos de campos diametralmente opostos, como Paulo Freire, que diz que “[...] o professor que ironiza o aluno, que o minimiza [...], tanto quanto o professor que se exime do cumprimento do seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar [...] transgride os limites fundamentalmente éticos de nossa existência”, e Inger Enkvist, a qual afirma que, seja qual for o modelo escolhido, “sem aceitar a autoridade do professor em sala de aula, é impossível obter bons resultados”.

Hoje, a liberdade de cátedra, na prática, quase inexiste na educação básica e os docentes, enfraquecidos, estão impedidos de lecionar livremente em muitas redes de ensino, agrilhoados a plataformas e materiais pré-fabricados; encontram-se também impossibilitados de avaliar, já que os resultados são revertidos à sua revelia e alunos são aprovados, diversas vezes, sem qualquer critério de aprendizagem; finalmente, o desrespeito e a violência tomaram conta de grande parte das escolas, inclusive de muitos colégios particulares, já que os professores são frequentemente desautorizados pelos pais e as escolas não têm meios eficazes de combater a indisciplina, a qual já ocupa 21% do tempo de aula, segundo dados, divulgados em 2019, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

Atacado e sem poderes, o professor recebe, contraditoriamente, cada vez mais incumbências. A Lei n° 13.185/2015, por exemplo, determinou que é dever dos estabelecimentos de ensino assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnose e combate à violência e ao bullying.

Em 2018, a Lei Lucas estabeleceu a obrigatoriedade de capacitar professores em noções de primeiros socorros. Em vigor desde março, as novas diretrizes de proteção digital do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) trouxeram a obrigatoriedade de a escola promover a educação digital e midiática e garantir um ambiente virtual seguro aos alunos.

Mais recentemente, em junho, foi aprovado o Projeto de Lei n° 4.088/2023, que torna obrigatório o ensino de educação política e direitos da cidadania.

Todas essas iniciativas são importantíssimas, mas salta aos olhos a intensa transferência de responsabilidade do restante da sociedade para uma escola depauperada e para professores doentes e sobrecarregados.

Enquanto isso, 33% dos municípios não cumprem a legislação que determina o piso do magistério, mais de 50% dos professores das escolas públicas são temporários com direitos reduzidos, apenas 15,7% das escolas públicas contam com psicólogos – ainda existe a Lei n° 13.935/2019? –, e a mencionada Lei Lucas segue amplamente desrespeitada por municípios e estados. 

Professores não são heróis, mas sim profissionais que merecem respeito. Não cabe cobrar da categoria poderes extra-humanos enquanto políticos, gestores e muitos pais lavam as mãos e transferem responsabilidades.

É preciso proporcionar condições dignas de vida e de trabalho, devolver autoridade aos docentes e valorizar o conhecimento escolar, base de todas as competências e habilidades; do contrário, a profissão permanecerá eternamente inviabilizada e presa a uma teia inexpugnável de abandono e impotência, condenando o País ao eterno atraso civilizatório.

Editorial

A "barrigada" que abalou instituições

Falha na apuração sobre suposta apreensão de cocaína expõe a necessidade de mais cautela das instituições e cumprimento de protocolos nas operações de combate ao crime

15/08/2026 07h10

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Em jornalismo, “barrigada” é um termo informal, muito usado nas redações, para designar um erro jornalístico cometido pela publicação de uma informação incorreta, incompleta ou não suficientemente apurada. Em geral, ela ocorre quando o jornalista se antecipa à apuração, publica uma informação sem confirmar adequadamente os fatos ou confia em uma fonte que estava errada.

A “barrigada” é o erro jornalístico mais evitado. É como se fosse um pecado mortal a ser evitado pelo jornalista para não comprometer sua carreira. É dar a notícia de que alguém morreu, só que a pessoa continua viva.

Cometer uma “barrigada” é um golpe à reputação e à credibilidade. A origem do termo são os saltos mal-executados em piscinas ou rios, em que a pessoa, da qual se espera uma grande performance, cai de barriga na água, causando um grande estrondo.

Nesta edição, mostramos a confirmação do que pode ser uma das maiores “barrigadas” da história recente das instituições do País. Ela ocorreu na Receita Federal e envolveu outras instituições federais, estaduais e até instituições de outros países, como a polícia da Bolívia e autoridades norte-americanas.

Estamos falando do que quase foi a maior apreensão de cocaína da história do Brasil, que, em tese, ocorreu entre os dias 20 e 21 de junho e só não foi considerada a maior apreensão de cocaína porque a droga que ensejaria a apreensão não foi encontrada.

É isso mesmo. Para usar a gíria da época em que os telefonemas eram mais comuns do que as conversas em aplicativos de mensagens, foi o “desculpe, foi engano” mais famoso dos últimos tempos.

O que era para ter sido uma apreensão de mais de 50 toneladas de cocaína em várias carretas em Corumbá e Cáceres (MT) não foi absolutamente nada.

Faltou cautela das instituições responsáveis pela quase apreensão. Se houvesse cautela, ainda que a apreensão ocorresse, ela seria divulgada somente depois de confirmada a presença de cocaína nas toras de madeira.

Pudera, o caso foi vendido como um processo sofisticado, em que os criminosos impregnavam a droga – em forma líquida – dentro da madeira. Mas não houve confirmação.

O caso expõe a necessidade de a Receita Federal e as outras entidades que atuam na fiscalização reforçarem ainda mais a presença, refinarem as técnicas e ampliarem a cooperação.

No afã de combater o crime, erros podem ocorrer. Entretanto, quando se trata da lei penal, a presunção de inocência sempre deve prevalecer. Por isso, todo cuidado é pouco.

No fim das contas, o episódio demonstra que as instituições estão no caminho certo. Entretanto, devem revisar seus métodos, sobretudo para manter a credibilidade com a população e não deixar “feridos” espalhados pelo caminho.

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