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A saúde dos iguais e a saúde dos privilegiados

Qual circunstância constitucionalmente relevante justifica que um parlamentar assegure proteção à saúde excepcionalmente favorecida, custeada em parcela relevante pelos cidadãos que financiam o Estado e dependem dos serviços públicos de saúde?

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Há números que informam. Outros constrangem. Os dados divulgados acerca das despesas com assistência à saúde de senadores e ex-senadores pertencem, seguramente, à segunda categoria.

O próprio Portal da Transparência do Senado registra que, no exercício financeiro de 2025, as despesas pagas com assistência à saúde em benefício de senadores, ex-senadores e respectivos grupos familiares alcançaram R$ 40.476.846,63.

A questão não deve ser tratada como simples curiosidade orçamentária. Estamos diante de tema que toca diretamente alguns dos fundamentos da ordem constitucional brasileira.

A Constituição proclama, no art. 5º, que todos são iguais perante a lei. E, quando cuida especificamente da saúde, é ainda mais explícita: o art. 196 a define como direito de todos e dever do Estado, a ser assegurado mediante acesso universal e igualitário.

É evidente que o princípio da isonomia não exige que o Estado gaste exatamente a mesma quantia com cada pessoa. Necessidades diferentes justificam tratamentos diferentes. Mas toda diferenciação reclama fundamento juridicamente razoável.

Eis, então, a pergunta inevitável: qual circunstância constitucionalmente relevante justifica que o exercício, presente ou passado, de mandato parlamentar assegure proteção à saúde excepcionalmente favorecida, custeada em parcela relevante pelos mesmos cidadãos que financiam o Estado e, em grande medida, dependem dos serviços públicos de saúde?

Não encontro resposta satisfatória.

A República não admite castas.

O mandato parlamentar constitui função pública temporária. Não é título nobiliárquico nem confere ao seu titular uma cidadania de categoria superior. Muito menos parece razoável que determinadas vantagens possam projetar-se para além do próprio exercício do mandato.

O contraste com o Sistema Único de Saúde (SUS) torna a questão ainda mais perturbadora. Mas aqui é preciso rigor. Tem circulado a informação de que o SUS disporia de apenas R$ 116 mensais por brasileiro.

Essa comparação não é adequada para representar o gasto público total com saúde, pois o SUS é financiado pela União, pelos estados, pelo Distrito Federal e pelos municípios. Não precisamos, portanto, de uma estatística discutível para reconhecer o problema.

Ele é suficientemente grave em seus próprios termos.

Em um país em que faltam médicos, medicamentos, exames e leitos em tantas localidades, qualquer regime excepcional de assistência médica financiado com recursos públicos deve submeter-se ao mais rigoroso escrutínio à luz da igualdade, da moralidade, da impessoalidade e da razoabilidade.

Não se cogita, naturalmente, de negar assistência médica aos parlamentares. A questão é outra: por que deve a sociedade financiar um padrão privilegiado de proteção justamente para aqueles que exercem o poder em seu nome?

A legalidade formal de determinado benefício não encerra essa discussão. No Estado Constitucional, também a lei e os atos internos dos Poderes submetem-se aos princípios e valores superiores da Constituição.

A desigualdade brasileira já é suficientemente grave. O que não se pode admitir é que o próprio Estado acrescente a ela desigualdades institucionais financiadas pelo contribuinte.

O problema é também simbólico. O cidadão não pode receber dos Poderes da República a mensagem de que, quando se trata de saúde, algumas vidas merecem proteção pública extraordinária simplesmente em razão da posição ocupada.

É preciso rever esse sistema.

Não como gesto de hostilidade ao Parlamento, instituição essencial à democracia, mas precisamente em defesa de sua dignidade. O Poder Legislativo será tanto mais respeitado quanto menos privilégios reservar àqueles que transitoriamente o integram.

Essa revisão não significa retirar direitos legítimos de quem exerceu uma função pública, mas submeter benefícios custeados pelo Estado ao mesmo princípio que deve reger toda a administração pública: a existência de uma justificativa objetiva, impessoal e constitucionalmente legítima para a diferença de tratamento.

É justamente quando o Estado estabelece regras para si próprio que a igualdade deixa de ser apenas uma promessa constitucional e passa a ser uma exigência concreta de legitimidade.

A República não comporta cidadãos de primeira e de segunda categorias. E a saúde, porque é direito de todos, não pode converter-se em privilégio de alguns.

Editorial

Clima: prevenir é sempre melhor

Prevenir é melhor do que remediar. Diante de fenômenos climáticos extremos, essa máxima precisa deixar de ser uma recomendação e se transformar em política pública permanente

31/08/2026 07h10

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O que diferencia os países mais desenvolvidos dos menos desenvolvidos diante de uma emergência climática ou de um caso fortuito? São vários os fatores, mas alguns dos mais importantes são a infraestrutura disponível e a capacidade financeira para enfrentar os desafios impostos por fenômenos naturais, sejam tempestades, secas severas, calor intenso, nevascas ou outras manifestações extremas do clima.

Uma sociedade mais preparada não consegue impedir um evento climático, mas pode reduzir significativamente seus impactos.

Estradas, sistemas de drenagem, hospitais, redes de energia e abastecimento, estruturas de defesa civil e mecanismos eficientes de comunicação fazem diferença quando a natureza impõe condições adversas.

Da mesma forma, governos com recursos conseguem agir mais rapidamente e reconstruir o que for destruído.

Existe, porém, outro fator fundamental, que não depende diretamente de dinheiro ou de grandes obras: a capacidade de mobilização da sociedade e de coordenação das ações preventivas. Não basta ter recursos se não houver planejamento, integração entre os órgãos públicos e orientação clara para a população.

Prevenir é sempre melhor do que remediar. Diante de fenômenos climáticos extremos, essa máxima precisa deixar de ser apenas uma recomendação e se transformar em política pública permanente. É preciso antecipar cenários, identificar riscos e preparar estruturas antes que a emergência aconteça.

Nesse aspecto, é importante que as autoridades estejam efetivamente empenhadas em criar uma base do Sistema Único de Saúde (SUS) em Campo Grande para enfrentar os possíveis efeitos do super-El Niño, como mostramos nesta edição.

Se as previsões apontam temperaturas excepcionalmente elevadas, não faz sentido esperar que os impactos sobre a saúde apareçam para só então organizar uma resposta.

Uma estrutura preparada previamente pode garantir atendimento mais rápido, equipes e equipamentos disponíveis e menor pressão sobre uma rede de saúde que já enfrenta dificuldades.

Recursos empregados na prevenção não representam desperdício, ao contrário, podem evitar custos humanos e financeiros muito maiores posteriormente.

O mesmo vale para o Pantanal. Os governos federal e estadual acertam ao mobilizar brigadas e orientar produtores a adotar medidas preventivas. Em uma região tão vulnerável à estiagem e aos incêndios, esperar o fogo tomar grandes proporções para agir é assumir um risco que pode ser reduzido com planejamento.

Este é o ponto: não precisamos esperar a próxima seca, onda de calor, tempestade ou grande incêndio para descobrir que deveríamos ter feito algo antes. Em tempos de emergência climática, planejamento não é excesso de cautela, é responsabilidade.

Artigo

Violência escolar: a brutalidade chancelada pelo Estado

Os dados sobre indisciplina e violência escolar demonstram que a situação está fora de controle em muitos estados

28/08/2026 07h20

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O Estado promoveu um desmonte gradual da profissão docente, impondo obstáculos a todas as atividades típicas do cotidiano do professor, como preparar as aulas com liberdade, lecionar explicitamente, transmitir conhecimentos, avaliar o desempenho dos alunos, disciplinar a turma e até mesmo reprovar os discentes que nada fazem além de prejudicar aqueles que realmente desejam ensinar e aprender. Não satisfeitos, contudo, em promover o desmantelamento do ofício, políticos e burocratas vêm chancelando, por atos e omissões, a violência praticada contra o professorado brasileiro.

Os dados sobre indisciplina e violência escolar demonstram que a situação está fora de controle em muitos estados.

Nesse sentido, a edição de 2024 da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) – maior levantamento mundial sobre professores e líderes escolares –, promovida pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aponta que, nos anos finais do Ensino Fundamental, manter a disciplina em sala de aula é fonte de estresse para 63,8% dos docentes brasileiros (média da OCDE: 44,8%).

Além disso, mais de 50% relataram enfrentar “barulho perturbador e desordem” durante as aulas (média da OCDE: 20%) e 44% afirmaram perder tempo significativo com as interrupções dos alunos (média da OCDE: 18%). Como resultado, 21% do tempo de aula é perdido apenas para tentar manter a ordem (média da OCDE: 15%).

Quanto à violência, o percentual de professores dos anos finais que assinalaram como fonte de estresse “ser intimidados ou ofendidos verbalmente pelos alunos” atinge 46,6%, um valor quase três vezes superior à média da OCDE (17,6%) e o mais alto entre os países latino-americanos analisados, segundo a Talis de 2024.

Pesquisa do Centro de Estatística Aplicada do Instituto de Matemática da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Sindicato dos Professores e Funcionários Municipais de São Paulo, revelou o tamanho desse impacto: 62,5% dos docentes entrevistados relataram ter sido vítimas de algum tipo de violência em seu ambiente de trabalho.

De acordo com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), os casos de violência escolar triplicaram no País em uma década. Ademais, o quarto boletim técnico Escola que Protege (MEC/MDHC), indica que, entre 2001 e 2025, foram identificados 47 ataques de violência extrema em estabelecimentos de ensino, resultando em 177 vítimas (56 fatais e 121 feridas). 

Diante desse quadro, cabe perguntar: o que fazem as autoridades para proteger as escolas, os professores e os estudantes? De efetivo, absolutamente nada.

Não há investimento em pessoal – 50% dos professores atuam sob contratos temporários e apenas 15,7% das escolas públicas contam com psicólogos (Censo Escolar 2025) – e a infraestrutura permanece precária: nos anos finais do Ensino Fundamental, 41,4% das escolas públicas não têm quadras esportivas, 30,8% não têm biblioteca, 53,2% não contam com laboratório de informática e 79,7% não abrigam laboratórios de ciências (Censo Escolar 2025).

Soma-se a isso a escassez de materiais básicos de trabalho, como papel, computador, internet e artigos esportivos para as aulas de Educação Física.

Seria injusto, porém, afirmar que os gestores e políticos não fazem absolutamente nada, pois, além de minar o trabalho das escolas, como esclarecido acima, muitos promovem ataques diretos aos docentes, rotulando-os de “doutrinadores”, “opressores”, “preguiçosos” e “incompetentes”, incitando a sociedade contra a própria classe magistral.

Diante dessa realidade, marcada pela violência e pela precariedade, discursos sobre ludicidade, manejo de sala de aula, metodologias ativas e uso de tecnologia em sala de aula soam, na melhor das hipóteses, como o cinismo dos vendedores de sonhos; na pior, representam uma forma velada de culpabilização da vítima.

Afinal, se o aluno agride o professor com xingamentos e desrespeito insistente, fica subentendido que a culpa é daquele que não soube tornar a aula “divertida”, “dinâmica” e ajustada às preferências da nova geração.

Enfrentar a indisciplina e a violência dentro das escolas exige soluções concretas. Isso passa, inevitavelmente, por ampliar investimentos em infraestrutura, valorização da carreira e respaldo jurídico e psicológico aos docentes, além de programas de recuperação de lacunas de aprendizagem no contraturno.

Passa, sobretudo, por devolver a autoridade pedagógica e o comando das salas de aula ao professor, o qual precisa ter liberdade para preparar as suas próprias aulas, disciplinar a sua turma e avaliar os seus alunos sem a interferência de burocratas focados em maquiar indicadores oficiais.

Por fim, já passou da hora de implementar marcos legais rigorosos para proteger os profissionais da educação, responsabilizar as famílias pelo comportamento dos seus filhos e punir com severidade familiares que agridem professores.

Se o País agir depressa, talvez ainda seja possível resgatar a dignidade da carreira docente e evitar o apagão que se vislumbra em um horizonte cada vez mais próximo.

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