Artigos e Opinião

Artigo

Adaptação da geração Z ao mercado de trabalho

Trata-se de jovens que cresceram em um ambiente marcado por instabilidade econômica, hiperconectividade e exposição constante a pressões sociais

Continue lendo...

A entrada da geração Z no mercado de trabalho tem sido acompanhada por diferentes interpretações sobre seu comportamento. Termos como ansiedade, imediatismo e dificuldade de retenção aparecem com frequência, mas uma análise mais cuidadosa sugere que essas características dizem menos sobre a geração em si e mais sobre o contexto em que ela foi formada.

Trata-se de jovens que cresceram em um ambiente marcado por instabilidade econômica, hiperconectividade e exposição constante a pressões sociais.

Também é a primeira geração a tratar saúde mental com mais abertura. Nesse contexto, o que muitas vezes é interpretado como dificuldade pode refletir uma busca mais ativa por clareza, segurança e sentido no trabalho.

Há também uma menor disposição para aceitar ambientes considerados incoerentes ou pouco saudáveis, o que convida as organizações a revisitar práticas que, por muito tempo, foram naturalizadas.

Outro ponto que chama atenção é a forma como essa geração se relaciona com o trabalho. A estabilidade financeira aparece como uma das principais prioridades, ao mesmo tempo em que cresce o interesse por autonomia e trajetórias mais flexíveis. A percepção sobre o mercado de trabalho reforça esse desafio.

A maioria dos jovens ainda o enxerga como competitivo e pouco favorável, com destaque para barreiras como a exigência de experiência prévia e o acesso limitado a networking. Esse desalinhamento evidencia a necessidade de revisar modelos tradicionais de entrada e desenvolvimento profissional.

Para as empresas, o caminho passa por evolução. Processos mais transparentes, trilhas estruturadas de desenvolvimento e iniciativas de mentoria se tornam cada vez mais relevantes para atrair e engajar esses talentos. Ambientes que priorizam o aprendizado contínuo tendem a ser mais aderentes às expectativas dessa geração.

A saúde mental também ocupa um papel central nessa agenda. Embora a maioria dos jovens reconheça sua importância, menos da metade avalia sua própria saúde emocional de forma positiva, evidenciando um descompasso que impacta diretamente a relação com o trabalho. Esse cenário já vem impulsionando mudanças nas práticas de gestão.

Modelos de trabalho mais flexíveis, políticas voltadas ao bem-estar e o desenvolvimento de lideranças mais preparadas para lidar com aspectos humanos do trabalho têm ganhado espaço. 

Mais do que políticas isoladas, esse movimento se apoia em práticas como liderança acessível, espaços reais de diálogo e uma preocupação genuína com a experiência das pessoas no trabalho.

Quando aplicadas de forma contínua, essas iniciativas contribuem para um ambiente mais saudável e engajador, no qual o bem-estar deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser um critério relevante na atração e na permanência de talentos, especialmente entre as novas gerações.

Ainda assim, há desafios importantes. Muitas lideranças foram formadas em contextos distintos e seguem em processo de adaptação a novas expectativas em relação ao trabalho.

Estruturas rígidas e culturas que normalizam a sobrecarga ainda estão presentes em parte do mercado, o que reforça a necessidade de desenvolvimento contínuo.

Por fim, a valorização da autenticidade se destaca como um ponto de atenção. Jovens profissionais tendem a perceber rapidamente desalinhamentos entre discurso e prática.

Nesse cenário, a construção de confiança passa por comunicação transparente, coerência nas decisões e abertura ao diálogo.

É importante destacar que muitas das demandas frequentemente associadas à geração Z não são exclusivas desse grupo. Elas refletem expectativas que atravessam diferentes gerações, mas que hoje se tornam mais explícitas.

Ao trazer esses temas para o centro da discussão, a geração Z contribui para uma evolução mais ampla do mercado de trabalho.

Para as empresas, o desafio não está apenas em se adaptar, mas em aproveitar esse movimento como uma oportunidade de fortalecer culturas organizacionais mais coerentes, humanas e sustentáveis.

Assine o Correio do Estado

ARTIGOS

Qualidade de vida em uma história de 80 anos

Nascia em meio aos esforços de representantes patronais e da classe trabalhadora em prol de uma sociedade democrática o Serviço Social do Comércio

11/09/2026 07h30

Continue Lendo...

O ano de 1946 trouxe novos ares para o Brasil. O início da redemocratização no País, marcado por uma nova Constituição, representava a esperança de progresso e dias melhores. O Serviço Social do Comércio (Sesc) foi criado nesse cenário.

Nascia em meio aos esforços de representantes patronais e da classe trabalhadora em prol de uma sociedade democrática. E foi por meio da democratização do acesso aos mais diversos serviços que o Sesc marcou sua trajetória nesses 80 anos, completos no dia 13 de setembro.

Idealizada pelos empresários do comércio, a instituição tinha como missão proporcionar qualidade de vida aos trabalhadores do setor e seus familiares. Tratava-se, na época, de um conceito incipiente, que carecia de modelos representativos.

O termo qualidade de vida era relacionado a aquisição de bens, fruto de um momento pós-guerra, quando a sociedade começava a se reestruturar economicamente.

Mas a realidade era que uma vida de qualidade precisava abranger muitos outros aspectos. O bem-estar humano necessitava de saúde física, saúde mental, relações sociais e meio ambiente.

Era preciso pensar no indivíduo de forma integral, observar o contexto em que ele vivia, as condições necessárias para que pudesse desenvolver suas habilidades e autonomia.

Uma das primeiras ações do Sesc teve como foco o momento livre do trabalhador. A ideia era transformar esse tempo em uma experiência memorável, capaz de proporcionar equilíbrio a rotina de trabalho.

Surgiram então as primeiras colônias de férias e projetos como os veraneios gratuitos, promovidos no Rio Grande do Sul, que levavam os comerciários e seus familiares para férias no litoral gaúcho.

Os trabalhadores também encontravam lazer no Sesc com as atividades esportivas. Criado em 1949, os Jogos dos Comerciários logo viraram um sucesso, com times montados em lojas e fábricas, competindo em modalidades como futebol, basquete e pingue-pongue.

Até o rei Pelé participou. Com 16 anos, ele era aprendiz em uma fábrica de botas e fez parte do torneio em Bauru.

Na área de saúde, o desafio se mostrou um pouco maior. Na década de 1940, havia uma forte incidência em doenças infectocontagiosas, além de elevada mortalidade infantil. Em resposta à questão, o Sesc construiu em Minas Gerais o Sanatório Barreiro, com 600 leitos voltados ao tratamento da tuberculose.

Também houve investimento em maternidades. Em 1949 foi inaugurada no Rio de Janeiro a Maternidade Carmela Dutra, que com apenas um ano de funcionamento já recebia o prêmio Caduceu, concedido pelo Departamento Nacional da Criança, por ser o Hospital mais eficiente no combate à mortalidade materna e perinatal.

Não poderia faltar a atuação do Sesc em educação, grande norteadora de todas as suas ações. Nos anos 1940, grande parte dos adultos brasileiros eram analfabetos ou tinham o mínimo estudo, porque necessitavam cedo trabalhar.

Em 1948, o Sesc já apoiava cursos de alfabetização de adultos e o crescimento desse trabalho culminou em um programa específico, o Sesc Ler, criado em 1998, que levou alfabetização e inclusão social a jovens e adultos que abandonaram os estudos precocemente.

Hoje, a Rede Sesc de Educação está presente em toda a Educação Básica, da Educação Infantil a Educação de Jovens e Adultos. São 234 escolas e 70 polos de Ensino à Distância da EJA.

Diversas outras ações foram desenvolvidas ao longo desses 80 anos, várias delas pioneiras e que se tornaram referência para políticas públicas e iniciativas privadas. Muitas outras estão sendo estudadas. Novos projetos, planos que são construídos no dia a dia, mediante a observação do nosso público e do contexto social.

Aos 80 anos, o Sesc não para de crescer e se adaptar. Talvez seja esse o segredo de sua longevidade: atuar no dia a dia, lado a lado com esses milhões de brasileiros que escrevem a nossa história.

ARTIGOS

O Supremo precisa se explicar

Suspeita não significa culpa e todos têm direito à defesa; diante de acusações relevantes ministros permanecem em silêncio ou oferecem poucos esclarecimentos

11/09/2026 07h25

Continue Lendo...

O Supremo Tribunal Federal (STF) tem 135 anos de história republicana. Acompanho sua atuação desde 1988, quando iniciei a faculdade de Direito. Depois fiz mestrado em Direito Constitucional na PUC-SP e lecionei a disciplina durante 20 anos. Nunca vi o STF atravessar um momento como o atual.

É muito triste ver a Suprema Corte envolvida em tantas controvérsias e suspeitas. Suspeita não significa culpa e todos têm direito à defesa. Mas surpreende que, diante de acusações relevantes, ministros permaneçam em silêncio ou ofereçam poucos esclarecimentos.

Quem exerce tamanho poder também deve satisfação institucional ao País.

A isso se soma o excessivo protagonismo político assumido pelo STF nos últimos anos. A Corte passou a ocupar espaços cada vez maiores na vida nacional. Quanto maior o poder, maior deve ser a preocupação com autocontenção, imparcialidade e respeito aos limites constitucionais.

Há poucos dias, ouvi trabalhadores de uma obra ao lado do meu escritório fazendo críticas duríssimas ao STF e ao Judiciário. Percebi que o desgaste deixou os ambientes jurídicos e políticos e chegou às ruas. Isso é extremamente preocupante.

Há uma injustiça nisso tudo: o STF não é todo o Judiciário brasileiro. São milhares de juízes, desembargadores e ministros que trabalham muito, quase sempre em silêncio, estudando processos e cumprindo dignamente suas funções. Não é justo que todos paguem por suspeitas ou erros que não são seus.

Por isso, os fatos precisam ser esclarecidos rapidamente. Nem condenação antecipada nem proteção corporativa: investigação séria, transparência, direito de defesa e responsabilização, se houver irregularidades.

O Brasil precisa de um STF respeitado e de um Judiciário preservado. Quem respeita a Justiça deve ser o primeiro a exigir que todas as dúvidas sejam esclarecidas.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).