Artigos e Opinião

EDITORIAL

Benefício social exige dado, não achismo

Programas sociais não podem ser tratados nem como vilões automáticos nem como soluções mágicas, eles são ferramentas e precisam de dados, fiscalização e ajuda constante

Continue lendo...

Quando o assunto é benefício social, o primeiro desafio é vencer as paixões. E isso não é pouco. Poucos temas despertam tantos achismos, frases prontas e conclusões de mesa de boteco quanto programas de transferência de renda. Ainda assim, se quisermos discutir o tema com seriedade, é justamente dessas paixões que precisamos nos despir.

Programas como o Bolsa Família não são novidade. Eles existem há mais de duas décadas no Brasil e em Mato Grosso do Sul, atravessaram governos, crises econômicas e mudanças de nome e continuam no centro do debate público.

Fala-se, recorrentemente, em “porta de saída”, em dependência crônica do Estado e até em concorrência desleal com empregos de baixa remuneração, ancorados no salário mínimo. São discussões legítimas, mas que só fazem sentido quando sustentadas por dados, não por impressões.

A verdade é que constatações empíricas baseadas em casos isolados ou em narrativas convenientes não podem prevalecer quando se trata de política pública. Benefícios sociais exigem números, critérios claros, avaliação permanente de impacto e, sobretudo, fiscalização rigorosa.

É fundamental saber quem recebe, por que recebe e se ainda preenche os requisitos. As portas de entrada desses programas – especialmente os Centros de Referência de Assistência Social (Cras) – precisam funcionar com responsabilidade, transparência e controle.

Nesta edição, mostramos que apenas no ano passado o Bolsa Família, na esfera federal, e o Mais Social, no âmbito estadual, movimentaram mais de R$ 1,8 bilhão em Mato Grosso do Sul.

É um volume expressivo de recursos, superior, inclusive, ao que muitas prefeituras e grandes empresas desembolsam anualmente com folhas salariais. Ignorar esse dado ou tratá-lo de forma superficial é perder a dimensão real do tema.

Mas esse número também precisa ser analisado sob outro prisma: o econômico. Por se tratar de recursos destinados majoritariamente à população de baixa renda, há uma alta probabilidade de que esse dinheiro circule rapidamente na economia local.

Ele vai para o comércio de bairro, para o pequeno mercado, a farmácia da esquina, a padaria, o transporte. Em muitos casos, sustenta micro e pequenas empresas e ajuda a manter empregos.

Isso não significa, evidentemente, que o modelo não precise ser aprimorado. Pelo contrário. O caminho está no aperfeiçoamento, não na demonização. É urgente ampliar os mecanismos de controle para evitar distorções, como proibir o uso desses recursos em apostas e jogos on-line.

Também é necessário reforçar as condicionalidades, como a matrícula escolar e o acompanhamento das famílias pelas Unidades de Saúde.

Programas sociais não podem ser tratados nem como vilões nem como soluções mágicas, eles são ferramentas e, como toda ferramenta pública, precisam de dados, fiscalização e ajustes constantes. Só assim deixam de ser alvo de paixões e passam a cumprir, de fato, o papel para o qual foram criados.

EDITORIAL

Loterias: arrecadar com responsabilidade

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão que aumenta a arrecadação. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública

14/02/2026 07h15

Continue Lendo...

O governo de Mato Grosso do Sul decidiu relicitar o serviço de loterias estaduais. Trata-se de uma medida que, à primeira vista, pode causar desconfiança em parte da sociedade, especialmente em um momento em que o debate sobre apostas e jogos eletrônicos ganha contornos preocupantes no País.

Ainda assim, é preciso reconhecer: do ponto de vista fiscal, a iniciativa é positiva.

Ao assumir oficialmente a exploração da atividade, o Estado transforma em receita pública um fluxo financeiro que, gostemos ou não, já existe. As apostas digitais se disseminaram de forma acelerada no Brasil, muitas delas operadas por empresas sediadas fora do território nacional ou sob marcos regulatórios frágeis.

Quando o poder público organiza e regula esse mercado, cria condições para arrecadar recursos que podem – e devem – ser revertidos em políticas públicas.

Mato Grosso do Sul, aliás, é um dos últimos Estados a entrar formalmente nesse jogo das loterias estaduais. E fez certo ao não agir por impulso. Enquanto outras unidades da Federação correram para estruturar seus sistemas, o governo sul-mato-grossense observou, avaliou riscos e amadureceu o modelo. A cautela, nesse caso, foi virtude.

Mas justamente por chegar depois, o Estado tem a obrigação de fazer melhor. As novas loterias são essencialmente digitais, operadas por meios eletrônicos que ampliam o acesso e, ao mesmo tempo, potencializam riscos.

A facilidade de apostar pelo celular, a qualquer hora, é também a porta de entrada para a dependência. Os relatos de endividamento, conflitos familiares e adoecimento psíquico associados ao vício em jogos não podem ser ignorados.

Se a arrecadação é bem-vinda, a redução de danos deve ser prioridade. É fundamental que o edital e o contrato prevejam mecanismos claros de proteção ao consumidor: limites de apostas, ferramentas de autoexclusão, monitoramento de comportamento compulsivo e transparência nos dados.

Mais do que isso, é indispensável que parte dos recursos arrecadados seja destinada a campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos da dependência em jogos.

Essas campanhas não podem ser meramente protocolares. Devem ser constantes, amplas e financiadas também pela empresa operadora do sistema. Afinal, quem lucra com a atividade precisa compartilhar a responsabilidade social pelos seus efeitos colaterais.

Outro ponto inegociável é a transparência. A operação das loterias deve estar submetida a rígido controle, com divulgação periódica de arrecadação, destinação dos recursos e auditorias independentes. Só assim a sociedade poderá confiar que o dinheiro movimentado pelo jogo retorna, de fato, em benefícios coletivos.

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão pragmática e fiscalmente inteligente. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública. Que Mato Grosso do Sul mostre que é possível arrecadar sem fechar os olhos para os riscos.

ARTIGOS

O Carnaval como ensaio geral de uma vida mais inteira

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois

13/02/2026 07h45

Continue Lendo...

Ah, o Carnaval no Brasil. Por aqui, o Carnaval é só calor, suor que cola na pele, fantasia que mais revela do que esconde, samba que nasce no pé antes de chegar ao ouvido, o batuque dos tambores chamando o corpo para existir sem tradução.

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois.

É no Carnaval que as mulheres experimentam versões de si que passam o resto do ano sob vigilância. Saem com mais de uma pessoa, usam aplicativos sem culpa, flertam sem promessa, colecionam encontros, histórias e possibilidades. Não porque estão sozinhas, mas porque estão vivas.

Durante alguns dias, “ser mulher” não precisa ser explicado, não vira caráter, não vira diagnóstico, nem sentença. O Carnaval mostra desejos que não cabem na rotina, no crachá, no currículo ou no roteiro de “boa mulher, profissional de sucesso, cuidadora dedicada”.

A pergunta incômoda, que vem depois da Quarta-feira de Cinzas, é: por que essa liberdade só é tolerada como exceção?

Na carreira, acontece algo parecido. Mulheres que investigam novos caminhos, testam áreas, mudam de direção ou recusam trajetórias lineares (moldadas por uma forma masculina) ainda são vistas como instáveis, sem talento, pouco profissionais.

Como se maturidade fosse sinônimo de engessamento e enquadramento, e não de escolha consciente.

E se o Carnaval fosse só um ensaio do que a vida plena pode ser? Um espaço seguro para experimentar versões possíveis de si, encontrar seu propósito, o que te traz brilho nos olhos e autonomia para escolher nem leque amplo de opções profissionais que um dia foram ocupadas apenas por homens?

Fica aqui a proposição (ou provocação): aproveite o embalo do Carnaval e teste as suas versões possíveis. Com planejamento, estrutura e um pouquinho de coragem, talvez o ano inteiro possa ser assim.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).