Artigos e Opinião

EDITORIAL

Bets e o dinheiro das famílias

A proibição, entretanto, não encerra o problema. Será necessário impedir que o mercado legal simplesmente seja substituído por plataformas clandestinas

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A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de proibir as bets no Brasil, anunciada nesta sexta-feira, a nove dias do primeiro turno das eleições, reúne duas questões que precisam ser analisadas separadamente. A primeira é o mérito da medida. A segunda é o momento escolhido para adotá-la.

Sobre o primeiro ponto, é preciso reconhecer que as apostas eletrônicas se transformaram em um problema para muitas famílias brasileiras.

Estudo da Universidade de São Paulo (USP) estimou que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões do consumo e da atividade econômica em 2025, valor equivalente a até 1,1% do PIB.

Não se trata, portanto, apenas de uma questão de entretenimento ou de liberdade individual. Quando parte expressiva da renda das famílias é direcionada às apostas, esse dinheiro deixa de circular em outras atividades.

A reportagem publicada nesta edição mostra, inclusive, que a proibição poderá devolver uma cifra significativa à economia local.

É muito dinheiro movimentado. São bilhões de reais. O problema é que esse enorme fluxo financeiro está associado a uma atividade que gera relativamente poucos empregos formais. Levantamento citado nesta semana aponta 1.144 postos registrados até dezembro de 2024.

É difícil não questionar se esse dinheiro não estaria melhor aplicado nas famílias, no comércio e na economia de verdade.

Quando um trabalhador deixa de gastar sua renda em apostas e utiliza esse recurso para comprar alimentos, pagar uma conta, quitar uma dívida ou adquirir um produto, o dinheiro continua circulando por setores que empregam, produzem e prestam serviços.

Mas há um segundo ponto que não pode ser ignorado: o momento da decisão. A proibição ocorre justamente na reta final de uma eleição da qual Lula participa como candidato à reeleição.

A medida vinha sendo discutida pelo governo, mas o endurecimento ocorreu nos últimos dias, e reportagens registraram avaliações dentro do próprio campo político sobre seu possível impacto eleitoral.

É legítimo, portanto, perguntar: se as bets são tão nocivas, por que não foram proibidas antes? O Brasil passou anos discutindo a regulamentação dessas plataformas e criou um mercado legalizado antes de chegar à conclusão de que ele deveria acabar.

É preciso, porém, sair da torcida eleitoral e olhar para o problema concreto. Se as bets retiram recursos das famílias, contribuem para o endividamento e movimentam bilhões com geração limitada de empregos, há motivos econômicos e sociais para discutir sua permanência.

A proibição, entretanto, não encerra o problema. Será necessário impedir que o mercado legal simplesmente seja substituído por plataformas clandestinas, fiscalizar as operações financeiras e acompanhar os efeitos sobre famílias, comércio, arrecadação e empregos.

As bets já vão tarde. Se realmente se concluiu que esse modelo produz mais prejuízos do que benefícios, essa conclusão deveria ter sido tomada muito antes – certamente antes de uma eleição. O dinheiro das famílias não pode ser tratado como aposta política nem econômica.

ARTIGOS

Tsunami conservador

A reação popular utilizou o sufrágio como o instrumento mais legítimo de freios e contrapesos

10/10/2026 07h30

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O primeiro turno selou mais do que um resultado eleitoral, consagrou uma transfiguração profunda na geografia política do Brasil. O avanço avassalador de candidaturas de direita e centro-direita no Congresso e nos governos estaduais reconfigurou os eixos de poder da República.

Trata-se de um verdadeiro tsunami conservador, movido por uma indignação social articulada. Contudo, para compreender a real magnitude dessa onda, é preciso olhar para a Praça dos Três Poderes: o Supremo Tribunal Federal (STF) se tornou o principal catalisador desse processo por um clássico efeito bumerangue.

Ao longo dos últimos anos, a corte assumiu um protagonismo atípico na vida pública nacional. Sob o pretexto de resguardar a ordem constitucional, o STF frequentemente ultrapassou as fronteiras da autocontenção.

A judicialização ostensiva – marcada por condenações severas, restrições de fala, bloqueios de redes e intervenções na reta final – encontrou contraste direto na anulação dos processos da Lava Jato, que devolveram Lula ao jogo.

Onde a toga alegou técnica processual, o eleitor leu perseguição e blindagem seletiva. Ao trocar a neutralidade de árbitro pela tutela política, o ativismo judicial converteu sanção em “efeito mártir” e transformou a rejeição ao STF no combustível eleitoral mais potente do País.

As urnas refletiram esse embate com precisão matemática. Flávio Bolsonaro liderou a corrida presidencial com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, mandando a decisão para 25 de outubro.

Enquanto o herdeiro somou cinco milhões de votos a mais do que o pai em 2022, o incumbente perdeu 3,4 milhões e registrou o pior desempenho petista na etapa inicial desde 1998.

Nos estados, a onda foi igualmente avassaladora: das 20 disputas resolvidas de primeira, 13 consagraram nomes de direita, com vitórias expressivas de Tarcísio de Freitas em São Paulo, Sergio Moro no Paraná e Cleitinho Azevedo em Minas Gerais, isolando o PT em sua cidadela nordestina.

A reação popular utilizou o sufrágio como o instrumento mais legítimo de freios e contrapesos.

O Senado, arena constitucional para o controle do Judiciário, entregou a resposta com máxima nitidez institucional: o PL elegeu 19 senadores e atingirá 28 cadeiras em 2027 – o triplo da bancada do PT.

Com aliados do PP, Republicanos, União e Novo, o bloco conservador aproxima-se de 60% do plenário.

Vitórias no Distrito Federal, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, e em Santa Catarina, somadas à eleição de críticos contundentes como Deltan Dallagnol e Marcel van Hattem, estruturam a maioria necessária para impor sabatinas rigorosas, limitar decisões monocráticas e pautar eventuais impeachments.

Na Câmara, o PL atingiu o recorde de 121 deputados federais, puxado por votações históricas de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato.

A história demonstra que decisões judiciais não substituem a soberania popular nem pacificam controvérsias pela coerção. Ao tentar governar o conflito político, o STF acabou acelerando o levante que pretendia conter.

O tsunami eleitoral deixa um recado indiscutível para a República: quando a toga invade o terreno da política, a democracia reage e as urnas se encarregam de reestabelecer a vontade popular.

ARTIGOS

Reforma tributária imporá a Mato Grosso do Sul uma nova estratégia de desenvolvimento

Uma transformação será necessária caso o Estado queira manter a exitosa trajetória de crescimento econômico das últimas décadas

10/10/2026 07h25

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Durante décadas, Mato Grosso do Sul, assim como outros estados brasileiros, utilizou os incentivos fiscais como instrumento central para a atração de investimentos. Reduzir tributos se tornou o caminho mais acelerado para atrair indústrias, centros de distribuição e novos empreendimentos.

Esse modelo ajudou a impulsionar setores importantes da economia sul-mato-grossense, gerando empregos, interiorizando oportunidades e, ainda que de forma aparentemente contraditória, ampliando, por vezes, a arrecadação. No entanto, esse arranjo está com os dias contados.

Uma transformação profunda na estratégia de atração de investimentos será necessária caso o Estado queira manter a exitosa trajetória de crescimento econômico das últimas décadas.

Com a reforma tributária em curso, a lógica da competição entre os estados será alterada.

A transição para um sistema baseado na tributação no destino, e não na origem, bem como, a vedação de novos incentivos e benefícios fiscais, reduz significativamente o espaço para concessões fiscais como ferramenta central de desenvolvimento regional.

Isto é, MS, assim como outros estados que souberam utilizar bem esse instrumento, precisará reinventar sua estratégia de crescimento. É importante ressaltar que isso não significa uma perda inevitável, mas sim uma transição de modelo.

Nesse contexto, o novo cenário exige que MS substitua vantagens “artificiais” por vantagens estruturais. Em vez de competir oferecendo menos impostos, precisará competir oferecendo mais eficiência, um ambiente de negócios sólido, capital humano qualificado, logística moderna e capacidade de inovação.

Essa mudança, se bem conduzida, pode inclusive fortalecer o estado a longo prazo.

Mato Grosso do Sul possui ativos valiosos, localização estratégica no centro da América do Sul, forte base agroindustrial, fronteira internacional, potencial energético, segurança relativa e vocação para integrar cadeias produtivas do agronegócio, da indústria e da bioeconomia.

O desafio, agora, será transformar essas qualidades em políticas consistentes e continuadas.

Portanto, a Reforma Tributária não precisa ser encarada como um freio ao desenvolvimento do Estado, mas como o catalisador de um novo ciclo de desafios.

Talvez, a chave para o sucesso dessa transição dependerá da capacidade do setor público e privado de atuarem em sintonia, convertendo planejamento estratégico e fomento a inovação em entregas concretas.

A construção e fortalecimento desse ambiente moderno inovativo garantirá não apenas a atração de novos investimentos, mas um crescimento robusto e sustentável para as próximas gerações.

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