Artigos e Opinião

Editorial

Corrupção exige resposta dos prefeitos

Prefeitos, servidores e empresários precisam saber que contratos públicos não são territórios sem lei e que a utilização de recursos públicos exige transparência

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Há um problema evidente sobre o qual os prefeitos de Mato Grosso do Sul, por meio de sua associação, a Assomasul, precisam se debruçar: por que são tão frequentes os escândalos de corrupção envolvendo administrações municipais do interior do Estado?

Talvez muitos já saibam a resposta. A pergunta, porém, é retórica e serve, sobretudo, para provocar reflexão, e quem precisa refletir são os prefeitos e toda a classe política. Afinal, qual é o propósito da política? Por que alguém decide ingressar na vida pública e, depois de eleito, permite que contratos suspeitos, fraudulentos ou cercados de indícios de corrupção sejam firmados dentro da administração que deveria comandar?

Seria apenas despreparo? Essa hipótese, por si só, já exigiria uma análise mais crítica da sociedade que escolhe seus representantes e os coloca à frente de estruturas responsáveis por administrar recursos públicos, mas é difícil acreditar que todos os casos possam ser explicados simplesmente pela incompetência ou pela falta de conhecimento técnico.

Há, em muitos episódios, algo mais grave: a vontade deliberada de permitir que determinados interesses prosperem dentro da máquina pública. E essa vontade não parte apenas de políticos, há também empresários dispostos a buscar o dinheiro fácil, valendo-se de contratos públicos suspeitos e de relações pouco republicanas com gestores municipais.

Quando esses interesses se encontram, o resultado costuma ser a dilapidação dos recursos que deveriam financiar serviços essenciais à população.

É justamente nesse ponto que ganha importância o trabalho realizado pelas Promotorias de Justiça do Patrimônio Público de Mato Grosso do Sul. A fiscalização, a investigação e a responsabilização daqueles que eventualmente utilizam a administração pública em benefício próprio ou de terceiros são fundamentais para impedir que esses esquemas prosperem.

Mais do que recuperar recursos ou responsabilizar agentes públicos e privados, a atuação do Ministério Público tem uma função que não pode ser desprezada: ajudar a mudar a cultura política.

Quando um esquema é identificado e interrompido, rompe-se, ainda que parcialmente, um ciclo vicioso que durante muito tempo pode ter sido tratado como algo normal dentro de determinadas administrações.

A fiscalização também tem poder dissuasivo. Prefeitos, servidores e empresários precisam saber que contratos públicos não são territórios sem lei e que a utilização de recursos públicos exige transparência, responsabilidade e respeito ao interesse coletivo.

Quanto maior a percepção de que desvios serão descobertos e punidos, menor tende a ser o espaço para aventureiros que enxergam a prefeitura como oportunidade de enriquecimento.

Por isso, a sucessão de operações e investigações deve servir menos para alimentar o noticiário policial e mais para provocar uma reflexão política.

A Assomasul tem papel importante nesse debate. É preciso discutir mecanismos de prevenção, qualificação da gestão e, sobretudo, os limites éticos que devem orientar quem ocupa cargos públicos.

Editorial

Buracos nas ruas: solução à vista?

Ruas deterioradas não são um inconveniente inevitável. Trata-se de uma falha na prestação de um serviço público essencial, que afeta milhares de pessoas

17/10/2026 07h10

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A abertura, na segunda-feira, da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de Campo Grande para investigar a operação tapa-buraco é uma oportunidade para esclarecer responsabilidades e cobrar soluções.

Não é admissível que uma cidade com a capacidade econômica da Capital conviva com ruas tomadas por buracos, que comprometem a segurança, elevam os custos de manutenção dos veículos e prejudicam a mobilidade.

A situação é ainda mais grave porque, há poucos meses, o proprietário da empresa responsável pela manutenção das vias foi preso sob suspeita de corrupção, assim como o ex-titular da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos.

O caso exige explicações sobre os contratos, a fiscalização dos serviços e o destino dos recursos públicos destinados à conservação viária.

Cabe aos vereadores investigar possíveis irregularidades e identificar responsabilidades, respeitando o devido processo legal. O dinheiro público precisa ser aplicado com eficiência, e os contratos firmados pela administração devem produzir resultados compatíveis com os valores pagos.

Seria um erro, porém, limitar o trabalho da comissão à identificação de culpados. A apuração é indispensável, mas a população não pode continuar esperando por ruas em condições adequadas.

Mesmo que os agentes públicos e os empresários venham a ser responsabilizados, isso não tapa os buracos nem resolve os problemas acumulados nos bairros.

Também preocupa a passividade com que parte da sociedade parece aceitar a precariedade do serviço. Ruas deterioradas não são um inconveniente inevitável. Trata-se de uma falha na prestação de um serviço público essencial, que afeta milhares de pessoas e exige fiscalização permanente.

Não basta anunciar operações tapa-buraco ou realizar intervenções pontuais que perdem eficácia com as primeiras chuvas. A manutenção viária precisa seguir critérios técnicos, priorizar as regiões mais prejudicadas e apresentar resultados que possam ser medidos e fiscalizados.

Espera-se que a CPI não termine apenas com um relatório de responsabilidades, mas ajude a mudar essa realidade. A Prefeitura de Campo Grande precisa apresentar um plano estruturado de recuperação das vias, com prioridades definidas, cronograma, recursos previstos e mecanismos de acompanhamento.

Investigar irregularidades é uma obrigação. Evitar que se repitam e garantir um serviço de qualidade também. O sucesso da CPI não deve ser medido apenas pelo número de culpados identificados, mas pela capacidade de transformar as suas conclusões em providências concretas. Campo Grande precisa de respostas e, sobretudo, de ruas em condições dignas de uma capital.

Artigo

Maioridade penal: a pergunta errada

No Brasil, o adolescente responde por seus atos a partir dos 12 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), prevê medidas que vão da advertência à internação

16/10/2026 07h20

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A redução da maioridade penal voltou ao centro da política neste ano. Em junho, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, por 44 a 18 votos, a proposta que baixa de 18 anos para 16 anos a idade a partir da qual alguém responde como adulto. Em agosto, foi instalada a comissão especial que analisa o texto. Para valer, a mudança ainda precisa de três quintos dos votos, em dois turnos, na Câmara e no Senado.

A indignação que move esse debate é legítima. Ninguém aceita ver uma família destruída e ouvir que o autor “não vai pagar por nada”. Só que essa frase não corresponde à lei.

No Brasil, o adolescente responde por seus atos a partir dos 12 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), prevê medidas que vão da advertência à internação, que é a perda da liberdade em unidade para jovens, por até três anos, com liberação obrigatória aos 21 anos. O que a Constituição impede é que ele seja julgado como adulto e mandado ao presídio comum.

A comparação com outros países costuma ser feita pela metade. Alemanha e Espanha começam a responsabilizar adolescentes aos 14 anos (mais tarde que o Brasil) e sempre numa justiça juvenil especializada. Na Alemanha, o juiz pode aplicar a lei juvenil para jovens de até 20 anos, conforme a maturidade.

A Argentina baixou a idade de 16 anos para 14 anos em fevereiro, mas criou um sistema separado para essa faixa etária, com a prisão como último recurso. Nenhum desses modelos coloca um garoto de 16 anos na cela de um adulto.

Esse é o centro da minha preocupação. Das cerca de 960 mil pessoas que cumprem pena no Brasil, mais de 720 mil estão atrás das grades, em unidades superlotadas onde as facções recrutam com facilidade, oferecendo proteção em troca de lealdade.

O jovem que entra por um roubo pode sair como soldado do crime organizado, com a vida inteira pela frente.

Isso não quer dizer que o sistema atual funcione bem. Muitas unidades de internação estão lotadas, sem escola de verdade e sem acompanhamento depois da saída.

Há casos de crueldade extrema em que três anos parecem pouco, e esse ponto merece debate sério, inclusive sobre prazos maiores para crimes gravíssimos.

O caminho, porém, passa por fazer o ECA funcionar: internação que eduque, oficina que prepare para o trabalho, família por perto.

A pergunta que deveria nos ocupar é outra: o que fazer para que um menino de 16 anos não chegue aos 25 anos com uma ficha criminal extensa? A resposta está mais perto da escola e da família do que do presídio.

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