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Quanto vale a confiança?

Quando governos e empresas conseguem inspirá-la, reduzem incertezas, fortalecem a cooperação e criam condições para o desenvolvimento

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Muito se fala na importância de construir um ambiente de confiança para atrair investimentos e impulsionar o crescimento econômico. Não por acaso. Empresas investem onde encontram segurança jurídica, previsibilidade e estabilidade institucional. Em outras palavras, investem onde acreditam que compromissos serão cumpridos e regras serão respeitadas.

Essa confiança é construída ao longo do tempo e representa um dos ativos mais valiosos de qualquer sociedade. Quando governos e empresas conseguem inspirá-la, reduzem incertezas, fortalecem a cooperação e criam condições para o desenvolvimento.

A confiança pode ser comparada a uma ponte. Costumamos admirar a travessia, mas raramente olhamos para os pilares que a tornam possível. Eles não são feitos de concreto, são construídos, todos os dias, pela forma como líderes decidem, comunicam, escutam, reconhecem e tratam as pessoas. É sobre esses pilares invisíveis que se sustenta a confiança nas instituições.

Se reconhecemos o valor da confiança para impulsionar o desenvolvimento, por que ainda investimos pouco na confiança que depositamos nas pessoas que trabalham dentro das próprias organizações?

À primeira vista, pode parecer uma questão de gestão de pessoas. Não é. Trata-se de liderança, good governance e capacidade institucional. Décadas de pesquisas mostram que organizações não aprendem, não inovam, não identificam riscos nem resolvem problemas complexos apenas por força de leis e controles.

Tudo isso depende da disposição das pessoas para cooperar.

Diferentes correntes da literatura ajudam a compreender por quê. Robert Putnam demonstrou que a confiança fortalece o capital social e amplia a cooperação. Francis Fukuyama mostrou como sociedades de alta confiança desenvolvem maior capacidade de organização, favorecendo a competitividade e a prosperidade.

Oliver Williamson revelou o outro lado: onde há menos confiança, crescem os custos de transação e a necessidade de controles. Stephen M. R. Covey levou essa discussão para a gestão, ao mostrar que a confiança reduz custos e aumenta a velocidade das relações e das decisões.

Mas há algo ainda mais humano nessa equação. Covey lembra que poucas coisas são tão inspiradoras quanto saber que alguém confia em nós. A confiança, portanto, não é apenas aquilo que esperamos receber das pessoas, é também aquilo que as lideranças escolhem depositar nelas.

É aí que surge uma pergunta incômoda: os líderes das nossas organizações realmente reconhecem o valor estratégico da confiança?

Ambientes de confiança são resultado de escolhas diárias. A maneira como a liderança reage quando alguém apresenta uma ideia diferente, admite um erro, comunica um risco, questiona uma decisão ou traz um problema difícil comunica, todos os dias, se vale a pena cooperar ou apenas cumprir o mínimo necessário.

E não basta que o líder maior da instituição defenda publicamente a confiança como um valor estratégico. Ela precisa ser compreendida e protegida em todos os níveis de liderança.

Imagine, por exemplo, uma organização cujo responsável pelo programa de integridade conduza sua atuação quase exclusivamente pela vigilância, pela ameaça e pela punição.

Controles continuam necessários. O problema começa quando as pessoas passam a ser tratadas predominantemente como potenciais infratoras.

Nesse momento, a organização transmite duas mensagens incompatíveis. Vocaliza a confiança como um valor estratégico, mas comunica desconfiança nas decisões cotidianas. Ao longo do tempo, essa incoerência pode corroer, por dentro, os pilares da confiança que pretende projetar para fora.

O alerta ganha ainda mais relevância em tempos de inteligência artificial (IA). Pesquisa da Potential Project identificou que, para algumas funções da liderança e para a gestão de certas tarefas, trabalhadores já demonstram mais confiança na IA do que em seus próprios chefes.

Mais do que uma vitória da tecnologia, o dado deveria provocar uma reflexão sobre a qualidade das relações que estamos construindo dentro das organizações.

É justamente assim que organizações aparentemente excelentes podem começar a perder capacidade institucional.

Não necessariamente por uma grande crise, mas pela sucessão de pequenas incoerências que reduzem a disposição para comunicar problemas, compartilhar conhecimento, propor ideias e assumir responsabilidades.

Durante algum tempo, os resultados permanecem positivos. A fissura existe, mas ainda não pode ser vista da margem.

Quanto vale, então, a confiança?

Vale a cooperação que não pode ser imposta, o conhecimento que só circula quando as pessoas decidem compartilhá-lo e a coragem de revelar problemas antes que eles se transformem em crises. Vale, sobretudo, a possibilidade de mobilizar nas pessoas algo que nenhuma norma consegue exigir: a disposição de oferecer o melhor de si.

É por isso que reconhecer o valor da confiança é uma das responsabilidades mais importantes de quem lidera.

Bons líderes enxergam potencial onde outros enxergam apenas recursos a serem controlados e criam, por meio da confiança, condições para que esse potencial apareça.

No fim, talvez a pergunta mais importante para um líder não seja quanto vale a confiança.
É outra: minha forma de liderar comunica às pessoas que confio nelas?

EDITORIAL

Regras iguais para todos contra as fraudes

Não é justo que empresas que cumprem suas obrigações concorram em condições desfavoráveis com aquelas que fraudam o Fisco estadual e o Fisco federal

12/08/2026 07h10

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Nesta edição, mostramos uma face preocupante das fraudes fiscais no setor de combustíveis: o uso de uma estrutura que já abrigou uma pequena destilaria, em Iguatemi, no sul de Mato Grosso do Sul, como espécie de “coworking” para operações suspeitas envolvendo distribuidoras.

A situação reforça a necessidade de fiscalização rigorosa para impedir que estruturas empresariais sejam utilizadas para práticas ilícitas.

A falcatrua já está no radar das autoridades federais e é objeto de investigação. As investigações devem esclarecer as irregularidades, identificar os responsáveis e impedir que o sistema tributário seja transformado em terreno fértil para vantagens indevidas.

O combate a esse tipo de prática não pode depender apenas de grandes operações policiais.

É preciso, portanto, que a Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso do Sul (Sefaz) atue com firmeza. A fiscalização deve verificar sonegação, simulação de operações e outras formas de burlar as regras do mercado.

Também se espera atuação forte da Polícia Civil, por meio da estrutura responsável pelo combate aos crimes tributários. Quando a fraude ultrapassa a esfera administrativa e configura crime, é indispensável investigar e responsabilizar os envolvidos.

O ponto central é simples: as regras precisam ser iguais para todos. Não é justo que empresas que cumprem suas obrigações concorram em condições desfavoráveis com aquelas que fraudam o Fisco.

Quem paga corretamente seus impostos e enfrenta os custos da atividade econômica não pode ser penalizado pela concorrência desleal de quem escolhe o caminho da fraude.

A situação é ainda mais grave quando a sonegação se associa à lavagem de dinheiro para o crime organizado. É justamente esse tipo de conexão que torna relevante a investigação de empresas no âmbito da Operação Carbono Oculto.

Se estruturas empresariais forem usadas para dar aparência legal a recursos de origem ilícita, o prejuízo deixa de ser apenas tributário e atinge toda a sociedade e a segurança pública.

Por isso, não basta descobrir irregularidades. É preciso punir, dentro do devido processo legal, quem deliberadamente age contra a lei e, ao mesmo tempo, ajudar aqueles que trabalham corretamente a prosperar. Fiscalização eficiente protege o ambiente de negócios e reduz a concorrência desleal.

Mato Grosso do Sul precisa de um ambiente econômico saudável, no qual o sucesso seja resultado de trabalho, investimento e eficiência, e não da capacidade de driblar a legislação.

Ao punir quem frauda o Fisco e apoiar quem respeita as regras, o Estado fortaleceria ainda mais a economia formal e protegeria a sociedade. É assim, com regras claras e iguais para todos, que poderemos prosperar ainda mais.

ARTIGOS

As bets estão esvaziando o carrinho de compras do brasileiro

As bets transformaram-se em um dos principais destinos da renda disponível dos brasileiros, alterando significativamente a dinâmica do consumo

11/08/2026 07h20

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Durante décadas, o varejo brasileiro disputou espaço diretamente com outros varejistas. A concorrência acontecia entre supermercados, lojas de departamento, farmácias e, posteriormente, marketplaces e e-commerces.

Hoje, um novo competidor passou a disputar o mesmo orçamento das famílias e ele sequer vende produtos. As plataformas de apostas esportivas, popularizadas como bets, transformaram-se em um dos principais destinos da renda disponível dos brasileiros, alterando significativamente a dinâmica do consumo.

Impulsionadas pela forte presença publicitária, o acesso facilitado via smartphones e a regulamentação do setor, as apostas on-line não são apenas uma opção de entretenimento, elas competem diretamente com despesas que antes eram destinadas ao comércio, ao lazer, à aquisição de bens duráveis e até mesmo à formação de reservas financeiras.

Os números ajudam a dimensionar essa mudança, segundo o levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aproximadamente R$ 100 bilhões deixaram de circular no varejo brasileiro somente em 2024 para serem direcionados às plataformas de apostas.

Esse montante representa bilhões que deixaram de movimentar supermercados, farmácias, lojas de roupas, eletrodomésticos, restaurantes e inúmeros outros segmentos responsáveis pela geração de emprego e renda.

Antes, quando uma família tinha algum recurso disponível, esse valor costumava ser destinado à compra de um bem durável, à reforma da casa, a uma viagem, ao vestuário, ao lazer ou mesmo à construção de uma reserva financeira.

Hoje, parte desse orçamento passou a alimentar uma economia paralela, baseada na expectativa de retorno rápido e no estímulo constante ao consumo das apostas, e essa mudança de destino do dinheiro afeta muito mais do que o caixa das lojas.

Quando uma compra deixa de acontecer, toda uma cadeia econômica perde movimento.

Fabricantes reduzem pedidos, distribuidores diminuem operações, transportadoras movimentam menos cargas, centros de distribuição operam abaixo da capacidade e pequenas empresas passam a enfrentar mais dificuldades para manter fluxo de caixa e rentabilidade.

O impacto se espalha por diversos setores produtivos e chega, inevitavelmente, ao mercado de trabalho.

O desafio se torna ainda maior porque o varejo passa a enfrentar um concorrente completamente diferente daquele com o qual estava acostumado.

Não se trata mais apenas de oferecer preços competitivos ou melhores condições de pagamento, agora, disputa-se um recurso muito mais escasso: a atenção do consumidor e sua renda disponível.

Mais do que investir em promoções, o varejo precisará fortalecer sua capacidade de gerar valor percebido, construir relacionamentos duradouros, ampliar programas de fidelização e utilizar inteligência de dados para compreender, com maior precisão, as novas prioridades de consumo dos brasileiros.

O varejo brasileiro sempre soube competir entre si, mas o grande desafio desta década será aprender a competir com negócios que sequer fazem parte do comércio tradicional, mas que passaram a disputar exatamente o mesmo dinheiro do consumidor.

Afinal, cada real destinado a uma aposta é, potencialmente, um real que deixa de movimentar a economia produtiva. Essa talvez seja uma das mudanças mais profundas do comportamento de consumo no Brasil, e ignorá-la pode custar muito mais do que perda de vendas.

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