A situação do crédito em Mato Grosso do Sul chegou a um nível preocupante, como mostra levantamento da Serasa publicado nesta edição. Mais de 60% da população do Estado está inadimplente no sistema financeiro.
O número deveria servir como alerta para autoridades, instituições financeiras e, principalmente, para os próprios consumidores.
É importante distinguir inadimplência de endividamento. Ter dívidas não significa, necessariamente, estar inadimplente, quem tem financiamento ou prestações, mas paga os compromissos em dia, é adimplente.
O inadimplemento ocorre quando o consumidor deixa de honrar suas obrigações, sinal de que aparentemente já não dispõe de condições financeiras para fazê-lo.
O cenário também coloca em dúvida os efeitos de programas de renegociação, como o Desenrola e sua versão 2.0. Se houve algum resultado do programa, os números atuais sugerem que ele desapareceu.
Boa parte da população voltou a ficar com a corda no pescoço. Renegociar dívidas pode aliviar o problema momentaneamente, mas não elimina suas causas.
Programas como o Desenrola, ou qualquer outra iniciativa semelhante, têm alcance limitado. Podem reorganizar passivos e reduzir temporariamente a inadimplência, mas não produzem saúde financeira por si mesmos. Sem mudanças estruturais, a dívida apenas muda de forma e volta a crescer.
A primeira frente para enfrentar o problema, e também a mais difícil, é melhorar a renda da população. Com mais dinheiro no bolso, diminui a necessidade de recorrer ao crédito para satisfazer necessidades e tentações de consumo. Uma população com renda melhor e emprego estável tem mais condições de planejar, pagar suas contas e poupar.
No plano individual, também é preciso foco, disciplina e desapego. Resistir às tentações de consumo deveria ser o primeiro mantra da educação financeira.
Só assim o cidadão consegue sair gradualmente das dívidas e começar a formar uma reserva. A soma dessas mudanças individuais, em escala maior, produziria efeitos positivos sobre a economia.
Há, ainda, uma terceira frente: é preciso regular melhor o microcrédito. Banco Central e Ministério da Fazenda devem olhar com lupa para operações nocivas aos consumidores, especialmente aquelas que oferecem dinheiro fácil a juros estratosféricos.
Crédito não pode ser vendido como solução quando seu custo é capaz de empurrar uma família ainda mais para o endividamento.
Em hipótese nenhuma, crédito deve ser complemento de renda. Ele deve servir prioritariamente para financiar bens duráveis e projetos compatíveis com o orçamento familiar. A compra de bens não duráveis com dinheiro emprestado exige muita reflexão.
Mais do que renegociar dívidas, parte significativa da população precisa construir uma cultura de planejamento financeiro.
Afinal, quando mais de 60% da população está inadimplente, não há apenas um problema de crédito, há também um problema de renda, educação financeira, regulação e sustentabilidade do consumo.


