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Criatividade sob nova gestão

A criatividade depende do "pensamento divergente", aquela capacidade que temos de explorar múltiplas soluções e conectar conceitos distantes

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Imagina só: você finalmente encontrou a solução para ser criativo. Basta digitar um prompt, apertar “enter” e pronto, a máquina faz o trabalho que seu cérebro deveria fazer. Problema resolvido. Inovação garantida. Só que não!

Pesquisadores da Wharton School, na Universidade da Pensilvânia, mostraram que a inteligência artificial (IA) tornou todos nós criativos exatamente da mesma forma.

Sim, você leu certo. Este estudo mostrou que enquanto o ChatGPT melhora a qualidade média das ideias individuais, ele faz algo muito mais insidioso: força todos a pensar igual. Em um experimento simples, criar um brinquedo com um ventilador e um tijolo, participantes que usaram IA convergiram para a mesma solução.

Vários até nomearam a criação “Build-a-Breeze Castle”. Enquanto isso, o grupo sem IA gerou ideias completamente únicas. Apenas 6% das ideias com IA foram consideradas originais, contra 100% do grupo humano.

Isso significa que a IA transformou a criatividade em um jogo de múltipla escolha em que todos marcam a mesma resposta.

Do ponto de vista neurobiológico, o fenômeno é fascinante e aterrorizante simultaneamente. A criatividade depende do “pensamento divergente”, aquela capacidade que temos de explorar múltiplas soluções e conectar conceitos distantes.

A IA, porém, funciona por probabilidade. Ela oferece o caminho mais provável, a solução mais otimizada, o resultado mais esperado. É como se pedisse ao seu cérebro para caminhar por uma estrada perfeitamente asfaltada quando a verdadeira inovação está na floresta ao lado.

O resultado? Uma “mente coletiva” homogênea. Um eco cognitivo em que as melhores ideias são apenas variações sofisticadas do mesmo tema. A inovação disruptiva, aquela que muda indústrias inteiras, nasce da colisão de perspectivas radicalmente diferentes.

Quando todos bebem da mesma fonte probabilística, essa colisão nunca acontece. Todos pensam parecido. Todos chegam às mesmas conclusões. Todos fracassam juntos.

Mas aqui vem a ironia deliciosa: a solução não é abandonar a IA. É aprender a usá-la de forma diferente. Os pesquisadores de Wharton descobriram que variar os comandos, usar múltiplos modelos de IA e, obviamente, começar com pensamento humano antes de envolver a máquina conseguem mitigar essa convergência perigosa.

Chain of thought prompting, múltiplos modelos, prompts diversificados, técnicas simples que transformam a IA de uma muleta para o pensamento em um parceiro de treino legítimo.

A verdade incômoda que ninguém quer ouvir é esta: a IA não cria nada que você já não seja capaz de criar, ela apenas amplifica o que você já é. Se você é criativo, a IA potencializa sua criatividade, mas apenas se você souber dançar com ela, variar seus passos, desafiar suas sugestões.

Se você é medíocre, ela torna sua mediocridade mais eloquente, mais polida, mais convincente. A máquina não inventa, ela espelha, e espelhos, como sabemos, refletem exatamente o que colocamos na frente deles.

Se a criatividade humana começa a terceirizar a si mesma, talvez não seja a tecnologia que esteja avançando rápido demais, talvez sejamos nós que estejamos freando cedo demais.

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Fila única do INSS: avanço administrativo

Vidas suspensas, famílias inteiras submetidas à incerteza e, em muitos casos, pessoas que dependem exclusivamente do benefício para garantir a sobrevivência

20/01/2026 07h45

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A recente decisão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) de instituir uma fila única nacional para a análise de benefícios previdenciários e assistenciais representa um avanço relevante na gestão pública.

Ao permitir a redistribuição de processos entre diferentes regiões do País, a medida busca corrigir distorções históricas, equalizar prazos e utilizar de forma mais eficiente a força de trabalho disponível. Trata-se de um passo tecnicamente correto, que merece reconhecimento.

No entanto, a necessidade dessa mudança escancara uma realidade que não pode ser naturalizada: atualmente, cerca de três milhões de pessoas aguardam uma resposta do INSS. Não se trata de um número abstrato ou meramente estatístico.

São vidas suspensas, famílias inteiras submetidas à incerteza e, em muitos casos, pessoas que dependem exclusivamente do benefício para garantir a sobrevivência.

O Brasil dispõe de um sistema previdenciário frequentemente elogiado, com arcabouço constitucional sólido, regras claras e ampla capilaridade nacional. É, inclusive, citado como referência internacional em proteção social.

Justamente por isso, não é razoável que um sistema com essa estrutura conviva com filas tão expressivas, sobretudo quando se trata de benefícios de natureza alimentar.

Basta imaginar a situação de quem aguarda a concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Essa pessoa, por definição legal, encontra-se em condição de extrema vulnerabilidade social. Não há renda, não há poupança, não há margem de espera.

Cada mês de atraso significa dificuldade para se alimentar, adquirir medicamentos ou manter condições mínimas de dignidade.

O mesmo se aplica aos benefícios por incapacidade: trabalhadores afastados por doença ou acidente, sem condições de exercer atividade laboral, dependem dessa renda para atravessar um período já marcado por fragilidade física e emocional.

Há ainda o caso do trabalhador que, após mais de três décadas de contribuição ao INSS, alcança o direito à aposentadoria e se vê obrigado a permanecer no mercado de trabalho, mesmo em idade avançada, simplesmente porque a demora na análise do pedido o impede de encerrar seu ciclo laboral com segurança e dignidade.

A autarquia reconhece que aproximadamente 80% da fila é composta por pedidos de BPC e benefícios por incapacidade. A priorização desses requerimentos, conforme anunciado, é correta e necessária. Benefícios previdenciários e assistenciais não constituem privilégios nem favores estatais.

São instrumentos de proteção social e, em muitos casos, a linha tênue que separa a subsistência da miséria absoluta.

É importante destacar que a iniciativa do governo demonstra sensibilidade ao problema e disposição para enfrentá-lo.

A reorganização da fila, a centralização da gestão e os critérios de priorização sinalizam uma tentativa concreta de reduzir o estoque represado. Esse esforço deve ser reconhecido. Mas o reconhecimento não pode silenciar a crítica construtiva.

Uma fila dessa magnitude não pode ser tratada como algo estrutural ou inevitável. Precisa ser encarada como uma exceção a ser eliminada, e não como parte do funcionamento regular do sistema.

O Estado brasileiro não pode se acostumar a atrasar a entrega de direitos fundamentais, especialmente quando esses direitos dizem respeito à sobrevivência.

A fila do INSS não é apenas um problema administrativo. É um desafio social, humano e constitucional. Avançar na gestão é indispensável, mas o verdadeiro sucesso dessa política será medido quando o cidadão deixar de esperar e passar a receber, no tempo devido, aquilo que a lei já lhe assegura.

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O silêncio como método

O que realmente importa não está acontecendo dentro do Irã, mas fora dele: a forma como a comunidade internacional escolhe reagir ou fingir que não vê essa brutalidade

20/01/2026 07h30

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Cerca de 2.000 pessoas morreram no Irã desde o início dos protestos contra o regime. A resposta do governo foi desligar completamente a internet, endurecer a repressão nas ruas e empurrar a violência para longe dos olhos do mundo.

Nada disso é exatamente surpreendente. O que realmente importa não está acontecendo dentro do Irã, mas fora dele: a forma como a comunidade internacional escolhe reagir ou fingir que não vê essa brutalidade.

A comparação com outras crises recentes é inevitável. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a reação do Ocidente foi imediata e coordenada. Sanções pesadas, dezenas de bilhões em ajuda militar, cobertura midiática permanente e discursos inflamados sobre democracia e soberania.

No caso iraniano, mesmo com milhares de mortos, o que se vê são comunicados diplomáticos genéricos, nenhuma sanção nova relevante e um silêncio constrangedor da grande imprensa internacional. A pergunta não é se há diferença. É por que ela existe.

Essa diferença não tem relação com o número de vítimas nem com a gravidade das violações. É cálculo geopolítico puro. O Irã controla reservas de petróleo importantes para uma economia global ainda dependente de energia fóssil e ocupa uma posição central no equilíbrio nuclear do Oriente Médio.

Pressionar Teerã significa mexer em preços de energia, riscos regionais e cadeias de abastecimento. E poucos governos estão dispostos a pagar esse preço agora.

A contradição aparece de forma explícita na prática diplomática. A Europa divulga notas condenando a repressão aos protestos iranianos, mas continua sentada nas mesmas salas negociando a retomada do acordo nuclear.

Os Estados Unidos fazem discursos públicos sobre direitos humanos, enquanto nos bastidores calculam como evitar que o Irã se aproxime ainda mais da China e da Rússia. A mensagem é objetiva: direitos humanos importam, mas não tanto quanto interesses estratégicos.

Esse padrão seletivo não é exclusivo do Irã. A Arábia Saudita conduz há anos uma guerra devastadora no Iêmen e assassinou um jornalista dentro de seu consulado, sem sofrer isolamento real.

A China mantém campos de reeducação em Xinjiang e esmagou Hong Kong politicamente, recebendo apenas sanções simbólicas enquanto o comércio global segue normalmente.

A intensidade da reação internacional segue uma lógica previsível baseada em três fatores. Primeiro, a importância econômica do país: ele controla recursos essenciais? Segundo, seu alinhamento geopolítico: é aliado, adversário ou ambíguo? Terceiro, a existência de alternativas: ele pode ser facilmente substituído? Quando as respostas favorecem o país, a repressão é tolerada. Quando não favorecem, vira escândalo global.

O Brasil de Lula ilustra bem essa seletividade. Na guerra da Ucrânia, o governo falou em “clube da paz” e relativizou responsabilidades, chegando a equiparar Zelensky a Putin. Em Gaza, Lula classificou a ação israelense como genocídio.

Já no caso do Irã, onde o regime mata seus próprios cidadãos, o silêncio é absoluto. A diferença é simples: o Irã é parceiro nos Brics.

Essa seletividade não é acidente. É estratégia. Criticar Israel rende pontos com a base política e com o chamado Sul Global. Relativizar a Ucrânia agrada Rússia e China, parceiros comerciais essenciais.

Criticar o Irã, porém, colocaria em risco a arquitetura dos Brics e a ambição brasileira de liderar um bloco alternativo ao Ocidente. Direitos humanos entram, assim, como moeda de troca na construção dessa nova ordem multipolar.

O regime iraniano entende perfeitamente essa dinâmica. Por isso, calibra sua repressão com precisão. Violenta o suficiente para controlar as ruas e desencorajar novos protestos, mas de forma calculada para não ultrapassar o limite que forçaria uma reação internacional concreta. Eles sabem exatamente onde está a linha – porque o mundo já mostrou.

Para os manifestantes iranianos, a mensagem é cruel: vocês estão sozinhos. Haverá hashtags, notas de solidariedade e monumentos iluminados. Não haverá custo político real para quem reprime. A cavalaria não existe quando você protesta no país errado.

O problema não é a hipocrisia individual de líderes. É estrutural. Direitos humanos deixaram de ser princípios inegociáveis e passaram a ser fichas em negociações maiores. O caso do Irã não é uma exceção ao sistema internacional. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado.

Da próxima vez que surgir indignação seletiva no noticiário, vale fazer três perguntas simples: que negociação maior está acontecendo nos bastidores? Que recurso estratégico está em jogo? Quem precisa mais de quem nessa relação? As respostas quase sempre explicam o silêncio.

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