O Correio do Estado mostra nesta edição que a desatenção está entre as principais causas dos acidentes de trânsito em Campo Grande. O dado, por si só, já seria suficiente para acender o alerta sobre um problema que custa caro em vidas, provoca ferimentos, gera prejuízos materiais e compromete a mobilidade urbana.
Mas, cá para nós, não é preciso recorrer apenas às estatísticas para perceber a dimensão do problema, basta circular pelas ruas por alguns minutos para constatar que a desatenção ao volante se tornou praticamente uma epidemia.
É possível observar motoristas avançando o olhar para além do que acontece à frente, demorando para reagir à abertura de um semáforo, mudando de faixa sem a devida atenção ou simplesmente dirigindo como se estivessem em qualquer lugar menos no trânsito.
Pedestres também contribuem, muitas vezes atravessando vias sem observar adequadamente o movimento dos veículos. Em todos esses casos, há um elemento comum: a atenção, que deveria estar concentrada no deslocamento, está voltada para outra coisa.
As causas são variadas: cansaço, preocupações pessoais, pressa, conversas e até a rotina podem tirar do condutor a concentração necessária. Entretanto, nenhuma dessas distrações parece competir atualmente com o poder de atração das telas, sobretudo as dos celulares. Não poderia ser diferente.
A todo instante, novos estímulos chegam ao aparelho: mensagens, notificações de redes sociais, e-mails, aplicativos de transporte, notícias e uma infinidade de outros conteúdos disputam a atenção do usuário.
O problema é que, no trânsito, uma fração de segundo pode fazer toda a diferença.
Uma mensagem que parece impossível de esperar, uma rápida olhada na tela ou a tentativa de responder a uma notificação pode ser suficiente para que o motorista deixe de perceber um pedestre, um motociclista, um veículo freando ou um obstáculo na pista. O que parece um gesto banal pode terminar em uma tragédia.
É preciso, portanto, sair do hipnotismo das telas. Essa talvez seja a medida mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil. Celular e direção não combinam. Não se trata de demonizar a tecnologia, que é indispensável à vida moderna, mas de estabelecer limites para seu uso.
Quem está ao volante precisa compreender que nenhuma notificação é mais importante do que a própria segurança e a de quem compartilha a via.
A mudança, porém, não pode depender exclusivamente da consciência individual, é necessário ampliar e tornar mais efetiva a fiscalização, especialmente sobre o uso do celular durante a condução. A legislação já existe, mas precisa ser cumprida.
Fiscalização ostensiva, campanhas educativas e ações que levem os motoristas a perceber que a infração pode, sim, resultar em punição são instrumentos importantes para modificar comportamentos.
O trânsito de Campo Grande não será mais seguro apenas com obras, semáforos, radares ou mudanças na engenharia viária. Tudo isso é importante, mas nenhuma infraestrutura será capaz de compensar um motorista que simplesmente não está prestando atenção.
Segurança começa pelo comportamento de quem conduz, e estar presente no trânsito, com os olhos e a mente voltados para a via, é uma obrigação elementar. Desligar-se da tela pode ser, literalmente, uma maneira de permanecer vivo.


