Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Editorial desta sexta-feira: ''Planejamentos incoerentes''

Editorial desta sexta-feira: ''Planejamentos incoerentes''

Redação

12/06/2015 - 00h00
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Na lista de entraves, porém, figura no topo das incoerências o fato de a obra nem ter prazo para ser concluída e os peixes já estarem numa interminável “quarentena” 

Falta de planejamento representa desperdício de dinheiro público e diversos transtornos aos moradores. Obras públicas abandonadas são os símbolos mais visíveis da ineficiência administrativa, com descaso que dura anos e permanece mesmo depois das mudanças de gestões.

Essa desorganização também ficou evidente na obra do Aquário do Pantanal, a começar pelo cronograma e pelos valores a serem investidos. O montante extrapolou muito os R$ 84 milhões inicialmente previstos e pode chegar a R$ 300 milhões até a inauguração, que deve ocorrer no próximo ano. Considerando a dimensão da obra,  atrasos e aditivos poderiam ser compreendidos.

Entretanto, surpreende a diferença entre os preços e datas calculados pelas equipes que elaboraram os projetos e aquilo que acompanhamos na prática. 

Houve necessidade de outra empreiteira atuar na obra, atraso em peças que vieram do exterior e complexidade para montagem dos tanques por equipes especializadas. Mudança de gestão e dúvidas que culminaram em auditoria, além das investigações instauradas pelo Ministério Público Estadual. Nessa lista de entraves, porém, figura no topo das incoerências o fato de a obra nem ter prazo para ser concluída e os peixes já estarem numa interminável “quarentena” desde o ano passado. Por mês, são gastos R$ 150 mil com manuntenção e, se mantidos até dezembro, poderão ter consumido R$ 1,8 milhão em recursos. O governador Reinaldo Azambuja confirmou que alguns peixes já estão morrendo nos tanques improvisados na Polícia Militar Ambiental, sem precisar quantidade.  Recurso público que acaba perdido. 

O governo do Estado estuda a possibilidade de encaminhar as espécies para a unidade da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) de Aquidauana, onde há projetos de pesquisa em piscicultura. Seria a forma de diminuir gastos. Com urgência, alguma providência precisa ser adotada para, ao menos, tentar minimizar as perdas decorrentes das falhas. O Aquário hoje representa um dos principais casos de prejuízos quando o poder público assume determinado compromisso, mas tem dificuldades para cumpri-lo. Entretanto, temos diversos outros empreendimentos que esbarraram na falta de planejamento. A Orla Ferroviária, por exemplo, recebeu milhões em verbas, mas permanece subaproveitada e nunca cumpriu com o objetivo de ser nova opção de lazer à comunidade. Temos ainda outras obras importantes, a exemplo das intervenções no Rio Anhanduí, às margens da Ernesto Geisel, ou do Hospital do Trauma, cujos projetos tiveram de ser refeitos mais de uma vez. 

Falhas em licitação, aditivos aos valores inicialmente previstos, atrasos e suspensões alegando falta de verbas tornaram-se frequentes motivos para que empreendimentos sejam abandonados ou nem saíam do papel. Postos de saúde, creches e escolas são algumas das obras inacabadas que representam essa deficiência do poder público. Os problemas vão muito além da falta de dinheiro - hoje enfrentada por praticamente todas as administrações - e evidenciam a necessidade de mais competência técnica. Mesmo que tardiamente, as investigações e fiscalizações devem servir como instrumentos  de cobrança e punições em caso de irregularidades para que, dessa forma, os mesmos problemas deixem de ser tão recorrentes.  

ARTIGOS

O debate sobre telas na infância chegou aos cinemas

Com um tablet inteligente para o centro da narrativa, a nova animação de Toy Story toca em questões presentes na vida de famílias e educadores atualmente

03/07/2026 07h45

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Quando “Toy Story” estreou, em 1995, o maior medo dos brinquedos era serem esquecidos no fundo do armário. Trinta anos depois, a discussão parece ser outra: como as crianças estão brincando, aprendendo e se relacionando em um mundo cada vez mais digital?

É nesse cenário que “Toy Story 5” chega às telonas. Ao trazer um tablet inteligente para o centro da narrativa, a nova animação toca em uma das questões mais presentes na vida de famílias e educadores: qual é o papel da tecnologia no desenvolvimento infantil?

Durante muito tempo, essa conversa ficou presa a uma pergunta simplista – quanto tempo a criança ficou com a tela. A realidade, porém, é muito mais complexa. Nem toda experiência digital é igual.

Neste cenário, a provocação precisa ser outra: o que ela está vivendo enquanto está lá? O desafio é olhar para além do cronômetro e entender a qualidade da vivência.

No filme, Woody, Buzz e seus amigos vivem em um universo onde a imaginação é o motor de tudo. Um brinquedo vira personagem. Uma caixa vira nave espacial. Um quarto vira um mundo inteiro de possibilidades.

O que torna essas experiências tão valiosas não é o objeto em si, mas o que a criança faz com ele. E talvez essa seja a mesma pergunta que devemos fazer sobre a tecnologia: a tela está convidando a criança a criar ou apenas a consumir? Ela desperta curiosidade ou apenas entretém? Ela amplia possibilidades ou entrega tudo pronto?

Quando mudamos a pergunta, percebemos que a questão nunca foi a presença da tecnologia, mas a qualidade das experiências que ela proporciona.

Quando utilizada com intencionalidade pedagógica, a tecnologia pode se tornar uma ponte para experiências significativas de aprendizagem. Ambientes digitais podem estimular criatividade, resolução de problemas, colaboração, expressão e investigação.

O que faz a diferença não é a ferramenta em si, mas a forma como ela é utilizada e o papel que a criança ocupa naquela experiência. Quando ela cria, experimenta, imagina e descobre, a tela deixa de ser o destino e passa a ser apenas um meio.

Talvez essa seja a principal reflexão que “Toy Story 5” pode nos trazer. O desafio não é escolher entre o mundo físico ou o digital.

O desafio é garantir que a imaginação continue ocupando um lugar central na infância. Porque o problema nunca foi a tecnologia, o problema surge quando ela substitui a criatividade, a exploração e as experiências que ajudam a criança a construir significado sobre o mundo.

O filme também nos convida a assumir uma responsabilidade importante como educadores e famílias. Assim como buscamos informações sobre alimentação, sono, desenvolvimento motor e linguagem, chegou o momento de aprofundarmos nosso conhecimento sobre o universo digital.

Precisamos aprender a avaliar qual conteúdo faz sentido para cada idade, qual é a intenção daquela experiência, qual é o papel do adulto nessa mediação e, principalmente, o que aquela criança está vivendo naquele tempo?

Acredito que esse é o verdadeiro desafio da nossa geração. Não afastar as crianças da tecnologia, mas ajudá-las a fazer escolhas de qualidade com ela.

Porque, no fim, talvez a principal pergunta que “Toy Story 5” nos deixa seja: estamos prestando atenção somente no tempo que as crianças passam conectadas ou no conteúdo que elas realmente estão vivendo quando conectadas?

ARTIGOS

Entre os otimistas e os alarmistas: a reforma tributária no mercado imobiliário

A realidade costuma ser mais complexa e, ao mesmo tempo, mais interessante do que qualquer um dos dois lados imagina

03/07/2026 07h30

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A reforma tributária ainda nem entrou totalmente em vigor e já divide opiniões. Tem quem aposte que o novo sistema vai resolver distorções antigas, reduzir custos e destravar investimentos. Tem quem já dê como certo o contrário: carga tributária maior, mercado mais retraído, imóveis e aluguéis mais caros.

Nos 25 anos em que acompanho o mercado imobiliário de perto, aprendi a desconfiar de previsões assim, tanto as otimistas quanto as pessimistas. A realidade costuma ser mais complexa e, ao mesmo tempo, mais interessante do que qualquer um dos dois lados imagina.

A Lei Complementar nº 214/2025 reconheceu algo que quem atua nesse mercado sabe na prática: imóvel não se comporta como qualquer outra mercadoria. O ciclo é longo. Muitas vezes, o terreno foi adquirido anos antes de a obra começar.

O investimento é elevado e o retorno financeiro acontece de forma gradual. Aplicar a regra geral do IVA a essa realidade, sem nenhuma adaptação, ignoraria como o setor de fato funciona.

Foi por isso que o legislador criou um regime específico para incorporações, parcelamento do solo, locações, arrendamentos e compra e venda de imóveis. Isso não é privilégio. É reconhecer, na prática, que nem toda atividade econômica cabe na mesma régua.

Os mecanismos que sustentam esse regime, o Redutor de Ajuste, o Redutor Social e o Redutor de Alíquota, cumprem uma função específica: evitar que o novo sistema tribute patrimônio já constituído, preservar o acesso à moradia e adequar a incidência do IBS e da CBS às particularidades do mercado imobiliário.

Mas quem discute a reforma apenas pelas alíquotas está olhando para a parte mais simples do problema. A mudança de verdade acontecerá na rotina de quem trabalha com imóveis. O crédito tributário deixa de ser apenas uma linha na planilha e passa a integrar o resultado financeiro do empreendimento.

A nota fiscal deixa de representar mera burocracia e passa a influenciar diretamente a formação dos preços. A escolha dos fornecedores, a formalização dos contratos e a organização documental passam a impactar a competitividade das empresas.

Some-se a isso a integração entre a nota fiscal eletrônica, o Sinter, o Cadastro Imobiliário Brasileiro, a Dimob e os novos sistemas digitais de arrecadação. O Fisco passará a enxergar o mercado com um nível de detalhamento jamais visto.

A informalidade, que durante décadas encontrou espaço em parte das operações imobiliárias, tende a se tornar cada vez mais difícil de sustentar.

Isso não significa que todos pagarão mais tributos. Também não garante redução da carga tributária. Os efeitos dependerão da natureza de cada operação, do grau de formalização das atividades, do aproveitamento correto dos créditos tributários e, sobretudo, da capacidade de adaptação às novas regras.

Ao longo da minha trajetória profissional, aprendi que, em momentos de grandes transformações, quem sai na frente não é o mais entusiasmado nem o mais pessimista, é quem estuda, compreende a lógica do novo sistema e se prepara antes dos demais.

A reforma tributária já não é mais uma promessa, é rotina no mercado imobiliário brasileiro. E, nesse cenário, conhecimento técnico deixou de ser diferencial para virar condição básica de quem quer continuar investindo, empreendendo e construindo negócios sólidos.

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