Artigos e Opinião

ARTIGOS

Escala 6x1: atalho perigoso ou falha na gestão?

Em setores intensivos em mão de obra como varejo, supermercados, restaurantes e call centers , em que as margens já operam no limite, a reação tende a ser defensiva

Continue lendo...

Para muitas empresas brasileiras, o debate sobre o fim da escala 6×1 não é percebido como modernização do trabalho, mas como um alerta vermelho piscando no painel de controle.

Em setores intensivos em mão de obra – como varejo, supermercados, restaurantes e call centers –, em que as margens já operam no limite, a reação tende a ser defensiva. É importante dizer: essa resistência raramente nasce apenas de má vontade.

Ela reflete modelos de gestão ultrapassados, baixa digitalização, processos frágeis e um medo legítimo de perder previsibilidade operacional e financeira.

Menos dias trabalhados por pessoa podem significar, no curto prazo, mais contratações, horas extras ou redesenho de turnos, pressionando o caixa.

Em operações que funcionam sete dias por semana, com horários estendidos, a escala 6×1 ainda surge como a forma mais simples, embora rudimentar, de “fechar a conta”. O problema é que essa lógica se apoia mais no controle da presença do que em indicadores reais de produtividade.

Dados da OCDE e do Banco Mundial mostram que eficiência não está ligada a mais horas trabalhadas, mas ao melhor uso do tempo, processos e tecnologia. No fundo, a defesa da escala 6×1 decorre mais de conveniência e receio da mudança do que de convicção.

O desafio não é apenas trocar a escala, mas mudar a mentalidade gerencial: sair do controle para a eficiência, da presença para o resultado.

Do lado do empregador, a escala 6×1 reflete uma lógica levada ao limite: maximizar cobertura, diluir custos fixos e garantir operação contínua, ainda que à custa da qualidade do desenho do trabalho. Tornou-se um padrão histórico, baseado na ideia de que horas alocadas equivalem a produtividade.

Para o empregado, porém, a leitura é outra. O modelo prioriza o negócio sobre a energia humana, comprimindo descanso, vida pessoal e a capacidade de sustentar saúde e relações no longo prazo.

A mensagem implícita é clara: “você é substituível”, o que enfraquece vínculo, pertencimento e engajamento, especialmente em um mercado mais móvel e informal.

A aparente eficiência da jornada 6×1 cobra um alto preço no médio e longo prazo. Jornadas exaustivas aumentam a rotatividade, os custos ocultos e reduzem a produtividade, um paradoxo já apontado pela OCDE.

O cansaço crônico eleva falhas, acidentes e afastamentos por adoecimento físico e mental, segundo OMS e OIT. Em um mercado mais transparente, manter a escala 6×1 dificulta a atração de talentos e amplia o desgaste reputacional, inclusive diante das agendas de ESG.

O debate sobre o fim ou a flexibilização da escala 6×1 costuma ser rotulado como ideológico, mas essa leitura é simplista. Há discurso político dos dois lados, sem dúvida. No entanto, o núcleo da discussão contemporânea está cada vez mais ancorado em evidências de gestão, saúde ocupacional e produtividade.

Países com jornadas mais equilibradas tendem a performar melhor quando combinam organização do trabalho, tecnologia, qualificação e liderança preparada, segundo a OCDE.

No Brasil, a baixa produtividade não está no esforço individual, mas em falhas estruturais. Insistir em jornadas longas para compensar essas falhas é um paliativo perigoso.

A pergunta que separa discurso de gestão é simples: a empresa mede produtividade por hora, processo e resultado ou pelo cansaço visível das pessoas? Quando a resposta é a segunda, o problema não está na jornada, mas no modelo de gestão.

ARTIGOS

Trump sem tarifas, e agora?

Ao tentar utilizar uma legislação concebida para situações excepcionais como atalho para impor tarifas amplas, o presidente tensionou os limites institucionais da política comercial norte-americana.

23/02/2026 07h45

Continue Lendo...

A Suprema Corte norte-americana declarou ilegais as tarifas emergenciais impostas por Donald Trump. A decisão expõe uma fragilidade recorrente de sua estratégia econômica: a substituição de política pública estruturada por voluntarismo executivo.

Trump, ao tentar utilizar uma legislação concebida para situações excepcionais como atalho para impor tarifas amplas, tensionou os limites institucionais da política comercial norte-americana.

Ao restabelecer a prerrogativa do Congresso sobre matéria tributária e comercial, a Corte não apenas corrigiu uma distorção jurídica, mas também reforçou um princípio central da economia política moderna: decisões que alteram preços relativos, cadeias produtivas e relações internacionais não podem ser fruto de discricionariedade individual.

Do ponto de vista econômico, as tarifas emergenciais representaram um choque artificial nos termos de troca, elevando custos para empresas e consumidores sob a justificativa simplista de “proteção nacional”.

A literatura empírica é clara ao demonstrar que tarifas amplas tendem a gerar perda líquida de bem-estar, aumento de preços domésticos e ineficiências alocativas.

A tentativa de concentrar no Executivo a capacidade de impor tais medidas amplia o risco de políticas erráticas, guiadas por ciclos eleitorais ou disputas geopolíticas conjunturais.

Ao recolocar o Congresso no centro do processo decisório, a decisão judicial fortalece a deliberação democrática, amplia a transparência e reduz a probabilidade de choques unilaterais que desorganizem expectativas empresariais.

Mais do que um embate jurídico, trata-se de um episódio emblemático sobre governança econômica. O Congresso, como instância representativa e deliberativa, oferece maior previsibilidade e responsabilidade na formulação de política comercial.

Centralização tarifária no Executivo, como a ensaiada por Trump, cria incentivos à volatilidade normativa e à instrumentalização política do comércio exterior. Economias complexas exigem instituições que limitem impulsos personalistas e preservem regras estáveis.

Ao reafirmar o papel do Legislativo, a Suprema Corte contribui para restaurar racionalidade institucional em um tema que impacta diretamente investimento, inflação e inserção internacional dos Estados Unidos.

EDITORIAL

Voto consciente começa na informação

Vamos eleger representantes, não líderes espirituais. A fé é dimensão privada e legítima da vida de cada um. Gestão exige competência administrativa e respeito à diversidade

23/02/2026 07h15

Continue Lendo...

O ano eleitoral já começou. E, em períodos como este, é fundamental que o cidadão saiba distinguir de onde vêm as informações que consome. Nem todo conteúdo que circula nas redes sociais é notícia. Nem toda opinião travestida de análise é isenta.

Em um ambiente de excesso de dados, de ruído e de disputas narrativas, a informação independente torna-se ainda mais valiosa para a formação de convicções sólidas.

Será um ano decisivo. Nos próximos meses, cada eleitor terá a responsabilidade de avaliar qual é o melhor projeto para os próximos quatro anos – tanto para o Brasil quanto para Mato Grosso do Sul. Não se trata apenas de escolher nomes, mas de optar por rumos.

As decisões tomadas nas urnas terão reflexos diretos na economia, na educação, na saúde, na infraestrutura e na qualidade dos serviços públicos que impactam o cotidiano de todos.

A escolha não envolverá somente os chefes do Poder Executivo, responsáveis por executar políticas públicas. Envolverá também os parlamentares, cujo papel tem se ampliado significativamente.

A cada ano, deputados e senadores concentram mais influência sobre a destinação dos recursos públicos por meio de emendas e mecanismos orçamentários que redefinem prioridades.

Muitas vezes, esses recursos não passam por planejamento estruturado de políticas públicas, mas por decisões políticas diretas. Isso aumenta o peso do voto para o Legislativo.

Com parlamentares cada vez mais poderosos, cresce também a responsabilidade do eleitor. É preciso conhecer o histórico de quem pede seu voto. Como votaram? Quais pautas defenderam? A atuação deles está alinhada com os interesses que dizem representar?

E mais: a preferência partidária deles corresponde aos valores e prioridades que você considera essenciais? As informações estão disponíveis – basta disposição para buscá-las.

Em um cenário de polarização intensa, é igualmente necessário reduzir o espaço da emoção e ampliar o da razão. Promessas fáceis e discursos inflamados podem seduzir, mas o eleitor precisa medir o impacto real das propostas apresentadas.

Elas são viáveis? Têm fonte de financiamento? Produzirão efeitos concretos na sua vida e na vida da coletividade? Política pública não é slogan; é planejamento, execução e resultado.

Outro ponto essencial é separar valores subjetivos – especialmente os de natureza religiosa – das atribuições institucionais dos cargos em disputa.

Estamos elegendo governantes e legisladores, não líderes espirituais. A fé é dimensão privada e legítima da vida de cada um, mas a gestão pública exige competência administrativa, compromisso constitucional e respeito à diversidade.

Para ajudar você a tomar essas decisões, existe a imprensa. Esse é o nosso papel: levar fatos, contextualizar informações, fiscalizar o poder, confrontar versões e oferecer elementos para que cada cidadão forme sua opinião com base na realidade.

Em um ano eleitoral, mais do que nunca, a democracia depende de um eleitor bem informado.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).