Artigos e Opinião

EDITORIAL

Voto consciente começa na informação

Vamos eleger representantes, não líderes espirituais. A fé é dimensão privada e legítima da vida de cada um. Gestão exige competência administrativa e respeito à diversidade

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O ano eleitoral já começou. E, em períodos como este, é fundamental que o cidadão saiba distinguir de onde vêm as informações que consome. Nem todo conteúdo que circula nas redes sociais é notícia. Nem toda opinião travestida de análise é isenta.

Em um ambiente de excesso de dados, de ruído e de disputas narrativas, a informação independente torna-se ainda mais valiosa para a formação de convicções sólidas.

Será um ano decisivo. Nos próximos meses, cada eleitor terá a responsabilidade de avaliar qual é o melhor projeto para os próximos quatro anos – tanto para o Brasil quanto para Mato Grosso do Sul. Não se trata apenas de escolher nomes, mas de optar por rumos.

As decisões tomadas nas urnas terão reflexos diretos na economia, na educação, na saúde, na infraestrutura e na qualidade dos serviços públicos que impactam o cotidiano de todos.

A escolha não envolverá somente os chefes do Poder Executivo, responsáveis por executar políticas públicas. Envolverá também os parlamentares, cujo papel tem se ampliado significativamente.

A cada ano, deputados e senadores concentram mais influência sobre a destinação dos recursos públicos por meio de emendas e mecanismos orçamentários que redefinem prioridades.

Muitas vezes, esses recursos não passam por planejamento estruturado de políticas públicas, mas por decisões políticas diretas. Isso aumenta o peso do voto para o Legislativo.

Com parlamentares cada vez mais poderosos, cresce também a responsabilidade do eleitor. É preciso conhecer o histórico de quem pede seu voto. Como votaram? Quais pautas defenderam? A atuação deles está alinhada com os interesses que dizem representar?

E mais: a preferência partidária deles corresponde aos valores e prioridades que você considera essenciais? As informações estão disponíveis – basta disposição para buscá-las.

Em um cenário de polarização intensa, é igualmente necessário reduzir o espaço da emoção e ampliar o da razão. Promessas fáceis e discursos inflamados podem seduzir, mas o eleitor precisa medir o impacto real das propostas apresentadas.

Elas são viáveis? Têm fonte de financiamento? Produzirão efeitos concretos na sua vida e na vida da coletividade? Política pública não é slogan; é planejamento, execução e resultado.

Outro ponto essencial é separar valores subjetivos – especialmente os de natureza religiosa – das atribuições institucionais dos cargos em disputa.

Estamos elegendo governantes e legisladores, não líderes espirituais. A fé é dimensão privada e legítima da vida de cada um, mas a gestão pública exige competência administrativa, compromisso constitucional e respeito à diversidade.

Para ajudar você a tomar essas decisões, existe a imprensa. Esse é o nosso papel: levar fatos, contextualizar informações, fiscalizar o poder, confrontar versões e oferecer elementos para que cada cidadão forme sua opinião com base na realidade.

Em um ano eleitoral, mais do que nunca, a democracia depende de um eleitor bem informado.

Artigo

CIB e planejamento tributário: A era da rastreabilidade imobiliária.

A fragmentação informacional, que historicamente dificultava o cruzamento entre propriedade, contratos e rendimentos declarados, tende a ser progressivamente superada

14/04/2026 07h30

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A criação do Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB), no âmbito da reforma tributária, foi apresentada como medida de modernização administrativa e integração de dados.

De fato, não se trata da instituição de novo tributo, nem da alteração formal de alíquotas. Contudo, seus efeitos práticos ultrapassam o campo meramente cadastral e atingem, de forma sensível, a tributação dos aluguéis no Brasil.

Ao conferir a cada imóvel um identificador único nacional e integrar informações oriundas de cartórios, municípios, Receita Federal e órgãos fundiários, o CIB inaugura um novo patamar de transparência patrimonial.

A fragmentação informacional, que historicamente dificultava o cruzamento entre propriedade, contratos e rendimentos declarados, tende a ser progressivamente superada. O resultado é inequívoco: a capacidade de fiscalização sobre receitas locatícias será substancialmente ampliada.

Hoje, os aluguéis percebidos por pessoas físicas submetem-se à tributação progressiva do Imposto de Renda, podendo alcançar as alíquotas mais elevadas da tabela.

Já na pessoa jurídica, especialmente em estruturas de administração patrimonial, é possível, a depender do regime adotado, alcançar carga efetiva inferior e maior previsibilidade tributária. Essa diferença sempre estimulou debates sobre reorganização patrimonial e eficiência fiscal.

O CIB não altera essa estrutura normativa. O que ele modifica é o ambiente de controle. A partir da consolidação nacional de dados imobiliários, torna-se mais simples para o Fisco confrontar titularidade do bem, existência de contratos, valores de mercado e rendimentos efetivamente declarados.

A informalidade, que antes se beneficiava de lacunas cadastrais e da dispersão de informações, passa a conviver com risco fiscal significativamente maior.

Nesse contexto, ganha centralidade o planejamento tributário lícito e estruturado. Não se trata de evasão, mas de organização patrimonial racional. A definição entre manter imóveis na pessoa física ou integralizá-los em sociedade patrimonial, a escolha do regime tributário mais adequado, a formalização contratual compatível com a realidade econômica e a adequada escrituração dos recebíveis deixam de ser decisões secundárias e passam a integrar a estratégia essencial do investidor imobiliário.

A nova lógica é clara, quanto maior a integração informacional, menor a margem para improviso. O contribuinte que aufere renda de aluguéis precisa antecipar-se ao ambiente de rastreabilidade ampliada, ajustando sua estrutura jurídica à legislação vigente e avaliando impactos de curto e longo prazo.

Em síntese, o CIB não cria o imposto sobre aluguéis, mas fortalece o sistema que o fiscaliza. Se antes a desorganização patrimonial era tolerada pela dificuldade operacional de controle, agora a transparência estrutural impõe profissionalização. A tributação permanece a mesma; o grau de exposição, não.

Em razão do novo panorama, é impositivo que o investidor organizado possua não só imóveis sólidos e bem construídos materialmente mas, igualmente, no campo formal, é necessário um planejamento patrimonial estruturado sob pilares consistentes e construído com inteligência.

Em razão desse novo panorama, impõe-se ao investidor organizado não apenas a constituição de um portfólio imobiliário sólido sob o aspecto material, mas, sobretudo, a estruturação formal de seu patrimônio com rigor técnico.

A solidez física do ativo já não é suficiente; exige-se, igualmente, arquitetura jurídica consistente, planejamento tributário racional e governança patrimonial construída com inteligência estratégica.

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Editorial

Feminicídio: um desafio coletivo?

As igrejas, por exemplo, poderiam contribuir de forma mais incisiva para a promoção do respeito à mulher e de sua autonomia. No entanto, esse é um terreno sensível

14/04/2026 07h15

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Se soubéssemos as respostas, provavelmente não começaríamos este texto com uma pergunta. Mas é justamente a ausência de soluções definitivas que impõe à sociedade o dever de buscá-las de forma permanente e responsável.

Diante de um problema tão grave quanto o feminicídio, insistir apenas em velhas fórmulas, baseadas na tentativa e erro, revela-se não apenas insuficiente, mas perigoso.

É preciso ciência. Compreender o fenômeno exige dados consistentes, estudos aprofundados e análises que revelem suas causas, padrões e fatores de risco.

O feminicídio não é um ato isolado, mas o resultado de uma cadeia de violências que se acumulam ao longo do tempo, muitas vezes ignoradas ou naturalizadas.

Combater esse crime sem viés – seja ideológico, político ou institucional – é condição essencial para que políticas públicas sejam efetivas e duradouras.

Também é necessário adotar a transversalidade. O enfrentamento não pode ficar restrito às forças de segurança ou ao sistema de Justiça, que, em geral, atuam quando a violência já atingiu seu estágio mais extremo.

É preciso agir antes, nos espaços em que comportamentos são formados e reproduzidos, como a escola, a família, os ambientes de trabalho e a convivência social.

Prevenção exige presença contínua e ação coordenada.

O combate ao feminicídio envolve toda a sociedade. Não se trata de uma responsabilidade exclusiva do Estado, embora o poder público tenha papel central na formulação e execução de políticas.

Trata-se de uma transformação cultural profunda, que exige revisão de valores, práticas e discursos que ainda hoje relativizam ou silenciam a violência contra a mulher.

Nesse contexto, é inevitável discutir o papel das instituições que influenciam diretamente a formação desses valores. As igrejas, por exemplo, poderiam contribuir de forma mais incisiva para a promoção do respeito à mulher e de sua autonomia. No entanto, esse é um terreno sensível.

Ao mesmo tempo em que preservam valores associados à família, muitas dessas instituições acabam, ainda que indiretamente, reforçando padrões que mantêm a mulher em posição de subordinação, insistindo em valores que mantém as mulheres em posição de subjugação perante a sociedade.

Esse é apenas um dos muitos desafios que precisam ser enfrentados com seriedade. Frear os índices de feminicídio exige reconhecer a complexidade do problema e abandonar respostas simplistas.

Não haverá solução única ou imediata. Mas há um caminho possível: investir em conhecimento, integrar esforços e assumir, como sociedade, a responsabilidade de enfrentar uma realidade que já não pode ser ignorada nem tolerada.

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