Artigos e Opinião

ARTIGOS

Fila única do INSS: avanço administrativo

Vidas suspensas, famílias inteiras submetidas à incerteza e, em muitos casos, pessoas que dependem exclusivamente do benefício para garantir a sobrevivência

Continue lendo...

A recente decisão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) de instituir uma fila única nacional para a análise de benefícios previdenciários e assistenciais representa um avanço relevante na gestão pública.

Ao permitir a redistribuição de processos entre diferentes regiões do País, a medida busca corrigir distorções históricas, equalizar prazos e utilizar de forma mais eficiente a força de trabalho disponível. Trata-se de um passo tecnicamente correto, que merece reconhecimento.

No entanto, a necessidade dessa mudança escancara uma realidade que não pode ser naturalizada: atualmente, cerca de três milhões de pessoas aguardam uma resposta do INSS. Não se trata de um número abstrato ou meramente estatístico.

São vidas suspensas, famílias inteiras submetidas à incerteza e, em muitos casos, pessoas que dependem exclusivamente do benefício para garantir a sobrevivência.

O Brasil dispõe de um sistema previdenciário frequentemente elogiado, com arcabouço constitucional sólido, regras claras e ampla capilaridade nacional. É, inclusive, citado como referência internacional em proteção social.

Justamente por isso, não é razoável que um sistema com essa estrutura conviva com filas tão expressivas, sobretudo quando se trata de benefícios de natureza alimentar.

Basta imaginar a situação de quem aguarda a concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Essa pessoa, por definição legal, encontra-se em condição de extrema vulnerabilidade social. Não há renda, não há poupança, não há margem de espera.

Cada mês de atraso significa dificuldade para se alimentar, adquirir medicamentos ou manter condições mínimas de dignidade.

O mesmo se aplica aos benefícios por incapacidade: trabalhadores afastados por doença ou acidente, sem condições de exercer atividade laboral, dependem dessa renda para atravessar um período já marcado por fragilidade física e emocional.

Há ainda o caso do trabalhador que, após mais de três décadas de contribuição ao INSS, alcança o direito à aposentadoria e se vê obrigado a permanecer no mercado de trabalho, mesmo em idade avançada, simplesmente porque a demora na análise do pedido o impede de encerrar seu ciclo laboral com segurança e dignidade.

A autarquia reconhece que aproximadamente 80% da fila é composta por pedidos de BPC e benefícios por incapacidade. A priorização desses requerimentos, conforme anunciado, é correta e necessária. Benefícios previdenciários e assistenciais não constituem privilégios nem favores estatais.

São instrumentos de proteção social e, em muitos casos, a linha tênue que separa a subsistência da miséria absoluta.

É importante destacar que a iniciativa do governo demonstra sensibilidade ao problema e disposição para enfrentá-lo.

A reorganização da fila, a centralização da gestão e os critérios de priorização sinalizam uma tentativa concreta de reduzir o estoque represado. Esse esforço deve ser reconhecido. Mas o reconhecimento não pode silenciar a crítica construtiva.

Uma fila dessa magnitude não pode ser tratada como algo estrutural ou inevitável. Precisa ser encarada como uma exceção a ser eliminada, e não como parte do funcionamento regular do sistema.

O Estado brasileiro não pode se acostumar a atrasar a entrega de direitos fundamentais, especialmente quando esses direitos dizem respeito à sobrevivência.

A fila do INSS não é apenas um problema administrativo. É um desafio social, humano e constitucional. Avançar na gestão é indispensável, mas o verdadeiro sucesso dessa política será medido quando o cidadão deixar de esperar e passar a receber, no tempo devido, aquilo que a lei já lhe assegura.

EDITORIAL

Uma âncora em tempos de incerteza

O acordo entre Mercosul e União Europeia aponta uma direção: mesmo em um mundo mais instável, a cooperação econômica ainda pode ser um caminho

06/03/2026 07h15

Continue Lendo...

O mundo atravessa um momento de inflexão. A globalização que marcou as últimas décadas, baseada em cadeias produtivas integradas e relativa estabilidade geopolítica, já não parece tão sólida quanto antes.

Conflitos armados voltam a ganhar espaço Fna cena internacional e rivalidades estratégicas entre grandes potências passam a influenciar diretamente a economia global.

O confronto recente envolvendo os Estados Unidos e o Irã no Oriente Médio é apenas um dos sinais dessa nova realidade. Somam-se a ele as tensões comerciais persistentes entre os Estados Unidos e a China, que vêm reorganizando fluxos de comércio e investimentos ao redor do planeta.

Nesse cenário, cresce a percepção de que o mundo caminha para uma fase mais fragmentada, em que interesses nacionais e disputas estratégicas tendem a se sobrepor às dinâmicas de cooperação econômica que prevaleceram por décadas.

É justamente em períodos como este que os acordos comerciais amplos e estruturantes se tornam ainda mais relevantes. Eles funcionam como âncoras de previsibilidade em um ambiente internacional cada vez mais volátil.

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia se insere exatamente nessa lógica. Mais do que um instrumento para ampliar trocas comerciais, ele representa um compromisso de longo prazo entre dois grandes blocos econômicos.

Ao estabelecer regras claras, reduzir barreiras e criar um ambiente mais estável para o comércio, o tratado fortalece laços que podem passar por períodos de turbulência global.

Não se trata apenas de abrir mercados. Trata-se de consolidar uma relação econômica estratégica entre regiões que compartilham valores institucionais importantes, como a previsibilidade jurídica e o respeito às normas internacionais. Em tempos de instabilidade, esse tipo de parceria ganha peso ainda maior.

Para o Brasil, e particularmente para os estados com forte vocação exportadora, o acordo surge como uma oportunidade relevante de expansão econômica. Mato Grosso do Sul é um exemplo claro dessa perspectiva.

Com uma base produtiva consolidada no agronegócio e uma indústria em processo de fortalecimento, o Estado reúne condições para ampliar sua presença em mercados exigentes e de alto valor agregado.

Ao mesmo tempo, a aproximação econômica com a Europa também pode favorecer investimentos, transferência de tecnologia e modernização industrial – fatores essenciais para sustentar ciclos de crescimento mais duradouros.

Nada disso elimina os desafios que ainda cercam o cenário internacional. A volatilidade nos preços de energia, as incertezas em cadeias de suprimento e os riscos geopolíticos continuam presentes.

No entanto, justamente por causa dessas incertezas, iniciativas que ampliem parcerias econômicas e reforcem a integração entre mercados tornam-se ainda mais valiosas.

O acordo entre Mercosul e União Europeia não resolve todos os dilemas do comércio global contemporâneo. Mas aponta uma direção importante: mesmo em um mundo mais instável, a cooperação econômica ainda pode ser um caminho para gerar prosperidade.

E, diante das turbulências que se desenham no horizonte internacional, essa pode ser uma das decisões mais acertadas para o futuro econômico da região.

ARTIGOS

O efeito colateral do mercado paralelo na guerra contra a obesidade

Anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados inéditos

05/03/2026 07h45

Continue Lendo...

Depois de décadas de inércia, a medicina finalmente começa a oferecer respostas mais consistentes para uma das doenças crônicas mais prevalentes do planeta: a obesidade.

Foram anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados inéditos. Hoje, fala-se em perdas de 15% até 25% do peso corporal com fármacos aprovados.

A expectativa agora se volta para a retatrutida, triplo agonista ainda em estudo que, em fases clínicas, mostrou perdas de até 30% do peso corporal, superiores às da tirzepatida, comercializada como mounjaro. Mas há um detalhe essencial: a retatrutida ainda não foi aprovada em nenhum país.

Ainda assim, surgiu a notícia de que a empresa Éticos, conhecida por já ter produzido medicamentos proibidos no Brasil, anunciou o lançamento de uma suposta retatrutida com o nome comercial ReduFast.

Pouco depois, a Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria informou que não concedeu aprovação oficial para o produto nem mesmo no Paraguai.

É aqui que mora o verdadeiro perigo.

Já conhecemos os danos do mercado paralelo das chamadas “canetas emagrecedoras”: produtos sem rastreabilidade, sem garantia de armazenamento adequado e sem comprovação da composição. Há relatos de efeitos adversos graves, contaminações e substâncias diferentes das prometidas, um risco sanitário evidente.

Mas existe um efeito colateral ainda mais perverso: a difamação do tratamento da obesidade.

Quando alguém usa um produto clandestino, sofre um efeito adverso e associa o problema à “caneta para emagrecer”, não é apenas aquele produto que perde credibilidade. É toda a classe terapêutica. É a ciência. É o tratamento desenvolvido dentro das regras. É o paciente que passa a ouvir: “Viu? Essas injeções fazem mal”.

A obesidade já carrega estigma suficiente e ainda é tratada como falha moral ou falta de força de vontade.

Trata-se, porém, de uma doença crônica, complexa e multifatorial, associada a maior risco de infarto, acidente vascular cerebral e diversos tipos de câncer. Negar tratamento adequado é perpetuar sofrimento e custos humanos e econômicos.

Se permitirmos que o mercado paralelo avance antes da eventual aprovação oficial da retatrutida, o cenário é previsível: produtos de origem duvidosa, eventos adversos graves, manchetes alarmistas e uma população cada vez mais desconfiada. O medo se espalha. O preconceito se reforça. E quem realmente precisa do tratamento fica sem acesso, seja por receio, seja por restrição futura mais rígida.

É urgente conscientizar a população sobre a importância de respeitar os trâmites oficiais e reforçar a vigilância sanitária e o controle de fronteiras para evitar a entrada de produtos não aprovados que exploram a esperança de quem luta contra a obesidade.

Quando o atalho vira regra, a conta chega, não apenas em efeitos colaterais físicos, mas em descrédito social. O risco maior não é a molécula em si, e sim transformar uma das maiores conquistas recentes da medicina em mais um capítulo de desinformação e medo.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).