Artigos e Opinião

EDITORIAL

IA, deepfakes e o risco às eleições

O avanço da inteligência artificial na sociedade é irreversível. Ignorar seus efeitos sobre as eleições seria ingenuidade e subestimá-los, um erro grave

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Os alertas feitos por advogados especialistas em Direito Eleitoral destacados nesta edição não podem ser tratados como alarmismo ou exagero retórico.

Eles dizem respeito a um risco real, concreto e crescente para as eleições que se aproximam neste ano: o uso indiscriminado e malicioso da inteligência artificial (IA) como ferramenta de manipulação política.

Trata-se de um tema que ultrapassa o debate jurídico e alcança a própria essência do processo democrático, exigindo atenção não apenas das autoridades, mas de toda a sociedade.

A tecnologia, por si só, não é vilã. A inteligência artificial já demonstra enorme potencial positivo em diversas áreas, da saúde à educação, da produtividade econômica à pesquisa científica.

O problema surge quando ferramentas poderosas passam a ser utilizadas sem freios éticos, legais ou sociais, especialmente em ambientes sensíveis como o debate público e o período eleitoral. É exatamente esse o ponto de preocupação levantado pelos especialistas ouvidos pela reportagem.

Como o texto explica adiante, a popularização da IA tornou algo antes restrito a poucos especialistas em um recurso acessível a praticamente qualquer pessoa: a criação de deepfakes.

Se antes era necessário dominar softwares complexos de edição de imagem e vídeo, além de conhecimentos técnicos avançados, hoje basta formular um comando – um prompt – para que sistemas de IA gerem vídeos, áudios ou imagens extremamente realistas, capazes de colocar palavras na boca de quem nunca as disse ou ações em corpos que jamais as praticaram.

O risco é evidente. Em um ambiente já saturado por desinformação, a disseminação de deepfakes tem potencial para confundir eleitores, destruir reputações, interferir na formação de opinião e desequilibrar disputas eleitorais.

A velocidade com que esse tipo de conteúdo pode ser produzido e espalhado supera, muitas vezes, a capacidade de resposta das instituições e dos mecanismos tradicionais de checagem. Quando a mentira chega antes da verdade, o dano já está feito.

Por isso, é fundamental que a Justiça Eleitoral, os órgãos de controle e as plataformas digitais estejam atentos e atuem de forma preventiva. Mas não basta repressão posterior. É preciso educação, informação e antecipação.

A população precisa saber que esse tipo de conteúdo existe, entender como ele é produzido e, sobretudo, desconfiar do que vê e ouve, especialmente em períodos eleitorais. Alfabetização digital deixou de ser um luxo e se tornou uma necessidade democrática.

Também cabe aos atores bem-intencionados – instituições, imprensa, universidades e sociedade civil organizada – antecipar o jogo.

Explicar o que são deepfakes, como funcionam as fake news impulsionadas por IA e quais são seus objetivos é uma forma de reduzir o impacto desse tipo de manipulação. Transparência e esclarecimento são armas eficazes contra a desinformação.

Além disso, é indispensável cobrar responsabilidade das empresas que desenvolvem e operam algoritmos de inteligência artificial.

As ferramentas de machine learning precisam ser cada vez mais blindadas contra usos maliciosos, com filtros, rastreabilidade e mecanismos que dificultem a geração de conteúdos fraudulentos. A inovação não pode caminhar dissociada da responsabilidade.

O avanço da IA é irreversível. Ignorar seus efeitos sobre as eleições seria ingenuidade e subestimá-los, um erro grave.

Artigo

Desmatamento global diminui, mas continua elevado

O relatório avalia os avanços no cumprimento dos compromissos assumidos por países, empresas e investidores para eliminar o desmatamento

22/10/2026 07h20

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O desmatamento destruiu 7 milhões de hectares de florestas nativas no mundo em 2025, 15% menos que em 2024. Apesar dessa queda, a perda continua muito acima do nível necessário para cumprir a meta de desmatamento zero até 2030.

O diagnóstico é da edição de 2026 do Forest Declaration Assessment, elaborado por uma coalizão de organizações da sociedade civil e de pesquisa.

O relatório avalia os avanços no cumprimento dos compromissos assumidos por países, empresas e investidores para eliminar o desmatamento e restaurar 30% dos ecossistemas florestais degradados até 2030.

Para isso, mede as variações anuais na perda de florestas em relação ao período de referência de 2018 a 2020 – quando o desmatamento atingiu uma média de 8,3 milhões de hectares por ano – e avalia se a redução avança no ritmo necessário para chegar a zero em 2030.

“É uma boa notícia, mas ainda estamos muito longe do progresso necessário para atingir a meta de desmatamento zero até 2030”, disse ao SciDev.Net Erin Matson, coautora do relatório, ao comentar a queda no desmatamento.

Entre 2021 e 2024, o desmatamento anual praticamente não se afastou da linha de base de 8,3 milhões de hectares. Segundo Matson, para manter a trajetória rumo ao desmatamento zero em 2030, a perda de florestas teria de diminuir cerca de 1 milhão de hectares por ano.

“Nesse ritmo, o desmatamento não deveria ter ultrapassado 5 milhões de hectares em 2024, mas chegou a 8 milhões. Em 2025, deveria ter caído para 4,2 milhões de hectares, mas somou 7 milhões”, acrescentou.
Isso faz de 2025 uma exceção, não um novo padrão.

“Se estivéssemos no caminho para alcançar o desmatamento zero, hoje ainda haveria 10,7 milhões de hectares de floresta em pé, uma área equivalente à da Islândia”, afirmou Erin Matson, consultora principal da Climate Focus, organização internacional de assessoria que trabalha com o desenvolvimento de políticas e projetos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Diferenças regionais: a situação é especialmente preocupante na Bacia do Congo, na África, a segunda maior bacia de floresta tropical do mundo, depois da Amazônia, e onde se encontra uma das maiores áreas remanescentes de floresta tropical intacta do planeta.

Em 2025, a região perdeu 2,4 milhões de hectares, cifra semelhante à registrada na América Latina tropical – um dos principais focos de desmatamento do mundo –, que perdeu 2,5 milhões de hectares.

Segundo o relatório, nos últimos cinco anos, medidas adotadas em alguns países latino-americanos – como a retomada do plano de ação contra o desmatamento na Amazônia e o reforço da fiscalização no Brasil – contribuíram para reduzir o desmatamento em 33% na região. Essa queda foi o principal fator por trás da redução mundial registrada em 2025.

Na Bacia do Congo, por outro lado, onde a perda de florestas decorre principalmente da expansão da agricultura, da exploração madeireira e da mineração, o relatório não identificou nenhuma iniciativa semelhante em andamento para conter o desmatamento.

Avanços em risco: mesmo na América Latina, não há garantias de que os avanços dos últimos anos serão mantidos. Segundo o relatório, a proteção das florestas na região “depende em grande medida das decisões de um pequeno número de governos”, cujas políticas podem mudar rapidamente conforme os resultados eleitorais.

Na Colômbia, o presidente recém-eleito, Abelardo de la Espriella, sinalizou uma ruptura com as políticas de proteção florestal de seu antecessor, ao revogar restrições à mineração e prometer apoio à expansão da exploração de petróleo e gás. Ambas as medidas representam ameaças potenciais às florestas.

Enquanto isso, no Peru, a presidente, Keiko Fujimori, prometeu acelerar os investimentos em mineração, inclusive por meio de um sistema de aprovação expressa e de incentivos fiscais, o que coloca em risco até mesmo áreas protegidas da Amazônia peruana.

No Brasil, o atual governo manteve uma postura favorável à proteção das florestas, mas uma mudança de governo após as eleições presidenciais no fim de outubro poderia ter sérias implicações para o futuro da Amazônia, sobretudo diante das crescentes ameaças climáticas.

“O próximo presidente do Brasil governará durante uma janela de vulnerabilidade extrema, em que conter o desmatamento será a única alavanca restante para afastar a Amazônia da beira do desastre”, disse ao SciDev.Net a geógrafa Ane Alencar, diretora científica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), que estuda a Amazônia e o Cerrado.

“Independentemente do resultado, o setor do agronegócio demonstrou que consegue conviver com uma redução significativa do desmatamento”, acrescentou. “Nos últimos anos, conseguimos reduzir consideravelmente o desmatamento e o setor não foi prejudicado”.

Editorial

"Espertinhos" com os dias contados

A perícia também teria alcançado dados do Signal, aplicativo. Segundo as informações da investigação, os sistemas do MPMS recuperaram dados que teriam sido apagados

22/10/2026 07h10

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A denúncia de dois investigados na Operação Gutenberg, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), por suspeita de obstrução da Justiça abre novo capítulo no enfrentamento aos crimes de colarinho branco.

Em apurações de corrupção, lavagem de dinheiro e peculato, a tecnologia amplia a capacidade de identificar delitos e tentativas de dificultar o trabalho dos investigadores.

A perícia digital pode reconstituir ações realizadas em celulares e serviços de armazenamento em nuvem, inclusive o momento em que aplicativos ou arquivos foram apagados.

A análise permite confrontar registros com a cronologia da investigação e reunir elementos para apurar se houve intenção de impedir a coleta de provas. As suspeitas devem ser examinadas no devido processo legal.

O caso evidencia a importância dos investimentos do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) em ferramentas capazes de extrair e analisar dados de celulares e das nuvens contratadas por seus usuários.

Sem recursos especializados, parte dessas informações poderia permanecer inacessível ou ser muito mais difícil de recuperar.

A tecnologia não substitui o trabalho dos peritos: amplia sua capacidade de reconstruir fatos e produzir evidências para a Justiça.

A perícia também teria alcançado dados do Signal, aplicativo. Segundo as informações da investigação, os sistemas do MPMS recuperaram dados que teriam sido apagados. Se confirmados, esses elementos podem ajudar a esclarecer se houve tentativa de obstruir a apuração.

A responsabilização por esse tipo de conduta é importante porque destruir ou ocultar vestígios não pode ser uma saída para quem está sob investigação.

O avanço técnico envia um recado: apagar uma mensagem ou desinstalar um aplicativo não garante que os registros desapareçam, nem impede que a perícia identifique quando a ação ocorreu.

A recuperação, porém, depende das condições de cada aparelho e dos dados disponíveis; não significa que toda informação apagada possa ser sempre lida.

É preciso fortalecer a capacidade investigativa do Estado, com equipamentos atualizados, profissionais capacitados e procedimentos que preservem as provas e os direitos individuais.

A eficiência das investigações deve caminhar junto com o respeito à lei, à privacidade e às garantias de defesa.

Prevenir e punir crimes exige vigilância institucional. No combate à corrupção e à lavagem de dinheiro, isso significa acompanhar o caminho dos recursos, fiscalizar agentes públicos e empresas e investigar manobras para frustrar a Justiça.

A tecnologia não resolve sozinha esses problemas, mas, usada com rigor e responsabilidade, reduz espaços para a impunidade. Quem tenta apagar os rastros deve saber que a perícia pode encontrá-los.

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