Artigos e Opinião

Editorial

"Espertinhos" com os dias contados

A perícia também teria alcançado dados do Signal, aplicativo. Segundo as informações da investigação, os sistemas do MPMS recuperaram dados que teriam sido apagados

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A denúncia de dois investigados na Operação Gutenberg, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), por suspeita de obstrução da Justiça abre novo capítulo no enfrentamento aos crimes de colarinho branco.

Em apurações de corrupção, lavagem de dinheiro e peculato, a tecnologia amplia a capacidade de identificar delitos e tentativas de dificultar o trabalho dos investigadores.

A perícia digital pode reconstituir ações realizadas em celulares e serviços de armazenamento em nuvem, inclusive o momento em que aplicativos ou arquivos foram apagados.

A análise permite confrontar registros com a cronologia da investigação e reunir elementos para apurar se houve intenção de impedir a coleta de provas. As suspeitas devem ser examinadas no devido processo legal.

O caso evidencia a importância dos investimentos do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) em ferramentas capazes de extrair e analisar dados de celulares e das nuvens contratadas por seus usuários.

Sem recursos especializados, parte dessas informações poderia permanecer inacessível ou ser muito mais difícil de recuperar.

A tecnologia não substitui o trabalho dos peritos: amplia sua capacidade de reconstruir fatos e produzir evidências para a Justiça.

A perícia também teria alcançado dados do Signal, aplicativo. Segundo as informações da investigação, os sistemas do MPMS recuperaram dados que teriam sido apagados. Se confirmados, esses elementos podem ajudar a esclarecer se houve tentativa de obstruir a apuração.

A responsabilização por esse tipo de conduta é importante porque destruir ou ocultar vestígios não pode ser uma saída para quem está sob investigação.

O avanço técnico envia um recado: apagar uma mensagem ou desinstalar um aplicativo não garante que os registros desapareçam, nem impede que a perícia identifique quando a ação ocorreu.

A recuperação, porém, depende das condições de cada aparelho e dos dados disponíveis; não significa que toda informação apagada possa ser sempre lida.

É preciso fortalecer a capacidade investigativa do Estado, com equipamentos atualizados, profissionais capacitados e procedimentos que preservem as provas e os direitos individuais.

A eficiência das investigações deve caminhar junto com o respeito à lei, à privacidade e às garantias de defesa.

Prevenir e punir crimes exige vigilância institucional. No combate à corrupção e à lavagem de dinheiro, isso significa acompanhar o caminho dos recursos, fiscalizar agentes públicos e empresas e investigar manobras para frustrar a Justiça.

A tecnologia não resolve sozinha esses problemas, mas, usada com rigor e responsabilidade, reduz espaços para a impunidade. Quem tenta apagar os rastros deve saber que a perícia pode encontrá-los.

Editorial

A omissão que custou caro a Campo Grande

A deterioração do asfalto se arrasta há mais de uma década, enquanto a fiscalização tardia cobra soluções para um problema que poderia ter sido enfrentado antes

21/10/2026 07h10

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Os buracos espalhados pelas ruas de Campo Grande voltaram ao centro das reclamações. A pressão dos moradores levou vereadores a reunir assinaturas para abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a aplicação dos recursos da Operação Tapa-buraco. Ao mesmo tempo, a Prefeitura da Capital anuncia um plano para recuperar as vias em 60 dias.

O problema não surgiu agora. Desde o início da década passada, o asfalto da cidade se deteriora, e as intervenções realizadas ficaram aquém do resultado esperado pela população. A situação reflete um problema estrutural que se agravou sem resposta à altura nos últimos anos.

A conservação das ruas é responsabilidade do Município. Cabe à prefeitura planejar os serviços, definir prioridades, fiscalizar contratos e assegurar que o dinheiro público resulte em obras duráveis.

Tapar buracos às pressas, sem corrigir as causas da deterioração, pode aliviar o problema temporariamente, mas não substitui uma política permanente de manutenção do pavimento.

Essa responsabilidade não dispensa a atuação das instituições encarregadas de fiscalizar e cobrar providências. Vereadores e órgãos de controle têm instrumentos para acompanhar gastos, exigir explicações e cobrar metas.

Lamentavelmente, a reação mais incisiva veio tarde, quando o desgaste das vias já se espalhava pela cidade. Ainda assim, antes tarde do que nunca.

A Câmara Municipal de Campo Grande poderia ter intensificado as cobranças muito antes. A fiscalização não deve ocorrer apenas quando a situação se torna impossível de ignorar.

A CPI precisa esclarecer como os recursos foram aplicados, se os serviços contratados foram executados adequadamente e quais responsabilidades podem ser atribuídas, sem antecipar conclusões.

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) também entrou em cena neste ano, com medidas que levaram à prisão de investigados por suspeita de mau uso de verbas da Operação Tapa-buraco. Cabe perguntar se uma atuação mais incisiva no fim da década passada ou no início desta não teria ajudado a evitar que o problema chegasse à dimensão atual.

A fiscalização preventiva é tão necessária quanto a responsabilização posterior. A mesma crítica cabe ao Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), que parece não ter visto problemas na manutenção de vias do Município. 

O plano anunciado para recuperar as ruas em 60 dias precisa ser acompanhado de perto. É essencial haver cronograma, critérios transparentes de prioridade e fiscalização da qualidade do serviço. A população deve saber quais vias serão atendidas e se os reparos resistirão às chuvas.

Campo Grande não precisa apenas de uma operação emergencial. Precisa de planejamento, manutenção contínua e controle do gasto público. A CPI deve ajudar a impedir a repetição das falhas e garantir ruas em condições adequadas. É hora de substituir a reação tardia por soluções duradouras.

Artigo

Quando o debate vira espetáculo

O debate realizado no domingo, pela televisão, entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, candidatos à Presidência da República, trouxe novamente essa questão à tona

20/10/2026 07h20

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A democracia pressupõe o confronto de ideias. É da sua essência que existam divergências, críticas e projetos distintos de sociedade. O problema começa quando o debate deixa de ser um instrumento de esclarecimento e se transforma numa arena em que o objetivo já não é convencer pela razão, mas derrotar o adversário pela provocação, pelo constrangimento e, não raramente, pela humilhação.

O debate realizado no domingo, pela televisão, entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, candidatos à Presidência da República, trouxe novamente essa questão à tona.

Em meio a acusações, questionamentos sobre familiares e sucessivas provocações, questões importantes para o futuro do País acabaram disputando espaço com ataques pessoais. Não faltaram assuntos relevantes. Faltou, em diversos momentos, a oportunidade de aprofundá-los.

É evidente que denúncias de corrupção, suspeitas de irregularidades e a conduta de homens públicos devem ser discutidas. Ninguém está acima da lei, tampouco imune ao dever de prestar contas à sociedade.

Entretanto, há uma diferença considerável entre cobrar explicações e transformar o debate político num espetáculo de acusações recíprocas, no qual a resposta deixa de importar tanto quanto o efeito produzido sobre a plateia.

Vivemos um tempo em que uma frase de efeito alcança milhões de pessoas em poucos minutos, enquanto uma proposta consistente dificilmente recebe a mesma atenção. O corte de vídeo substitui o argumento.

A ironia rende aplausos. A provocação ganha repercussão. E aquilo que deveria ser um exercício de cidadania acaba reduzido à disputa por quem produziu a frase mais contundente.

A própria sociedade, muitas vezes, alimenta essa realidade. Nas redes sociais, adversários se tornam inimigos e cidadãos se comportam como integrantes de torcidas organizadas.

Pouco importa o conteúdo, desde que o candidato de preferência tenha levado a melhor. A preocupação deixa de ser o futuro do Brasil e passa a ser a derrota, a qualquer custo, daquele que pensa diferente.

Não podemos naturalizar esse comportamento. Política não é uma competição de insultos, embora a paixão eleitoral frequentemente nos faça esquecer disso.

Estamos tratando do destino de milhões de brasileiros, de famílias que enfrentam dificuldades, de trabalhadores que esperam oportunidades e de uma população que cobra segurança, saúde, educação e melhores condições de vida.

É sobre isso que precisamos ouvir nossos candidatos. Como enfrentar a criminalidade? Como equilibrar as contas públicas? Como estimular investimentos, gerar empregos e melhorar os serviços públicos? Quais decisões serão necessárias e quem terá coragem de as tomar? Essas perguntas deveriam ocupar o centro dos debates.

O Brasil precisa mudar, mas mudança exige consciência. Não se trata apenas de substituir nomes ou defender bandeiras, é preciso abandonar a ideia de que nossas convicções nos dão o direito de desrespeitar o outro.

Também não podemos confundir fidelidade política com a obrigação de justificar tudo o que fazem aqueles com quem simpatizamos. O senso crítico não pode desaparecer quando o erro é cometido por alguém do nosso lado.

Já manifestei, em artigo anterior, minha preocupação com a intolerância, a omissão e a indiferença de parcela da sociedade diante da política. Reafirmo essa preocupação.

O cidadão não pode entregar sua consciência a líderes, partidos ou influenciadores, precisa pensar, questionar, conhecer propostas e compreender que a democracia exige muito mais do que escolher um lado.

Faltam poucos dias para o segundo turno. Ainda há tempo para discutir o que realmente interessa. Os candidatos têm o direito de defender suas ideias e o dever de responder aos questionamentos que lhes são dirigidos.

O eleitor, por sua vez, tem a responsabilidade de distinguir a crítica legítima do ataque gratuito, a proposta da promessa e a informação da propaganda.

Ao fim, teremos um vencedor nas urnas. Mas seria lamentável que, encerrada a eleição, permanecêssemos divididos entre vencedores arrogantes e vencidos inconformados, incapazes de reconhecer que o Brasil é maior do que qualquer disputa eleitoral.

A democracia não se fortalece quando alguém grita mais alto, mas quando as ideias podem ser livremente confrontadas e as escolhas são feitas com responsabilidade.

Governos passam, eleições terminam e adversários se alternam no poder. O Brasil permanece acima de todos. E é a ele que devemos nossa maior lealdade.

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