Artigos e Opinião

Editorial

Infraestrutura que preserve vidas

Em uma rodovia de pista dupla, uma ultrapassagem irregular pode até ocorrer, mas o risco de colisão frontal como a registrada na BR-163 é consideravelmente menor

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O grave acidente ocorrido no domingo na BR-163, nas proximidades de Bandeirantes, a aproximadamente 70 quilômetros de Campo Grande, é mais um daqueles episódios que deveriam provocar uma reflexão sobre a infraestrutura rodoviária de Mato Grosso do Sul.

A dinâmica da colisão, provocada por uma ultrapassagem indevida, mostra como as rodovias de pista simples podem transformar uma decisão errada em uma tragédia de grandes proporções.

Não se trata de retirar do motorista a responsabilidade por uma ultrapassagem perigosa, é evidente que cada condutor deve respeitar as regras de trânsito e compreender os riscos de uma manobra desse tipo, mas também é preciso reconhecer que a infraestrutura tem papel fundamental na prevenção de acidentes.

Em uma rodovia de pista dupla, uma ultrapassagem irregular pode até ocorrer, mas o risco de uma colisão frontal como a registrada na BR-163 é consideravelmente menor.

O episódio reforça, portanto, uma necessidade que Mato Grosso do Sul conhece há décadas: precisamos de mais rodovias duplicadas.

Não é luxo, tampouco uma demanda secundária, trata-se de investimento diretamente relacionado à preservação de vidas, à segurança de quem utiliza as estradas e à própria capacidade de desenvolvimento do Estado.

Nesta edição, tratamos de transporte também pela outra ponta. Falamos de ferrovia e, mais uma vez, do adiamento do leilão da Malha Oeste. Agora, se tudo correr como prevê o Ministério dos Transportes, a licitação da linha férrea entre Corumbá e Mairinque (SP) ocorrerá somente em março de 2027.

É difícil não lamentar mais esse atraso. Uma ferrovia estratégica como a Malha Oeste, quando estiver efetivamente em operação, poderá retirar parte das cargas que hoje dependem exclusivamente das rodovias.

Menos caminhões circulando pelas estradas significa, entre outras coisas, menor pressão sobre a malha rodoviária e menor exposição ao risco de acidentes de grandes proporções.

É claro que uma ferrovia não resolverá sozinha os problemas de logística do Estado. Da mesma forma, a duplicação das rodovias não eliminará acidentes provocados por imprudência. Mas infraestrutura adequada reduz riscos, melhora a circulação e cria condições para que o transporte seja realizado com mais eficiência.

Mato Grosso do Sul precisa de investimentos simultâneos em rodovias e ferrovias, em primeiro lugar, para preservar vidas, em segundo, para que as pessoas possam se deslocar com mais segurança e, consequentemente, maior rapidez e, em terceiro, para que o Estado tenha mais vantagens competitivas, reduza custos logísticos e consiga transformar sua posição geográfica em ganhos econômicos.

Não é possível falar em desenvolvimento sem falar em infraestrutura. O Estado produz cada vez mais, recebe novos empreendimentos e amplia sua participação na economia nacional, mas toda essa riqueza precisa chegar aos mercados, e isso depende de estradas e ferrovias eficientes.

Artigo

Domínio invisível chinês

A eficácia dessa abordagem reside no ponto cego criado para o Ocidente. Atento ao desgaste de obras como megaportos e usinas

17/08/2026 07h15

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Existe uma transformação silenciosa na América Latina. Enquanto a diplomacia se hipnotiza com a rivalidade entre superpotências, a geopolítica é reescrita nos bastidores de prefeituras, editais de transporte e câmeras urbanas. Trata-se da expansão chinesa em sua versão mais sutil: um modelo que abandona os holofotes para se enraizar na infraestrutura básica que faz as cidades funcionarem.

A eficácia dessa abordagem reside no ponto cego criado para o Ocidente. Atento ao desgaste de obras como megaportos e usinas, Pequim recalibrou suas agulhas para priorizar a negociação capilar com governadores e prefeitos, oferecendo respostas imediatas a demandas locais.

Ao fornecer ônibus elétricos, gerenciar redes de energia ou manter trens, corporações chinesas erguem uma dependência sistêmica.

Cada contrato parece inofensivo, mas o efeito cumulativo é devastador: quando um estado percebe que seus serviços dependem exclusivamente de suporte chinês, sua margem de manobra política evapora.

Essa presença física serve de veículo para o motor do domínio contemporâneo: a Rota da Seda Digital. Em vez de erguer apenas concreto e aço, a China constrói os canais invisíveis da informação.

Prefeituras sem diretrizes de segurança cibernética encontram em gigantes chinesas ofertas irrecusáveis de modernização. Redes 5G e a migração de dados para a nuvem fazem a máquina pública operar sob uma arquitetura mantida por Pequim.

Consolida-se o aprisionamento tecnológico: governos locais tornam-se reféns de atualizações e suporte contínuo, transferindo sua soberania sem que a sociedade perceba.

O desdobramento mais sensível dessa arquitetura é o processamento de dados por inteligência artificial. Sob o conceito de “Cidades Seguras”, adquirem-se sistemas para mapear o tráfego, rastrear veículos e identificar rostos em tempo real, ocultando sob o combate ao crime uma colheita ininterrupta de dados biométricos.

O perigo geopolítico vincula-se à Lei de Inteligência Nacional da China, que obriga empresas a cooperarem com o Estado. Assim, o acervo colhido na região fica exposto ao acesso direto de Pequim, estabelecendo uma vigilância preditiva sem precedentes.

A corrupção e o pragmatismo político funcionam como o lubrificante ideal para que gigantes chinesas contornem auditorias técnicas e éticas.

O caso da Hikvision no Rio de Janeiro ilustra essa dinâmica: sob o pretexto da segurança pública, o estado firmou contratos milionários de reconhecimento facial em meio a denúncias de opacidade, direcionamento e superfaturamento.

Enquanto a empresa sofria sanções por riscos de segurança e violações de direitos humanos, a administração no Rio aprofundava a parceria, entregando o controle do espaço público indiretamente para Pequim.

A Rota da Seda Digital reconfigura a soberania continental. A América Latina não está sendo submetida por doutrinação ideológica ou coerção militar, mas pela dependência operacional dos elementos básicos da sociedade moderna.

À medida que prefeituras e estados entregam redes de energia, dados biométricos e trânsito ao ecossistema tecnológico de Pequim, a autonomia dilui-se de baixo para cima.

O resultado é uma hegemonia algorítmica e invisível – erguida em cada servidor instalado, câmera ativada e licitação homologada –, que redesenha o mapa do poder global sem que o mundo perceba.

Editorial

Que a campanha fortaleça a democracia

Sem política, não há espaço institucional para o debate de ideias, para a negociação de interesses e para a construção coletiva das decisões que afetam toda a sociedade

17/08/2026 07h10

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Foi dada neste domingo a largada oficial para a campanha eleitoral, período que se estenderá até o dia 2 de outubro, dois dias antes da votação do primeiro turno, marcada para o dia 4 de outubro, um domingo. A partir de agora, candidatos, partidos e eleitores entram em uma etapa decisiva do processo democrático, na qual propostas, ideias e projetos para o País deverão estar no centro do debate.

O que se espera destas eleições, acima de tudo, é que todos os candidatos joguem limpo. A disputa pelo voto não pode ser transformada em uma guerra de ataques, mentiras, manipulações ou acusações sem fundamento.

A democracia pressupõe divergência, mas também exige respeito às regras e ao eleitor. Para garantir que isso aconteça, estará presente a Justiça Eleitoral, responsável por fiscalizar o cumprimento da legislação. Mas há outro personagem igualmente importante nesse processo: o próprio eleitor.

É também pela manifestação do eleitor, nas urnas e ao longo da campanha, que se estabelece o limite para determinados comportamentos políticos. Cabe à sociedade rejeitar a desinformação, a baixaria e as tentativas de transformar a eleição em um espetáculo de agressões, com um olhar atento para o universo digital. O voto consciente é uma das principais ferramentas de que dispõe o cidadão para influenciar os rumos do País.

Por isso, o período de campanha eleitoral é importante. Mais do que uma sucessão de eventos, discursos e propagandas, trata-se de uma oportunidade para que o Brasil amadureça e, quem sabe, faça as pazes com a política.

Não é uma tarefa simples. Nas últimas décadas, sucessivos escândalos de corrupção, promessas não cumpridas e a desconexão de parte dos políticos com a realidade da população contribuíram para desgastar a imagem da atividade política.

A demonização da política, entretanto, não resolve o problema. Pelo contrário. É preciso reconhecer que, em uma sociedade democrática, não existe outro caminho para tentar fazer valer nossos princípios, defender nossas convicções e construir o mundo que desejamos senão por meio da própria política.

É compreensível que o cidadão esteja decepcionado. É legítimo cobrar, fiscalizar e exigir mudanças. O que não parece razoável é concluir que a política, por causa dos erros de alguns de seus representantes, seja necessariamente algo negativo.

Sem política, não há espaço institucional para o debate de ideias, para a negociação de interesses e para a construção coletiva das decisões que afetam toda a sociedade.

É verdade que existem outras formas de governo nas quais mudanças estruturais podem ocorrer sem que tenham a política democrática como ponto de partida.

Regimes autoritários podem impor transformações pela força, pela supressão de direitos e pela concentração do poder. Mas essa é outra história – e não é o caminho que uma sociedade democrática deve desejar.

O que se espera, portanto, é que esta campanha seja justa, tranquila e respeitosa; que os candidatos apresentem suas propostas, expliquem suas escolhas e aceitem o contraditório; que a Justiça Eleitoral cumpra seu papel e que os eleitores também façam a sua parte.

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