Artigos e Opinião

EDITORIAL

Inteligência contra o crime na fronteira

Existe uma forma de combate ao crime menos visível, menos tensa e, talvez por isso, menos explorada no debate público: a inteligência, trabalho silencioso que desarticula quadrilhas

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As últimas semanas foram marcadas por uma sequência de notícias preocupantes na fronteira de Mato Grosso do Sul com a Bolívia.

Confrontos entre forças de segurança e integrantes de organizações criminosas deixaram mortos dos dois lados, evidenciando o elevado grau de violência que há muito tempo se instalou em uma das principais rotas do tráfico internacional de drogas.

Trata-se de um cenário que exige respostas firmes do Estado, mas, sobretudo, respostas eficazes.

A morte de um policial em Corumbá provocou uma reação imediata das forças de segurança, que intensificaram as operações para localizar e prender os responsáveis pelo crime. É compreensível que o assassinato de um agente público desperte indignação e mobilize toda a estrutura policial.

Quem atenta contra a vida de um policial desafia diretamente o Estado e deve responder por seus atos dentro dos limites da lei.

Entretanto, o enfrentamento ao crime organizado não pode se resumir à resposta armada ou à intensificação de operações ostensivas após ataques de grande repercussão. Essas ações são necessárias em determinadas circunstâncias, mas, sozinhas, dificilmente alteram a estrutura das organizações criminosas.

Muitas vezes, apenas substituem integrantes presos ou mortos por outros, que rapidamente ocupam seus lugares.

Existe uma forma de combate menos visível, menos tensa e, talvez por isso, menos explorada no debate público: a inteligência.

É por meio do cruzamento de informações, do monitoramento financeiro, da integração entre órgãos de segurança e da investigação qualificada que se identificam lideranças, rotas, fornecedores, financiadores e operadores das facções.

É esse trabalho silencioso que permite desarticular organizações inteiras, em vez de apenas combater seus braços operacionais.

Nesse aspecto, assim como as forças federais, as estaduais precisam fortalecer seus setores de inteligência. A cooperação entre polícias, Ministério Público, Receita Federal, Poder Judiciário e demais órgãos de controle é fundamental para atingir o verdadeiro coração das organizações criminosas: seu patrimônio.

O sequestro de bens, o bloqueio de contas, a apreensão de imóveis, veículos, aeronaves e recursos financeiros retiram das facções aquilo que lhes garante poder de expansão e capacidade de corromper.

A experiência acumulada no combate ao crime organizado demonstra que prender criminosos é indispensável, mas retirar-lhes o lucro costuma produzir efeitos mais duradouros.

Quando o crime deixa de ser financeiramente vantajoso, enfraquece-se sua capacidade de recrutar novos integrantes, adquirir armamentos e ampliar suas atividades ilícitas.

É uma estratégia que exige paciência, tecnologia, cooperação institucional e investimentos permanentes, mas que apresenta resultados mais consistentes.

Mato Grosso do Sul continuará ocupando posição estratégica no enfrentamento ao tráfico internacional em razão de sua extensa faixa de fronteira. Justamente por isso, é indispensável que a inteligência seja tratada como prioridade permanente, e não apenas como complemento das operações ostensivas.

ARTIGOS

Fiz a pesquisa de clima organizacional. E agora?

Ouvir as pessoas e não dar consequência ao que foi ouvido pode ser mais prejudicial do que sequer realizar a pesquisa

06/07/2026 07h30

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O maior risco de uma pesquisa de clima organizacional não é descobrir problemas. É perguntar e não agir.
Essa afirmação pode parecer exagerada, especialmente para gestores que receiam abrir espaço para críticas que talvez não consigam resolver.

Mas a literatura científica aponta justamente na direção oposta: ouvir as pessoas e não dar consequência ao que foi ouvido pode ser mais prejudicial do que sequer realizar a pesquisa.

A revisão sistemática Following Up on Employee Surveys (2021), que analisou décadas de estudos sobre pesquisas de clima e engajamento, chegou a uma conclusão contundente: seu sucesso depende muito mais da qualidade do acompanhamento do que da qualidade do questionário.

Muitas organizações acreditam que o processo termina quando os resultados são apresentados. Na realidade, é exatamente aí que ele começa.

A pesquisa de clima não é apenas um instrumento de diagnóstico. Ela é, antes de tudo, um teste de integridade da própria organização.

Toda vez que uma organização pergunta aos seus colaboradores “o que você pensa?”, faz uma promessa implícita: a de que aquela manifestação será levada a sério. Isso não significa resolver todos os problemas, mas ouvir, dar retorno e agir naquilo que estiver ao seu alcance.

É justamente aí que a integridade é colocada à prova.

Se a organização afirma que se importa com as suas pessoas, mas não faz nada com aquilo que elas disseram, cria uma incoerência entre discurso e prática. A confiança não se perde apenas quando decisões são equivocadas. Ela também se perde quando a participação das pessoas não produz nenhuma consequência.

Não por acaso, a Gallup alerta que pesquisas de engajamento desacompanhadas podem produzir exatamente o efeito contrário ao desejado: reduzir o engajamento. Afinal, quando os colaboradores concluem que foram convidados a opinar apenas para cumprir um protocolo, dificilmente acreditarão no próximo convite ao diálogo.

As pessoas não esperam organizações perfeitas. Esperam organizações que escutem, deem retorno e ajam com coerência. Não conseguir atender todas as demandas costuma ser menos prejudicial do que deixar as pessoas sem qualquer retorno.

Quando uma organização comunica o que será feito, o que dependerá de mais tempo e o que não poderá ser implementado, preserva a confiança. Quando não dá qualquer retorno, alimenta a sensação de que ouvir foi apenas um ritual.

Esse ponto dialoga diretamente com uma das principais contribuições de Tom R. Tyler para a psicologia organizacional: as pessoas não avaliam apenas as decisões que recebem, mas também a forma como elas são tomadas.

Quando percebem que foram ouvidas, que sua opinião foi considerada, receberam retorno e identificaram coerência entre as decisões e as ações da organização, tendem a cooperar mais, comprometer-se com a organização e aderir voluntariamente às suas normas, mesmo quando o resultado final não corresponde exatamente às suas expectativas.

Por isso, talvez seja hora de deixarmos de enxergar a pesquisa de clima apenas como uma ferramenta de gestão de pessoas. Ela também revela como a organização responde quando decide ouvir as pessoas. Porque integridade não se demonstra no momento em que se faz a pergunta, mas no que se faz com a resposta.

EDITORIAL

Concessões e o interesse coletivo

Quando isso ocorre, o resultado prático é o encarecimento do investimento, a insegurança jurídica e, por consequência, o atraso de benefícios que a população poderia receber

06/07/2026 07h15

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O embate entre a Way 112, concessionária de rodovias em Mato Grosso do Sul, e a Arauco, multinacional chilena responsável por um investimento bilionário no Estado, expõe um problema recorrente na gestão de grandes empreendimentos: a dificuldade de conciliar interesses privados quando duas concessões públicas se cruzam.

O caso evidencia a necessidade de regras mais claras, arbitragem eficiente e maior foco no interesse público.

De um lado, há empresas que investem, assumem riscos, geram empregos e impulsionam a economia. De outro, surgem disputas por receitas e direitos que podem acabar elevando custos e atrasando obras. A controvérsia entre Way 112 e Arauco ilustra esse cenário.

A concessionária da rodovia cobra pelo uso da faixa de domínio para a construção da ferrovia da multinacional, enquanto a empresa chilena sustenta que essa cobrança é indevida por se tratar da interação entre dois serviços públicos concedidos.

A situação chama a atenção, porque ambas as atividades decorrem de concessões do poder público. Quando há sobreposição de cobranças e conflitos dessa natureza, quem perde é a sociedade.

O resultado pode ser insegurança jurídica, atrasos em investimentos, aumento de custos e postergação de benefícios como geração de empregos, arrecadação e melhoria da infraestrutura.

Também desperta dúvidas, por um lado, o fato de a concessionária que reivindica a cobrança ter entregue muito pouco, aquém do que a população espera, embora cumpra o seu contrato.

Isso reforça a necessidade de que contratos de concessão estabeleçam critérios objetivos para o compartilhamento de faixas de domínio e para o direito de passagem, evitando disputas que acabam sendo levadas ao Judiciário.

Conflitos desse tipo não deveriam depender exclusivamente de longos processos judiciais. Cabe ao Estado, por meio de seus órgãos reguladores, definir regras claras para disciplinar a convivência entre diferentes concessões, criando mecanismos ágeis de mediação e arbitragem.

Cláusulas específicas sobre uso compartilhado de infraestrutura, compensações e cooperação entre concessionárias reduziriam significativamente a insegurança e os riscos para novos empreendimentos.

Além disso, espera-se das empresas uma postura pautada pelo bom senso e pela cooperação. Grandes investimentos exigem um ambiente de confiança, previsibilidade e segurança jurídica. Litígios prolongados e disputas por receitas acessórias podem comprometer projetos que trazem ganhos econômicos para todo o Estado.

O investimento da Arauco representa uma oportunidade histórica para Mato Grosso do Sul. Para que seus benefícios sejam plenamente aproveitados, é indispensável que prevaleçam a clareza contratual, a eficiência regulatória e a cooperação entre os diferentes agentes envolvidos.

Quando interesses particulares se sobrepõem ao desenvolvimento coletivo, todos perdem: o Estado, os trabalhadores, os fornecedores e os próprios investidores.

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