Artigos e Opinião

EDITORIAL

Mais caminhos rumo ao Pacífico

Quando se trata de comércio internacional, quanto mais rotas, melhor. A integração física da América do Sul não precisa ser um jogo de soma zero

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A manifestação de interesse do governo da Bolívia em integrar-se à Rota Bioceânica recoloca Mato Grosso do Sul no centro de uma discussão estratégica que atravessa décadas.

Para o Estado, que já tem encaminhada a obra do corredor rodoviário que o ligará aos portos do Pacífico por meio do Paraguai, a entrada boliviana no debate não representa concorrência, mas ampliação de horizontes.

Há cerca de duas décadas, quando se falava em Rota Bioceânica em solo sul-mato-grossense, o traçado prioritário passava justamente pela Bolívia. O grande projeto da época era pavimentar a “carretera” entre Porto Suárez e Santa Cruz de la Sierra, criando um corredor mais direto rumo ao Oceano Pacífico.

A ideia mobilizou lideranças políticas e empresariais, que viam na ligação com o território boliviano uma alternativa concreta para reduzir distâncias e custos logísticos. Essa rodovia está asfaltada há muitos anos.

O cenário mudou quando o Estado boliviano passou a ser governado por Evo Morales e seus sucessores. A partir dali, o traçado da rota foi deslocado para o Sul, abrindo espaço para a articulação de um novo corredor por dentro do Paraguai.

Surgiu, então, a possibilidade de se construir uma rodovia atravessando o inóspito Chaco Paraguaio, obra complexa que hoje está em execução e que deverá consolidar um eixo relevante de integração regional.

A Rota Bioceânica via Paraguai avança e tende a cumprir papel importante na logística do Centro-Oeste brasileiro. Ainda assim, o interesse boliviano reacende a perspectiva de múltiplas conexões rumo ao Pacífico. E esse ponto é central: em termos de comércio exterior, redundância logística não é desperdício, é estratégia.

Uma viagem de Campo Grande ao porto chileno de Iquique apresenta tempo semelhante, seja pelo trajeto que cruza o Paraguai, seja por aquele que passa pela Bolívia.

Em um cenário de integração efetiva, a existência de duas rotas operantes amplia a competitividade, reduz riscos e oferece alternativas diante de eventuais entraves políticos, climáticos ou estruturais.

Corredores internacionais não são apenas estradas; são instrumentos de inserção econômica. Eles definem fluxos de exportação, atraem investimentos e redesenham cadeias produtivas.

Para Mato Grosso do Sul, cuja economia depende fortemente do agronegócio e da indústria de base, a diversificação de saídas logísticas representa ganho de eficiência e poder de negociação.

A história recente mostra que decisões geopolíticas podem alterar prioridades e trajetos. Por isso, manter diálogo aberto com países vizinhos e estimular a convergência de interesses é medida prudente. Se a rota pelo Paraguai está em construção e a via boliviana volta ao radar, o momento é de pensar em complementaridade.

Quando se trata de comércio internacional, quanto mais rotas, melhor. A integração física da América do Sul não precisa ser um jogo de soma zero. Para Mato Grosso do Sul, a coexistência de caminhos rumo ao Pacífico pode significar mais competitividade, mais resiliência e maior protagonismo regional.

ARTIGOS

Trump sem tarifas, e agora?

Ao tentar utilizar uma legislação concebida para situações excepcionais como atalho para impor tarifas amplas, o presidente tensionou os limites institucionais da política comercial norte-americana.

23/02/2026 07h45

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A Suprema Corte norte-americana declarou ilegais as tarifas emergenciais impostas por Donald Trump. A decisão expõe uma fragilidade recorrente de sua estratégia econômica: a substituição de política pública estruturada por voluntarismo executivo.

Trump, ao tentar utilizar uma legislação concebida para situações excepcionais como atalho para impor tarifas amplas, tensionou os limites institucionais da política comercial norte-americana.

Ao restabelecer a prerrogativa do Congresso sobre matéria tributária e comercial, a Corte não apenas corrigiu uma distorção jurídica, mas também reforçou um princípio central da economia política moderna: decisões que alteram preços relativos, cadeias produtivas e relações internacionais não podem ser fruto de discricionariedade individual.

Do ponto de vista econômico, as tarifas emergenciais representaram um choque artificial nos termos de troca, elevando custos para empresas e consumidores sob a justificativa simplista de “proteção nacional”.

A literatura empírica é clara ao demonstrar que tarifas amplas tendem a gerar perda líquida de bem-estar, aumento de preços domésticos e ineficiências alocativas.

A tentativa de concentrar no Executivo a capacidade de impor tais medidas amplia o risco de políticas erráticas, guiadas por ciclos eleitorais ou disputas geopolíticas conjunturais.

Ao recolocar o Congresso no centro do processo decisório, a decisão judicial fortalece a deliberação democrática, amplia a transparência e reduz a probabilidade de choques unilaterais que desorganizem expectativas empresariais.

Mais do que um embate jurídico, trata-se de um episódio emblemático sobre governança econômica. O Congresso, como instância representativa e deliberativa, oferece maior previsibilidade e responsabilidade na formulação de política comercial.

Centralização tarifária no Executivo, como a ensaiada por Trump, cria incentivos à volatilidade normativa e à instrumentalização política do comércio exterior. Economias complexas exigem instituições que limitem impulsos personalistas e preservem regras estáveis.

Ao reafirmar o papel do Legislativo, a Suprema Corte contribui para restaurar racionalidade institucional em um tema que impacta diretamente investimento, inflação e inserção internacional dos Estados Unidos.

EDITORIAL

Voto consciente começa na informação

Vamos eleger representantes, não líderes espirituais. A fé é dimensão privada e legítima da vida de cada um. Gestão exige competência administrativa e respeito à diversidade

23/02/2026 07h15

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O ano eleitoral já começou. E, em períodos como este, é fundamental que o cidadão saiba distinguir de onde vêm as informações que consome. Nem todo conteúdo que circula nas redes sociais é notícia. Nem toda opinião travestida de análise é isenta.

Em um ambiente de excesso de dados, de ruído e de disputas narrativas, a informação independente torna-se ainda mais valiosa para a formação de convicções sólidas.

Será um ano decisivo. Nos próximos meses, cada eleitor terá a responsabilidade de avaliar qual é o melhor projeto para os próximos quatro anos – tanto para o Brasil quanto para Mato Grosso do Sul. Não se trata apenas de escolher nomes, mas de optar por rumos.

As decisões tomadas nas urnas terão reflexos diretos na economia, na educação, na saúde, na infraestrutura e na qualidade dos serviços públicos que impactam o cotidiano de todos.

A escolha não envolverá somente os chefes do Poder Executivo, responsáveis por executar políticas públicas. Envolverá também os parlamentares, cujo papel tem se ampliado significativamente.

A cada ano, deputados e senadores concentram mais influência sobre a destinação dos recursos públicos por meio de emendas e mecanismos orçamentários que redefinem prioridades.

Muitas vezes, esses recursos não passam por planejamento estruturado de políticas públicas, mas por decisões políticas diretas. Isso aumenta o peso do voto para o Legislativo.

Com parlamentares cada vez mais poderosos, cresce também a responsabilidade do eleitor. É preciso conhecer o histórico de quem pede seu voto. Como votaram? Quais pautas defenderam? A atuação deles está alinhada com os interesses que dizem representar?

E mais: a preferência partidária deles corresponde aos valores e prioridades que você considera essenciais? As informações estão disponíveis – basta disposição para buscá-las.

Em um cenário de polarização intensa, é igualmente necessário reduzir o espaço da emoção e ampliar o da razão. Promessas fáceis e discursos inflamados podem seduzir, mas o eleitor precisa medir o impacto real das propostas apresentadas.

Elas são viáveis? Têm fonte de financiamento? Produzirão efeitos concretos na sua vida e na vida da coletividade? Política pública não é slogan; é planejamento, execução e resultado.

Outro ponto essencial é separar valores subjetivos – especialmente os de natureza religiosa – das atribuições institucionais dos cargos em disputa.

Estamos elegendo governantes e legisladores, não líderes espirituais. A fé é dimensão privada e legítima da vida de cada um, mas a gestão pública exige competência administrativa, compromisso constitucional e respeito à diversidade.

Para ajudar você a tomar essas decisões, existe a imprensa. Esse é o nosso papel: levar fatos, contextualizar informações, fiscalizar o poder, confrontar versões e oferecer elementos para que cada cidadão forme sua opinião com base na realidade.

Em um ano eleitoral, mais do que nunca, a democracia depende de um eleitor bem informado.

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