Artigos e Opinião

Artigo

Mais impostos para os bilionários! Seria uma solução adequada como justiça social?

Esse fenômeno acontece em face da não tributação de dividendos e das disposições que reduzem a carga tributária das empresas

Continue lendo...

Como uma ideia desafiadora, o economista e professor francês Gabriel Zucman defende no livro “Os Bilionários Não Pagam Imposto de Renda e Nós Vamos Acabar com Isso”, editora Zahar, que essa categoria de contribuintes pague um imposto mínimo de 2% a cada ano sobre suas riquezas, e não sobre a renda, isto é, sobre o respectivo patrimônio, cuja proposta tem ganhado adeptos, como é o caso do americano Morris Pearl, ex-diretor de um dos maiores fundos de investimento do mundo, o BlackRock, e dos também milionários Gary Lineker, ex-jogador de futebol, e Brian Eno, músico e compositor, ambos ingleses.

O autor do livro apontado – em sua visão crítica, apoiado em experiência empírica – destaca que os mais ricos, ou seja, os ultrarricos proporcionalmente pagam menos impostos do que a generalidade das pessoas tributadas.

Afirma que, em média, os franceses pagam anualmente em torno de 51% da sua renda em impostos (considerados todos os tipos de tributos), enquanto os muito ricos pagam na faixa de 25%. Ou seja, pagam menos da metade em relação aos demais!

Já no caso brasileiro, paga-se em média 42,5%, ao passo que os milionários e multimilionários pagam apenas 20,6%. Nesse patamar se encontram os 0,01% mais ricos da população.

Esse fenômeno acontece em face da não tributação de dividendos e das disposições que reduzem a carga tributária das empresas.

A engenharia dessa matemática decorre do fato de que é possível obter benefícios e reduções de impostos sobre os rendimentos das empresas ou manter o dinheiro na própria empresa, com isso, diminuindo ou evitando a cobrança de tributos.

Isso não acontece com a grande maioria das pessoas tributadas, que não se encontram no patamar dos super-ricos pois não têm esse subterfúgio nessa proporção.

Com efeito, não por acaso, ele afirma que o sistema tributário é rotulado de “assistência social dos ricos”.

Ao se referir às pessoas imensamente ricas, portanto passíveis da cobrança dos 2% sobre os seus patrimônios, o autor indica, no caso do Brasil, aquelas que têm capital igual ou superior a US$ 100 milhões; na França, igual ou superior a 100 milhões de euros.

Segundo o autor, no Brasil, o número de bilionários não é grande, pois não passa de 70 pessoas que possuem riqueza superior a US$ 1 bilhão e cerca de 1.400 pessoas com patrimônio na casa de US$ 100 milhões.

O importante é ter em mente que o propósito de tributar os super-ricos de forma diferenciada, como proposto pelo autor, não coloca e nem pode colocar em xeque o sistema capitalista ou a livre iniciativa, visa apenas corrigir algumas anomalias do sistema.

A reflexão sobre o tema é palpitante, em especial, pelo fato de que taxar os super-ricos não é mais uma ideia só da esquerda.

O autor trabalha com a ideia de que é possível, por meio do ajuste tributário como proposto e sem romper com o viés do capitalismo racional – corrigir injustiças sociais e, com isso, preservar e fortalecer o princípio da igualdade de que todos devem contribuir da mesma forma, além de reduzir e corrigir a concentração de renda e a influência sobre os Poderes. Tudo isso, repito, no âmbito da livre iniciativa. 

A democracia não funciona bem se um grupo minúsculo de pessoas pode comprar influência. Isso é verdade independentemente de como ficaram ricas.

Como exemplo, cita-se o bilionário Musk, que construiu sua própria riqueza, mas que não escondeu o desejo de influenciar eleições não só nos EUA, como também no exterior. O autor conclui que a democracia poderia funcionar melhor sem essa influência.

Esse descompasso se deve ao fato de o sistema tributário ter deixado de acompanhar as transformações da riqueza contemporânea, cada vez menos convertida em renda tributável. Esse fenômeno não ocorre apenas no Brasil, espalhou-se pelo mundo!

A proposta é complexa, daí a necessidade de que a mesma seja incorporada pela maioria dos países ou blocos, a fim de evitar fuga de investimentos de um país para outro.

A ideia aqui trabalhada vem fortalecer a assertiva à qual me referi recentemente no artigo “Algumas Reflexões sobre Direita e Esquerda”, a de que os conceitos de direita e esquerda, vistos sob um enfoque racional, isto é, sem radicalismo, longe de se repelirem, complementam-se.

Tema pertinente para ser discutido e refletido pelos candidatos nas próximas eleições.

Trata-se de tema importante. Também é relevante o contraponto de que, no nosso país, os tributos na sua grande maioria não trazem a contraprestação desejada. Isso é fato!

Justiça social também se faz com tributos, mas só a taxação, por si só, não basta!

Artigo

Domínio invisível chinês

A eficácia dessa abordagem reside no ponto cego criado para o Ocidente. Atento ao desgaste de obras como megaportos e usinas

17/08/2026 07h15

Continue Lendo...

Existe uma transformação silenciosa na América Latina. Enquanto a diplomacia se hipnotiza com a rivalidade entre superpotências, a geopolítica é reescrita nos bastidores de prefeituras, editais de transporte e câmeras urbanas. Trata-se da expansão chinesa em sua versão mais sutil: um modelo que abandona os holofotes para se enraizar na infraestrutura básica que faz as cidades funcionarem.

A eficácia dessa abordagem reside no ponto cego criado para o Ocidente. Atento ao desgaste de obras como megaportos e usinas, Pequim recalibrou suas agulhas para priorizar a negociação capilar com governadores e prefeitos, oferecendo respostas imediatas a demandas locais.

Ao fornecer ônibus elétricos, gerenciar redes de energia ou manter trens, corporações chinesas erguem uma dependência sistêmica.

Cada contrato parece inofensivo, mas o efeito cumulativo é devastador: quando um estado percebe que seus serviços dependem exclusivamente de suporte chinês, sua margem de manobra política evapora.

Essa presença física serve de veículo para o motor do domínio contemporâneo: a Rota da Seda Digital. Em vez de erguer apenas concreto e aço, a China constrói os canais invisíveis da informação.

Prefeituras sem diretrizes de segurança cibernética encontram em gigantes chinesas ofertas irrecusáveis de modernização. Redes 5G e a migração de dados para a nuvem fazem a máquina pública operar sob uma arquitetura mantida por Pequim.

Consolida-se o aprisionamento tecnológico: governos locais tornam-se reféns de atualizações e suporte contínuo, transferindo sua soberania sem que a sociedade perceba.

O desdobramento mais sensível dessa arquitetura é o processamento de dados por inteligência artificial. Sob o conceito de “Cidades Seguras”, adquirem-se sistemas para mapear o tráfego, rastrear veículos e identificar rostos em tempo real, ocultando sob o combate ao crime uma colheita ininterrupta de dados biométricos.

O perigo geopolítico vincula-se à Lei de Inteligência Nacional da China, que obriga empresas a cooperarem com o Estado. Assim, o acervo colhido na região fica exposto ao acesso direto de Pequim, estabelecendo uma vigilância preditiva sem precedentes.

A corrupção e o pragmatismo político funcionam como o lubrificante ideal para que gigantes chinesas contornem auditorias técnicas e éticas.

O caso da Hikvision no Rio de Janeiro ilustra essa dinâmica: sob o pretexto da segurança pública, o estado firmou contratos milionários de reconhecimento facial em meio a denúncias de opacidade, direcionamento e superfaturamento.

Enquanto a empresa sofria sanções por riscos de segurança e violações de direitos humanos, a administração no Rio aprofundava a parceria, entregando o controle do espaço público indiretamente para Pequim.

A Rota da Seda Digital reconfigura a soberania continental. A América Latina não está sendo submetida por doutrinação ideológica ou coerção militar, mas pela dependência operacional dos elementos básicos da sociedade moderna.

À medida que prefeituras e estados entregam redes de energia, dados biométricos e trânsito ao ecossistema tecnológico de Pequim, a autonomia dilui-se de baixo para cima.

O resultado é uma hegemonia algorítmica e invisível – erguida em cada servidor instalado, câmera ativada e licitação homologada –, que redesenha o mapa do poder global sem que o mundo perceba.

Editorial

Que a campanha fortaleça a democracia

Sem política, não há espaço institucional para o debate de ideias, para a negociação de interesses e para a construção coletiva das decisões que afetam toda a sociedade

17/08/2026 07h10

Continue Lendo...

Foi dada neste domingo a largada oficial para a campanha eleitoral, período que se estenderá até o dia 2 de outubro, dois dias antes da votação do primeiro turno, marcada para o dia 4 de outubro, um domingo. A partir de agora, candidatos, partidos e eleitores entram em uma etapa decisiva do processo democrático, na qual propostas, ideias e projetos para o País deverão estar no centro do debate.

O que se espera destas eleições, acima de tudo, é que todos os candidatos joguem limpo. A disputa pelo voto não pode ser transformada em uma guerra de ataques, mentiras, manipulações ou acusações sem fundamento.

A democracia pressupõe divergência, mas também exige respeito às regras e ao eleitor. Para garantir que isso aconteça, estará presente a Justiça Eleitoral, responsável por fiscalizar o cumprimento da legislação. Mas há outro personagem igualmente importante nesse processo: o próprio eleitor.

É também pela manifestação do eleitor, nas urnas e ao longo da campanha, que se estabelece o limite para determinados comportamentos políticos. Cabe à sociedade rejeitar a desinformação, a baixaria e as tentativas de transformar a eleição em um espetáculo de agressões, com um olhar atento para o universo digital. O voto consciente é uma das principais ferramentas de que dispõe o cidadão para influenciar os rumos do País.

Por isso, o período de campanha eleitoral é importante. Mais do que uma sucessão de eventos, discursos e propagandas, trata-se de uma oportunidade para que o Brasil amadureça e, quem sabe, faça as pazes com a política.

Não é uma tarefa simples. Nas últimas décadas, sucessivos escândalos de corrupção, promessas não cumpridas e a desconexão de parte dos políticos com a realidade da população contribuíram para desgastar a imagem da atividade política.

A demonização da política, entretanto, não resolve o problema. Pelo contrário. É preciso reconhecer que, em uma sociedade democrática, não existe outro caminho para tentar fazer valer nossos princípios, defender nossas convicções e construir o mundo que desejamos senão por meio da própria política.

É compreensível que o cidadão esteja decepcionado. É legítimo cobrar, fiscalizar e exigir mudanças. O que não parece razoável é concluir que a política, por causa dos erros de alguns de seus representantes, seja necessariamente algo negativo.

Sem política, não há espaço institucional para o debate de ideias, para a negociação de interesses e para a construção coletiva das decisões que afetam toda a sociedade.

É verdade que existem outras formas de governo nas quais mudanças estruturais podem ocorrer sem que tenham a política democrática como ponto de partida.

Regimes autoritários podem impor transformações pela força, pela supressão de direitos e pela concentração do poder. Mas essa é outra história – e não é o caminho que uma sociedade democrática deve desejar.

O que se espera, portanto, é que esta campanha seja justa, tranquila e respeitosa; que os candidatos apresentem suas propostas, expliquem suas escolhas e aceitem o contraditório; que a Justiça Eleitoral cumpra seu papel e que os eleitores também façam a sua parte.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).